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A Escarreta (post escatológico, não ler *)

(* é um dos avisos que mais clientela traz, mas não se podem queixar que vão ao engano)

O casal terá, em conjunto, para cima de cento e oitenta anos. Atravessam o jardim em câmara lenta, ele muito direito, ela curvada em duas, apoiada nele. Chegaram àquela idade em que até a parte capilar se inverteu: ela tem três ou quatro cabelos brancos que, por magia, conseguem parecer dez ou vinte, atravessados de lá para cá pela cabeça fora. Ele é dono de uma cabeleira que faria inveja a muito rapaz de quarenta, um bigode retocido e um chapéu.
Todos os dias, ao fim da tarde, vestidos de roupa a condizer com a hora, vão lanchar à pastelaria que fica do outro lado do jardim. Imagina-se que saem de casa às cinco e percorrem os duzentos metros que ficam entre as duas portas. Às seis, já sentados, pedem duas meias de leite e duas torradas.

À entrada da pastelaria está um coiso de metal para guardar os guarda-chuvas.
Nessa tarde não chove. O coiso está vazio.

Dentro da pastelaria, estão já sentados uma rapariga loira e uma criança de cinco anos, com uma bica e um ovo kinder à frente. A rapariga levanta-se para ir buscar um copo de água no exacto momento em que o casal entra. Um ruído de garganta fá-la voltar-se para a porta. A senhora já avançou para uma mesa vaga, mas ele, o dono do chapéu, está a tentar arrancar qualquer coisa do fundo dos pulmões, apenas com recurso aos músculos do pescoço. A rapariga fica a olhar durante os segundos que esse processo demora. Finalmente o homem consegue livrar-se do alien que lhe entope a glote e, julgando-se ainda noutros tempos, vá de cuspir o bicho para dentro do coiso dos guarda-chuvas.

Erra a pontaria.

O bicho cai no chão ao lado. Mesmo à entrada, mesmo à porta. O senhor olha para baixo e segue caminho para a mesa onde a mulher o espera. Por detrás do balcão já se preparam as meias de leite e as torradas.

A rapariga volta para a mesa onde está a criança e tenta acalmar os vómitos que começa a sentir. Sem saber se há-de fazer de conta ou se avisa a empregada. Fica ali num impasse, a tentar não olhar para o chão, sem conseguir muito bem, a imaginar que daqui a nada ou alguém escorrega ou a criança ainda lá mete o dedo a perguntar o que é aquilo tão feio, uma lesma? Os cenários ficam cada vez mais apavorantes e ela decide-se a chamar a empregada e a explicar o que se passou. A empregada, muito discretamente, vai buscar uma esfregona entre suspiros e ruídos de nojo e limpa o chão.
A rapariga assiste à limpeza.
Depois levanta os olhos para a mesa do casal.

E nunca mais me esqueço da ferocidade com que fui brindada no olhar daquele homem, cuja dignidade se viu assim espatifada por uma criatura que não tinha nada que ter visto aquela mostra de decadência do corpo.
Acho que trespassei qualquer coisa que não deveria ter trespassado. Mas não tive alternativa. Acho eu.

Comentários

Também me parece.

Acabaste de me tirar o apetite para o almoço.
E para a próxima pode ser que o senhor se lembre de ir fazer essa coisa para a casa de banho ou para um lencinho.

O que é que estavas à espera? Querias expôr as excrecências alheias assim sem mais nem menos? Támali.

Nããããoooo. Não, não, não, diz-me que não foi assim, não existiu. D-i-s-g-u-s-t-i-n-g

O que eu acho mais curioso nesses escarradores em público é que o fazem com um tal à vontade que não percebo se se darão conta do estrilho que aquela merda faz.

Foi verdadíssima. E eu avisei que era um nojo de post.

Direi que é antes um nojo de hábito, não me repugnou o post. Que grande porcaria que as pessoas fazem. Se calhar este mesmo ansião acha mal imensa coisa, mas cuspir é normalissímo. Cáfilas. Cáfilas de cuspidores compulsivos é o que este país parece ás vezes.

Que horror, que horror, que horror, que horror; mas eu já me senti exactamente assim.

Pois eu só tenho a agradecer à personagem principal do post, a escarreta, por uma tarde de riso incontrolável. A meio de uma partida de snooker, segreda-me a parceira de jogo para reparar na lapela do casaco de um dos espectadores mais atentos. Lá estava ela, de um amarelo esverdeado, reluzente e maior que nunca. A pinta do homem ajudava à festa, cheio de estilo, o Zézé Camarinha lá do sítio. A partir desse momento foi-nos impossível controlar o riso e a qualidade do jogo descambou (os tacos tremiam). Ele sorria com aquele ar condescendente de quem sabe que estamos pedrados o que nos facilitou bastante a vida pois já não era preciso tentar disfarçar o riso. Foi mesmo muito bom, aquela hora rejuvenesceu-me. Ainda bem que não apareceu nenhuma Catarina , pois o homem provavelmente iria deixar de nos achar piada.

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