Primum non nocere

"Death-Masque (La Morte in Masquera)"
24in x 36in, oil/linen, © Linda Falorio 1992.
A propósito desta notícia, apetece dizer que, principalmente na medicina, tudo tem uma indicação e um tempo. A vontade de tratar não deve sobrepôr-se, em circunstância alguma, ao bom senso sob pena de ser retirado ao doente um dos direitos a preservar a partir do nascimento, a dignidade na morte.
A actuação do médico estará sempre comprometida com a acção, enquanto esta se afigurar benéfica e daí resultar melhoria da qualidade de vida para o doente, mas nunca com procedimentos intempestivos, de indicação duvidosa em situações de prognóstico reservado. O velho aforismo hipocrático continua válido, primum non nocere, primeiro não prejudicar. Neste caso, não em nome da almejada cura, mas em nome da dignidade da morte.

Comentários
Concordo em absoluto.
Embora seja um assunto polémico. Os profissionais de saúde, especialmente os médicos, ainda são ensinados e treinados (e quantas vezes chegam à faculdade já com essa ideia) para "salvar vidas". O conceito está certo, mas não é o único objectivo da profissão. E "salvar vidas" pode ser muito mais eficaz e eficiente, por exemplo, vacinando uma determinada população do que estar "puf-puf" a fazer massagem cardíaca a um acidentado. Só que este tem nome, reconhece-se, até nos poderá reconhecer ele mesmo na rua, se ficar bom e se se atravessar no nosso caminho. Os outros, os que não tiveram a doença porque os vacinámos, são "n" - a estatística pode dizer-nos quantos - mas não sabemos deles nada, nomes, moradas ou cara. Pode ser um qualquer - e se nos vir no café não nos vai agradecer nem nós nos vamos lembrar dele como evocando alguma coisa.
Acresce que a Medicina é ensinada, ainda, nos hospitais (só muito raramente nos centros de saúde), e os hospitais estão feitos para "curar". É por isso que um doente terminal que precise de cuidados apenas paliativos fica sempre em segundo plano numa enfermaria geral. Aquele senhor ou aquela senhora estão a contrariar o rumo do hospital, que é "curar". Por isso se diz: "O doente da cama 35 está a morrer!", quando ninguém está a morrer, todos estamos a viver, melhor ou pior, mais felizes ou infelizes, com ou sem dificuldades de vária ordem.
Há já regras, aprovadas pela Ordem dos Médicos, para contrariar o "encarniçamento terapêutico" e respeitar o doente e a família, mas se se vai um pouco além das situações "evidentes", fica-se numa zona muito cinzenta.
Só com uma profunda revisão/revolução individual, corporativa e social (porque as expectativas dos utentes contam muito) se poderá transformar a Medicina numa profissão que visa salvar vidas, claro, mas também integrar a qualidade de vida nesse conceito. O pior é que vida ou não vida, praticamente toda a gente sabe o que é e, é possível definir fronteiras "físicas" e "mensuráveis". Qualidade de vida é algo de individual porque tem a ver com sentimentos, que são, eles mesmos, pessoais e intransmissíveis (só comunicáveis).
Fazer jogging às sete da manhã pode ser excelente para uns e uma tortura para outros...
Enfiom. Divagações sobre o tema - parabéns por o ter trazido à baila. O juramento de Hipócrates é muitas vezes um "juramento de hipócritas"... mas não será a condição humana um pouco assim? Seria de esperar diferente de um determinado grupo profissional?
afixado por: Mário Cordeiro | janeiro 17, 2006 11:08 AM
Olá Cristy, ainda não me tinha cruzado contigo :). Concordo com o Mário, os limites são dificeis de estipular.
afixado por: Hopelandic | janeiro 17, 2006 11:15 AM
Apoiado, Cristy!
afixado por: Bernardo | janeiro 17, 2006 11:45 AM
Parabens Cristy pela temática actual.
É um tema dificil: curar, viver, deixar morrer... são problemáticas complicadas pois os limites e os flous são muitos.
AS dificuldades são tanto para os profissionais como para os doentes /familia.
Falar em sociedade destes temas e até correndo o risco de os "banalizar" é na minha opinião extraordinariamente importante.
afixado por: cila | janeiro 17, 2006 12:01 PM
Mário
Tens razão, salvar sim, mas não a qualquer custo. há um episódio curioso...tive um doente de vinte e tal anos, com uma doença dramática, que sobreviveu a uma reanimação em estado "vegetativo". Como o pai vivia nos EUA decidiu vir buscá-lo num helicóptero-ambulância. quando os colegas tripulantes se aperceberam da situação disse-me um deles: «vocês tratam demais!nós damos 10-20 min. e acabou, se um jovem não recupera nesse tempo é porque os danos são importantes».
Tinha razão, há alturas em que é preciso ter o bom senso de parar, avaliar bem o que estamos a oferecer, dar ao doente a possibilidade de uma morte digna. ser médico é também isso.
Apesar de todas as deficiências ainda existentes na formaçao, principalmente em termos de ética e quase me apetece dizer "sensibilidade e bom senso", as pessoas já vão estando mais sensibilizadas para o problema, aparece o conceito de morte assistida, ou seja, dentro do razoável não nos deixemos arrastar pela compulsão de FAZER SEMPRE alguma coisa. Há alturas em que ESTAR é tudo quanto o doente necessita.
já aprendemos a salvar vidas, agora é preciso aprender a salvar a morte.
obrigada pela reflexão
beijo
afixado por: cristy | janeiro 17, 2006 12:08 PM
hopelandic
olá!
já não são tão difíceis assim...desde que haja uma avaliação correcta da viabilidade da situação, torna-se relativamente fácil a decisão. às vezes continua-se a investir por puro preconceito.
beijo
afixado por: cristy | janeiro 17, 2006 12:15 PM
olá Cila :))
é importantíssimo, até porque as famílias também ainda não estão preparadas para o desinvestimento. arrisco mesmo dizer que muitas vezes o médico é influenciado pela pressão dos familiares a atitudes intempestivas e sem qualquer justificação, como bem sabes.
beijo
afixado por: cila | janeiro 17, 2006 12:28 PM
Eu concordo,porque os médicos trabalham para ajudar as pessoas e não ficar receitando medicamentos errados,porque às vezes uma pessoa pode até morrer por causa disso.Tem médicos que só se preocupam em ganhar dinheiro e se esquecem do que é dever deles e eles ganham para ajudar as pessoas e não para matá-las.
afixado por: Paul Soares | outubro 22, 2007 05:46 PM