Dissolução
Olhando para trás, vejo bem que tudo começou com o sonho. Aquele de que me lembrei tão detalhadamente ao acordar que, pela primeira vez, não me senti culpado por não ter nunca posto em prática uma das minhas resoluções de ano novo desse ano, criar um caderno de sonhos. Porque eu até levei papel e lápis para ao pé da cama, mas quando acordava o suficiente para me lembrar de escrever, o sonho já tinha fugido, já se tinha perdido por uma estrada qualquer meio nevoenta da minha memória, e a única coisa que restava dele era a certeza que tinha existido, e uma vaga sensação de ter sido agradável ou não, às vezes uma ou outra cena que desaparecia prontamente assim que fazia qualquer tipo de esforço para a fixar. Foi então que decidi que, pelo menos para mim, o sonho e a realidade eram dois termos que se excluíam mutuamente, e que era inútil tentar criar o tal caderno de sonhos, por muito que todos dissessem o quão úteis eram para uma pessoa conseguir entrar em contacto com o seu eu mais profundo – coisa que sempre almejei porque, tendo em conta a minha dificuldade em contactar com outros seres da minha espécie, e tendo deixado de lado a ideia de contactar extra-terrestres desde tenra idade, se conseguisse contactar o meu eu mais profundo pelo menos sempre teria alguém com quem falar. Claro que esta decisão de nem sequer tentar não fez, como é hábito, desaparecer a culpa de não cumprir a minha resolução de ano novo, e é por isso que digo que, nesse dia, o dia do sonho, foi a primeira vez que não me senti culpado por não a ter cumprido.
Nesse dia acordei. Não me lembro bem se foi o sonho que me acordou, ou se foi o sol na janela, o que sei foi que quando acordei, me lembrava claramente do sonho. No sonho, eu andava na rua. Era uma rua vulgar, numa cidade vulgar, onde andavam pessoas vulgares. A única coisa que não era vulgar era a luz. No meu sonho era um lindo dia de sol, com um céu azul, azul, tão azul como não é vulgar ser numa cidade qualquer. E eu andava na rua, feliz com o sol e o azul. Esta foi a primeira parte do sonho, e era um sonho bastante vulgar, nada que indicasse que este sonho, entre tantos outros, seria aquele que me faria esquecer a culpa de não cumprir a minha resolução de ano novo desse ano.
Bem, no sonho eu andava na rua. E de repente, tão de repente que o meu corpo levou algum tempo a aperceber-se desse facto, e por momentos entrou em conflito com a minha cabeça, entraram em discussão sobre quem o tinha ordenado, se um ou o outro, o ovo ou a galinha, mas isso não interessa nada, foi o que lhes disse, porque o que interessa é que, de repente, parei. E quando me apercebi disso, no preciso momento em que já tinha parado e o meu corpo e a minha cabeça se puseram de acordo sobre esse facto, nesse preciso momento, dizia, foi quando me dissolvi.
Dissolvi-me, dizia, mas não no ar, nem me dissolvi em água, apesar de dizerem que o nosso corpo é constituído por 70 por cento desse elemento, não me dissolvi em lágrimas, como às vezes se diz nos livros, dissolvi-me, literalmente, em merda. Num minuto estava parado e apercebi-me disso, e no outro minuto estava dissolvido num monte gorgolejante de merda no meio do chão.
Fiquei a olhar para o meu corpo dissolvido em merda, no meio da rua, e quando me passou o primeiro choque de surpresa, olhei em redor, meio em pânico que o meu estado provocasse o nojo dos passantes e que isso resultasse em eu ser sujeito a alguns comentários menos simpáticos, mas para minha surpresa, ninguém pareceu importar-se com isso. Desviavam-se mecanicamente do monte de merda, mas ninguém pareceu admirado com o facto de ele, o monte de merda, estar ali, no meio da rua, como se não o vissem, ou, vendo-o, achassem natural que ele estivesse ali. Foi então que comecei a recear que o pisassem, ou melhor, que me pisassem, visto que o monte de merda era, ou pelo menos tinha sido, eu. Já bem basta uma pessoa ter-se dissolvido num monte de merda no meio do chão, para ainda para mais ser pisado, dilacerado por uma qualquer sola incauta.
Foi então que comecei a pensar em como haveria de sair dali, agora que o meu corpo gorgolejava no passeio. A incerteza invadiu-me, não sabia como mover o monte de merda que tinha sido eu, descolá-lo daquela rua, daquele passeio, chegar a casa. Estava perplexo, e foi nesse estado de perplexidade que acordei.

Comentários
Ali estava eu, em êxtase, a ler o teu sonho, cheio de sóis e azuis. E eu, entusiasmado, pronto a fazer um belo comentário sobre sonhos, e sobre este belo espécime de sonhos que nos trazias...
Depois cheguei à parte da merda...
Bom...
Que dizer?...
Lá fora está um lindo dia azul com sol, mas agora isso provoca-me um enorme sentimento de repulsa... ;)
Às vezes, há sonhos que, qual caixa de Pandora, deviam ficar no esquecimento!
afixado por: Bernardo | janeiro 19, 2006 11:34 AM
Pobre Bernardo... ; ) Não era a minha intenção.
E realmente há sonhos esquisitos.
Mas este não foi meu. Apenas um pequeno exercício de escrita.
afixado por: M. | janeiro 19, 2006 01:15 PM
Adorei, e gostava sinceramente que não tivesses acordado ;). Gostava de saber como é que o monte de merda iria sair dali.
Não queres fazer mais um capitulo???
Vá lá :)
Please.
afixado por: miss_caipira | janeiro 19, 2006 07:09 PM
Só agora consegui ler o teu texto. Está mesmo bom! Os sonhos são mesmo assim, entre estarmos neles e ao mesmo tempo conseguirmos ver de fora, não é?
afixado por: catarina | janeiro 19, 2006 11:12 PM
e eu agora. só vim á net em intervalitos e não era texto para ler aos bochechos. muito giro. agora vou passar a olhar com outra curiosidade os cagalhotos no passeio, não vão eles ser o sonho de alguém.
afixado por: susana | janeiro 20, 2006 01:08 AM
Lol, susana!
São mesmo assim, cat, é verdade.
miss-caipira, o segundo episódio segue dentro de momentos... Assim que eu sair da reunião e tiver tempo para postar.
afixado por: M. | janeiro 20, 2006 08:43 AM
Essi sonhu é do diabu!
Pessoal, o caminho é Jesus.
afixado por: Anonimato | novembro 15, 2007 06:58 PM