Dissolução (cont.)
Acordei perplexo, como já disse, e quando acordei o suficiente para me lembrar de escrever, percebi que o sonho não tinha fugido por nenhuma estrada enevoada da minha memória e, portanto, não precisava escrever – o que só veio reforçar a minha ideia de que os cadernos de sonhos são na verdade projectos, se não impossíveis, certamente inúteis, porque daqueles sonhos que recordamos o suficiente para escrever nunca mais nos esquecemos, tal como eu nunca mais me esqueci deste.
Olhei bem para o meu corpo debaixo dos lençóis, passei as mãos por ele, e verifiquei com um certo alívio que continuava ali, o que confirmava que tinha sido um sonho, e na verdade não me tinha dissolvido em merda. Levantei-me de um salto, arranquei o pijama, e coloquei-me em frente ao espelho. Era bem verdade, tudo continuava no seu sítio, o meu corpo era exactamente como me lembrava de o ver no dia anterior de manhã. O meu reflexo encarava-me com um ar perplexo, mas não havia nada que eu pudesse fazer, realmente, a não ser o pequeno almoço.
E foi enquanto mastigava as torradas que percebi a minha própria perplexidade. Porque ela não se devia já a não saber como chegar a casa, como é bom de ver, uma vez que já lá me encontrava. Portanto, se era a isso que se devia a minha perplexidade antes de acordar, depois de acordado e de ter percebido que tinha tido um sonho, se continuava perplexo era por uma razão diferente. Dir-me-ás que uma pessoa sonhar que se desfaz num monte de merda é razão suficiente para justificar sentimentos de estranheza, e tens provavelmente razão, mas também não era só isso. Na verdade, o que me fazia sentir um friozinho de estranheza a percorrer-me a espinha era o facto de não conseguir compreender o que tinha sentido durante o sonho. Porque por debaixo de todos os sentimentos óbvios, a surpresa, o pânico, o receio e a perplexidade, tinham existido outros sentimentos, que ainda não tinha conseguido descrever em palavras, nem para mim mesmo, e que só identifiquei no momento preciso em que mastigava a primeira dentada na segunda torrada dessa manhã. No meu sonho, dissolvido num monte de merda no meio do passeio, por baixo de todos os sentimentos óbvios (a surpresa, o pânico, o receio e a perplexidade), eu tinha sentido uma paz, uma leveza, uma pureza como nunca tinha sentido antes. Parece estranho, eu sei, que alguém que se dissolveu em merda se sinta limpo, purificado, em paz. Mas o facto de ser estranho não o tornava menos verdade, e por mais que me esforçasse não conseguia lembrar-me de outra altura em que tivesse sentido o mesmo.
E foi ao compreender isto que tive a ideia que me salvou, a ideia que me permitiu encarar os longos meses, talvez anos que se estendiam vagarosos à minha frente desde que me tinham mandado para casa com reforma antecipada com o entusiasmo de quem tem um objectivo. Foi aí que nasceu a ideia do Culto.

Comentários
a menina está em grande.:)
afixado por: susana | janeiro 20, 2006 12:01 PM
O Culto??? Ui...
(eu quero ler o resto! eu quero ler o resto!)
afixado por: catarina | janeiro 20, 2006 12:34 PM
O resto segue nos próximos dias...
: )
afixado por: M. | janeiro 20, 2006 01:56 PM