Ao princípio era diferente – já te disse que o Culto mudou. Ao princípio deixava a cada um a tarefa de descobrir a sua verdadeira natureza, através de várias sessões. A minha casa parecia um centro de psicanálise, as horas do dia não me chegavam, e os resultados eram muito mais lentos. Foi então que criei o Ricto da Dissolução – já sabes como funciona, não preciso de te dizer. Claro que eram sempre guiados por mim, e no estado em que estavam não eram muito difíceis de guiar – um bocado como tu agora, já começa a fazer efeito, não é verdade? Uma sessão passou a bastar para encontrarem a sua verdadeira natureza.
Ao fim de algum tempo comecei a perceber que o dinheiro que precisava de gastar no Pão da Dissolução para os colocar em estado de receber a verdade acabava-me com as poupanças e a reforma, e foi então que criei o Terço da Dissolução. Só lamento não ter pensado nisso antes, mas de qualquer forma, veio na altura ideal, e se não o tivesse criado, nunca teria podido comprar os Templos.
E foi assim que aqui estamos, eu e tu, Maria, juntos outra vez. Nem queria acreditar, juro, quando te vi esta manhã à porta do Templo, e tu também ficaste surpreendida por me ver, tenho a certeza. Não sabias que era eu o Pastor, não é verdade? É, a vida dá muitas voltas. E aqui estamos, eu o teu Pastor, e tu a minha ovelha, Maria.
Já foi ao contrário, não é verdade? Já houve um tempo em que eras tu o pastor e eu a ovelha, sempre pendurado nas tuas palavras, nos teus humores, nos teus olhares, Maria. Mas não é de admirar, não é verdade? Eu não era mais que um monte de merda disfarçado de homem, e tu estavas tão convencida de ser alguma coisa superior a mim que me convenci também. Não foi difícil. Nunca é difícil convencer os outros de que somos melhores do que eles, não é verdade, Maria? Principalmente se os outros já não se sentem grande coisa, que é o caso da maior parte. Sei o que me fizeste, Maria, compreendi-o quando me vi fazer o mesmo aos outros, e por isso te perdoo. Como o pai que perdoa aos filhos que não sabem o que fazem. Por isso não tenhas medo, não estou à procura de vingança, perdoo-te. Perdoo-te. Estás contente? Sim? Não podes responder, não é? Não te preocupes, é o Pão da Dissolução, não te deixa falar para que te possas dissolver no teu silêncio e nas minhas palavras. Tenho a certeza que estás contente, e isso basta-me.
Agora que tirei isto do caminho, agora que o passado saiu de debaixo da mesa - porque eu te perdoei, Maria - podemos falar sobre o que te fez vir aqui. Pediste-me para te explicar como surgiu o culto, e já o fiz. Agora já te posso ajudar a encontrar a tua verdadeira natureza. Aliás, em nome de tudo o que passámos, vou fazer ainda mais, vou ajudar-te a dissolver-te na tua verdadeira natureza, Maria, estás contente? Claro que sim, Maria, claro que sim, não é a todos que é concedido a benção de avançar em passos tão largos na estrada de sabedoria da Dissolução, Maria, geralmente é preciso muito mais tempo. És uma abençoada, Maria, na verdade.
Portanto aqui vai: sabes qual é a tua verdadeira natureza, Maria? Na verdade é tão simples, tão simples. Percebi-a assim que te vi a entrar pela porta, 10 anos depois de a teres fechado atrás de ti. Tu és nada. Nada. Menos que nada, zero, zilch, niente, nada. És transparente, invisível, insignificante, ridícula, uma aberração. Não existes, és uma negação. Fazes dó, Maria. Essa capa dura de mulher que envergaste estes anos todos é uma mentira, um embuste, porque tu não existes, Maria, não ocupas nenhum lugar no magnífico esquema da criação, não existe uma palavra para te descrever, uma cor, um som, um cheiro. És menos que o pó do passeio, és menos que um monte de merda, não és nada.
Não chores, Maria. Eu sei que é difícil às vezes aceitar a nossa verdadeira natureza, mas com o tempo vais perceber que tenho razão. Melhor ainda, quanto te dissolveres na tua verdadeira natureza, em nada, vais ver e sentir que tenho razão. Nunca vais ser tão livre como nessa altura. Por isso não chores. Ou é por causa disto? Do que tenho na mão? Mas não vale a pena chorar, Maria, não vai doer nada.
Vês, não dói nada. Só uma pressão, um arrepio, um traço suave na tua garganta, e está feito Maria. Já te começaste a dissolver. Sentes? Vês? Toda a substância, todo o ser a deixar-te, a dissolução em nada. Não precisas de me agradecer, de qualquer forma não consegues falar, por isso nem tentes, não vale a pena. Eu sei.
E não é verdade que nos sentimos limpos, purificados, em paz, leves, quando nos dissolvemos na nossa verdadeira natureza? Sinceramente, penso que não há nada melhor, excepto talvez partilhar esse momento com uma das minhas ovelhas. Por exemplo, agora que te dissolveste em nada, sinto-me muito mais leve, Maria. Purificado e em paz.