« O que é deveras aborrecido para os blogs políticos | PÁGINA DE ENTRADA | Assumida a derrota »

Dissolução (cont.)

É por isso que quando digo que tudo começou com o sonho, estou mesmo a dizer a verdade. Foi do sonho que nasceu o Culto da Sagrada Dissolução, e se é certo que ele não nasceu perfeitamente acabado, se é certo que os pormenores e os mandamentos do Culto me foram surgindo nas horas, nos dias subsequentes ao sonho, a verdade é que foi ali que tudo começou.
Na verdade, a ideia do Culto em si só se materializou quando me chegaram os pormenores, e estes foram-me chegando quando comecei a racionalizar o sonho e o que tinha sentido.
Os primeiros chegaram logo nesse dia, enquanto fazia a barba em frente ao espelho – esse foi também o primeiro dia em que fiz a barba depois de ter sido mandado para casa, durante muito tempo tinha-me parecido inútil fazê-la, já que não tinha lado nenhum para onde ir onde tivesse de estar apresentável -, e continuaram a chegar depois, quando saí para a rua, pela primeira vez em muitos dias, para um lindo dia de sol, e comecei a passear ao acaso pelas ruas da cidade.
Na verdade, o raciocínio era muito simples, e o brilho dessa simplicidade não deixa de me atormentar – se tivesse tido esta revelação (é assim que lhe chamo, ao sonho, revelação, dá jeito usar palavras com conotação religiosa quando se tenta explicar o nascimento de um Culto) antes, quão diferente tinha sido a minha vida! Tenho a certeza, Maria, que não me terias deixado, por exemplo, e se se pensar bem em como o simples facto de teres saído de casa, numa manhã de Fevereiro há 10 anos atrás, mudou a minha vida, é fácil de ver como tudo teria sido diferente. Porque a verdade é que voltaste agora, Maria, portanto é seguro dizer que se tivesse pensado no culto antes, há 11 anos atrás, por exemplo, não me terias deixado. Ou talvez sem ter tido 10 anos sem ti a ideia do Culto nunca me tivesse chegado, mesmo que tivesse sonhado que o meu corpo se dissolvia em merda numa bela manhã de sol. Mas estou a dispersar-me – sim, como de costume, não me precisas de dizer – estava a explicar-te como me chegaram os pormenores.

Passeava eu então pela rua, logo depois de ter feito a barba, num lindo dia de sol, no dia em que tinha acordado com o sonho. E pensava nos pormenores. E o que pensei foi basicamente isto – vê lá se consegues seguir o raciocínio, é na verdade muito simples, apesar de eu o tentar abreviar para ti, não terás com certeza paciência para todos os detalhes: a única razão possível para eu me ter sentido em paz, purificado, quando me dissolvi num monte de merda no meio da rua no meu sonho, só podia ser que, no fundo, no fundo, era assim que eu sempre me tinha sentido, era isso que eu sempre tinha sido, na verdade, um monte de merda.
Ser um monte de merda sempre tinha sido a minha verdadeira natureza, e ter passado pela minha vida inteira disfarçado, até para mim mesmo, de outra coisa – que outra coisa... sei lá, de homem, com uma vida normal, um emprego, uma mulher, e depois de teres saído de casa, sem mulher, Maria, mas não é isso que interessa, não entendes, tudo isso é acessório, fiquemos pelo essencial – tinha representado um peso insuportável, uma dificuldade acrescida, um tormento, numa palavra, de que nunca me tinha realmente apercebido, mas que sempre tinha sofrido. A vida sempre me pareceu tão pesada, Maria, sem sentido. E era assim porque eu desconhecia a minha verdadeira natureza. Mais, não só a desconhecia, como lutava contra ela, tentava ser sempre outra coisa, enterrá-la debaixo daquilo que eu pensava ser eu.
Que liberdade, que leveza, que felicidade perceber finalmente, poder admitir finalmente aquilo que sou, Maria: um monte de merda. Porque a verdadeira liberdade é, só pode ser, ser aquilo que é a nossa verdadeira natureza. Não há maior prisão do que aquela que infligimos a nós próprios quando enterramos o nosso verdadeiro eu debaixo de uma falsa personalidade, que exige de nós sempre mais e mais coisas, cada uma delas cada vez mais distante daquilo que somos.
Nunca fui tão feliz como nesse dia, Maria, juro-te, a passear pela cidade num lindo dia de sol, finalmente reconciliado com a minha verdadeira natureza. As pessoas olhavam-me com curiosidade, não apenas porque eu estava feliz – o que suscita sempre ares de curiosidade nas ruas de uma cidade – mas porque deviam perceber pelo meu ar, pelo meu sorriso de cumplicidade comigo mesmo, que eu tinha um segredo, e que esse segredo me tornava feliz. Tu sabes, Maria, que as pessoas nunca me olharam. Muito menos com curiosidade. E foi essa mudança que me fez perceber que o Culto era não só uma boa ideia, mas um imperativo moral.
Vi, nesse dia, claramente visto – sim, não sorrias... -, que tinha a obrigação, o dever, de partilhar com o resto da desgraçada humanidade a minha descoberta. De repente, as pessoas que passavam por mim na rua e me olhavam com curiosidade já não me pareciam estranhos hostis, hordas de inimigos apostados em destruir-me, em humilhar-me, à primeira oportunidade que lhes desse. Pela primeira vez pareceram-me irmãos, senti-os meus, pobres crianças desamparadas, perdidas no mundo, precisando de alguém que lhes mostrasse o caminho, que os guiasse das trevas para a luz. Foi nesse dia que a Humanidade se transformou no meu rebanho, e eu no seu pastor, no seu guia, no seu pai.

Afixe o seu comentário

online