A orelha que adivinha

(ilustração de joão cóias)
Sentia a orelha direita gelada, o que me obrigou a um doloroso coitus interruptus. E logo naquele dia, que tinha engatado a Jolie. Acordei. Estranhei que tivesse acontecido com aquela orelha, porque a outra (a esquerda!) é que estava ao léu, mas vá lá um gajo travar-se de razões com uma orelha – é parte do corpo que não nos encara de frente. Podia dizer que são só garganta, não fora cair um bocado no non sense - e logo num post que se quer sério, afinal trata-se de uma estória verídica! Eram seis da manhã. Raisparta a minha vida, o sonho já não o apanho outra vez, qu’isto dos sonhos é malta que não espera por ninguém. Encostei-me mais dez minutinhos (não confundir com dez minutos). Meio-dia! Acordei como se tivesse sido atropelado por um cowboy – resultado, muito provavelmente, da carga de porrada que levei do Brad Pitt (afinal alguém esperou por mim) e das trinta e seis vezes que calquei no snooze do despertador. Foram por trinta e seis vezes só mais dez minutinhos. Deviam pôr pernas no cabrão do despertador assim que se carrega a primeira vez. Isto dá cabo dum homem. Tomei o pequeno-almoço e almocei – não gosto de quebrar rotinas. Uma taça de cereais, uma sopinha, um bife grelhado com batatas fritas e ovo a cavalo. No bife. Uma laranja. Cheguei à repartição a tempo da abertura da tarde, com ar de quem estava em paz. ‘Tão, pá? Quéquesepassou, meu? O chefe nem vai acreditar. Faltou a luz na minha área e o despertador não tocou / tive um acidente / a minha tia morreu / o meu cão passou mal a noite / estou muito triste. Optei pela última (hás-de pagá-las caro). Tinha faltado de manhã porque estava muito triste. Era oficial. Já não podia voltar atrás. Esperei pela desova. Vai-te sentar que já lá vou falar contigo. ‘Tou fodido. A minha mesa estava um verdadeiro caos. Resolvi arrumá-la para que o chefe não pegasse também por aí. No meio do labor deixei-me dormir – tal era. Voltei à Angelina.
O chefe acordou-me com um beijinho na orelha direita. Eram sete da tarde. Não havia mais ninguém na Repartição.

Comentários
Aconselho-te vivamente a mandar o despertador para o lixo. Não sonhes com miúdas comprometidas. E quando fores para o escritório, entra de costas com o ar natural de quem vai sair. A sério, acredita.
Aqui, que ninguém nos lê, o meu nome é João Maria, como sempre tive uma profissão liberal, era conhecido pelo "João Meio Dia"...
Mas nunca sonhei com nada tão Jolie. Apenas pesadelos e snoozes de 10 minutinhos (diferentes dos 10 minutos). Mas a vida é feita de períodos de 10 minutos, só que não têm snooze.
afixado por: João Cóias | janeiro 10, 2006 05:54 PM
"a vida é feita de períodos de 10 minutos, só que não têm snooze."
Que coisa mai'linda, João Maria. ;)
afixado por: João Cúcio | janeiro 10, 2006 05:56 PM
Volta à medicação, pá. :)
afixado por: Heidi | janeiro 10, 2006 06:00 PM
Vpou comprar um relógio que só marque períodos de uma hora....Sem snooze.
afixado por: João Cóias | janeiro 10, 2006 08:18 PM
há lá coisa melhor do que virar-me para dormir por mais dez minutos! (por acaso até há, mas não vou por aí.)
tiveste mais sorte com o chefe do que com a angelina?
afixado por: susana | janeiro 11, 2006 02:27 PM
bonito texto Daniel Cúcio
afixado por: real | janeiro 11, 2006 02:31 PM
Obrigado pela simpatia, real-MENTE! Chamo-me João, sócio. ;)
Susana: É um facto. Mas não há nada pior que fazer isso 36 vezes na mesma manhã. Quanto ao chefe, espero que o herói desta estorieta (é um herói, né?) tenha saído, não na penúltim estação, como com a Angelina, mas que nem sequer tenha chegado a entrar. Quem sabe o gajo volte um dia destes para nos esclarecer.
afixado por: João Cúcio | janeiro 11, 2006 02:57 PM
Boss, muda para Daniel Jolie. Ficava bem fixe ;))
afixado por: João Cóias | janeiro 11, 2006 04:39 PM
Bosscúcio ???? eh eh eh bem apropriado, bem apropriado..
afixado por: real | janeiro 11, 2006 05:16 PM
Excelente!
afixado por: Raquel V. | janeiro 11, 2006 05:48 PM