Dissolução (cont.)
Tu conheces os mandamentos do culto, Maria, foi por isso que voltaste, não tenho que tos repetir. Mas acho que não preciso de te dizer que eles não me chegaram assim em catadupa, perfeitamente delineados. As coisas foram surgindo com o tempo.
E ao início, devo dizer-te, não foi nada fácil conviver com o meu sentimento paternal em relação ao meu rebanho. Porque, vês, eu sentia a necessidade de partilhar a verdade com os outros, era uma necessidade urgente, palpitante, que não podia esperar, mas as primeiras pessoas que abordei não eram muito receptivas à revelação de que o destino de toda a humanidade é dissolver-se num monte de merda, e que só assim encontrará a paz. Ao princípio até foi desagradável, tive de fazer uso de todos os meus sentimentos paternais e superioridade moral para não deixar cair a minha ira sobre algumas ovelhas mais negras do meu rebanho, que me insultaram quando lhes tentei passar a mensagem. Tentei controlar-me e tentei perdoar-lhes, não sabem o que fazem, e consolei-me com a lembrança de que tinha sido sempre assim, em toda a história do mundo, as grandes ideias tinham sido sempre recebidas com hostilidade e escárnio.
Foi assim que percebi que, se queria atingir o meu objectivo de salvação das pobres ovelhas, tinha de seguir o caminho que me mostrava a História. Todos os Cultos do mundo o seguiram, e ele é bem simples. Tudo o que é preciso são duas coisas: disfarçar a verdadeira mensagem em palavras simpáticas que não ofendam as ovelhas ao início, e organização.
Quanto à mensagem, facilmente percebi que teria de deixar de lhes falar em montes de merda, se quisesse que me ouvissem. Depois, também percebi que o monte de merda não era, na verdade, essencial para passar a mensagem. Tinha sido a forma como a mensagem me tinha chegado, e era a minha verdadeira natureza, mas não sou tão arrogante ao ponto de pensar que toda o meu rebanho compartilharia da mesma natureza. Assim, a mensagem tornou-se mais simples – se bem que só aparentemente, porque quanto mais se simplificam as coisas mais sentidos escondidos podem assumir, e portanto mais se complicam, na verdade, mas isso são outras reflexões que o Culto me proporcionou, mas só muito mais tarde, quando o trabalho inicial de dispersão da mensagem já estava bem avançado e me deixou tempo para reflectir. A mensagem tornou-se, simplesmente, que o Homem só alcança a liberdade e a felicidade quando aceita e abraça a sua verdadeira natureza, quando se dissolve nela – daí o nome do Culto, Sagrada Dissolução. Nada de novo, dir-me-ás. E tens razão. A ideia não é nova nem original. O que foi novo e original, e o que cimentou o sucesso do culto, foi a forma como ela foi passada, como foi apresentada. E aí, realmente, não me posso furtar a receber os louros. Fui brilhante.
Comecei por os convencer que aquilo que pensavam que eram não era a sua verdadeira natureza. Isto revelou-se de uma facilidade assombrosa – mas realmente depois percebi que nem havia muita causa para espanto, que outra coisa esperar desta sociedade de inadaptados em que vivemos? – e daí a ficarem convencidos que só através de mim poderiam descobrir a sua verdadeira natureza e dissolver-se nela, foi um passo. São como crianças, na verdade, ansiosos que alguém lhes mostre o caminho, dispostos a tudo por uma mão firme que os guie e lhes dê um pouco de compreensão, que perceba a sua dor. Porque todos sofrem, Maria, todos. E todos se sentem sozinhos, todos se sentem diferentes. Quando lhes dizes que os outros não são diferentes deles, nem melhores nem piores, são apenas tão confusos e perdidos como eles, querem acreditar nisso tão furiosamente, que se convencem a si próprios de todo o resto.
Foi tão simples, na verdade. Até o facto de ao princípio ter de deixar muitas perguntas por responder, e por vezes me calar abruptamente quando não tinha mais o que dizer – já te disse que os pormenores e os mandamentos não me chegaram assim em catadupa, de repente, já perfeitos e prontos a usar, foram chegando com o tempo – acabou por ajudar. Cada vez que me calava por não ter nada que dizer, era porque tinha ainda tantos mistérios que não lhes podia revelar; cada vez que não respondia a uma pergunta, eram eles que não eram ainda dignos de ouvir a resposta. Faz-me rir, realmente – tu não achas graça? Enfim...
Quanto à organização, foi também simples, na verdade. Os primeiros seguidores do Culto foram os mais difíceis de recrutar. Depois estes dedicaram-se a recrutar os outros, e poucos meses depois batiam-me à porta às dezenas. Foi quando comprei o primeiro Templo, a minha casa deixou de poder comportar todos os seguidores para o Ricto semanal de Dissolução. Quanto ao sistema que usei para conservar tudo isto a funcionar, foi muito simples: limitei-me a agir como um pai, não tolerar nenhum desacato à minha autoridade, nunca dar muitas explicações, ameaçar os infractores com a retirada do meu amor, e recompensar os bem comportados com a ilusão da minha intimidade.

Comentários
(xiiiii... igreja maná à vista? ai esses ares de Colónia...)
afixado por: Hopelandic | janeiro 24, 2006 11:41 AM
LOL!
Por acaso não tinha em mente nehuma especial, Hopelandic.
E Colónia até é uma cidade maioritariamente católica...
afixado por: M. | janeiro 24, 2006 01:13 PM