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a morte na vida

Um episódio infeliz levou-me a passar dois dias num hospital.
Tendemos a ver estas experiências como extremamente nefastas e cabalmente negativas. No entanto, saíndo para fora do nosso drama pessoal, um hospital torna-se um lugar fascinante, como outro qualquer.
Passeando pelos corredores meticulosamente desenhados em labirinto, subindo e descendo escadas, é fácil perdermo-nos. Vamos parar a sítios habitados por equipamentos aparentemente recuperados de filmes antigos de ficção científica. Ou a uma ala nova, cheia de caixotes, com cheiro a materiais de construção, onde paira uma musiquinha e se pode dançar um pouco, num intervalo.
Há quem precise de ajuda, facilitando a saída da nossa angústia particular. Mães inexperientes recebem sempre com alívio uma sugestão que possa apaziguar o choro intermitente das suas crias, ou uma mão que as embale enquanto vão tratar de si.
Numa das minhas excursões noctívagas, procurava uma porta por onde pudesse sair para o exterior para fumar um cigarro – e por onde pudesse voltar a entrar. Entabulei conversa com duas enfermeiras, que decidiram levar-me com elas até á saída das urgências. Aqui, passei por corredores sem fim, repletos de macas. Sobre elas jaziam, quase invariavelmente, velhos. O olhar vago, a expressão de quem não sabe se espera o tratamento ou a morte, a tentativa falhada de corresponder ao sorriso que lhes dedicamos, a fisionomia crispada pela dor.
A vida está presente nas vertentes expressivas da morte, da doença e da salvação.
Tenho um amigo cuja saúde o obriga a frequentes internamentos hospitalares. Um dia, uma das suas visitas estranhou a bonomia com que ele enfrentava tratamentos penosos, temporadas passadas em enfermarias. Ele respondeu estás a ver todas aquelas camas vazias? Já foram todos embora. Sorriu. E olha que não foram para casa.

Comentários

Intenso, cara amiga. Bom...

Muito bom mesmo. Gostei.

Uma benção †

Espero que tudo tenha acabado em bem, tanto quanto possível.

o ciclo completa-se.....!
A vida e a morte e a esperança de estar!
O presente e a consciencia de que a vida é curta e breve mas q é... torna esse sorriso muito especial.
E dá animo a quem precisa...

Uma boa peça jornalistica... que retrata uma vez mais a realidade no seu mais cruo e belo!!!!

O hospital também serve para isso, a abertura da porta para
a saída com destino ao cemitério.

congeminações: em vernaculo hospitalar chamamos-lhe JEC (jesus esta chamando)

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