Precisamente, doutor.
As árvores nuas fazem-me medo, doutor, foi por isso que vim.
Sim?
Sim. Não é que seja medo, medo, não acho que me vão atacar nem nada que se pareça. Mas é um problema, nesta altura do ano. Vivo com medo, não durmo de noite. Da minha janela, de onde se vê verde na Primavera, agora só existe cinzento, o cinzento escuro das árvores contra o cinzento mais claro do rio e do céu, e às vezes o cinzento mais escuro dos pássaros. Nem sei como eles se orientam, como não se perdem neste mundo todo da mesma cor que se vê da minha janela. Mas o pior não é isso, doutor.
Não?
Não. O pior é que a minha janela também vejo outras janelas. Muitas janelas, mas sobretudo duas, vermelhas, mesmo à minha frente. O pior é isso, doutor.
Sim... E porquê que é isso o pior?
Bem, o pior é que as minhas janelas são brancas, doutor.
Brancas...
Sim.
Hum....
Bem, provavelmente cinzentas também. Sim, de certeza que quem vive na casa das janelas vermelhas olha para as minhas janelas e as vê cinzentas, apesar de estarem pintadas de branco. Porque se eu olho para as janelas vermelhas, de certeza que olham para as minhas janelas brancas, não é verdade?
Pois, parece-me provável. Mas ainda não percebi do que tem medo, afinal. Das árvores ou das janelas?
Bem, das duas, suponho eu.
Das duas...
Sim, mas não das vermelhas, das minhas, brancas, ou cinzentas, como preferir.
Tem medo das suas janelas.
Bem, não é que seja medo, medo, não acho que me vão atacar nem nada que se pareça. Compreende, doutor?
Não, na verdade não compreendo muito bem.
Bem, é que as janelas vermelhas são quentes, doutor. Uma pessoa olha para elas e sente calor, há vida lá dentro, coisas acontecem dentro daquelas janelas, podem-se imaginar estórias, pessoas, dentro daquelas janelas.
Estou a ver. E as suas janelas, em contrapartida...
Precisamente, doutor, em contrapartida. Em contrapartida as minhas janelas são como as árvores. Tenho a certeza que se se olhar das janelas vermelhas para as minhas, quase não se distinguem das árvores. Deve parecer que ninguém está lá, que não há calor. Deve parecer que as árvores engolem as janelas.
E é disso que tem medo.
Precisamente. Bem, não é que eu ache que as árvores vão engolir as minhas janelas, nem nada que se pareça, isso seria uma parvoíce, não é verdade?
Pois, seria, sim...
Precisamente. É o que eu penso também.
Ora ainda bem.
Sim, ainda bem que concordamos neste ponto, doutor, tenho a certeza que nos vamos entender.
Sim, com certeza. Mas voltando às janelas...
Sim, as janelas. Bem doutor, o problema maior vai ser quando chegar a Primavera.
Quando chegar a... Não sei se estou bem a acompanhar...
Sim, quando chegar a Primavera. Quando chegar a Primavera, as árvores vão encher-se de folhas, vão ficar verdes.
Exacto, mas isso é bom, não?
Pois, doutor, precisamente, aí é que está. Não é bom.
Não?
Não. Porque as minhas janelas vão continuar brancas, ou cinzentas. Quem olhar das janelas vermelhas vai perceber que elas não foram engolidas pelas árvores, que são diferentes das árvores, e vai ficar ainda mais convencido que nas minhas janelas não há calor, não há vida, não existem pessoas, nem pássaros, nem estórias. Que são janelas, e são cinzentas.
Estou a ver...
Pois...
E já pensou em pintar as janelas, as suas janelas?
Pensei sim, doutor, mas isso seria fazer batota, não acha?
Acha que sim?
Pois claro. Porque no fundo, no fundo, as janelas continuam a ser brancas, não é verdade?.
Estou a ver...
Precisamente, doutor. Então, o que me sugere?
Bem, por agora o tempo acabou. Volte para a semana, e continuamos a falar.
Mas é grave, doutor?
Sm, diria que sim. Vai precisar de uns meses de tratamento.
Ainda bem!
Ainda bem? Fica contente?
Claro, doutor. Aquilo de que tinha mais medo era que me dissesse que não havia nada a recear.
Ah! Pois então veio ao lugar certo.
Estou a ver doutor. Já lhe tinha dito que nos íamos entender bem.
É verdade, já me tinha dito.
Então até para a semana.
Até para a semana.

Comentários
até que enfim, rapariga.
como sempre, um belo texto.
afixado por: susana | janeiro 17, 2006 03:44 PM
Well...
Que raio posso dizer?
Muito, muito bom.
Quanto ao resto: espero mail.
afixado por: monty | janeiro 17, 2006 03:53 PM
Bestial. Um turbilhão de pensamentos enquanto leio. (tenho uns vizinhos com cortinas vermelhas mas eu gosto de cinzentos)
afixado por: catarina | janeiro 17, 2006 03:58 PM
Sim, tenho andado desaparecida, susana, sou indecente... : )
obrigada.
Monty, precisamente, não é preciso mail nenhum.
Catarina, eu também gosto de cinzento. É uma óptima cor para uma dissolução.
afixado por: M. | janeiro 17, 2006 04:08 PM
Hirra! Té qu'enfim! E tá uma beleza :)
afixado por: gibel | janeiro 17, 2006 04:12 PM
Gibelinho... Vocês têm de ter paciência comigo, pá, que eu sou uma cortes.
afixado por: M. | janeiro 17, 2006 04:25 PM
A genialidade assume diversas formas e cores. Neste caso a cor reside na ausência dela, salvo alguns laivos de vermelho. Do melhor. A nossa sorte é que este espaço só pode subir na qualidade. Parabéns Butterfly. Fico orgulhoso de partilhar este espaço contigo(e com os outros).
afixado por: João Cóias | janeiro 17, 2006 05:03 PM
M.,
Uma coisa que não disseste acerca da tua estória (que, por sinal, era muito interessante, psiquiatricamente) e do facto de usares a palavra "doutor": aquilo era um médico a sério? Ou era daqueles psicanalistas, a fingir que é médico?
Mesmo que não respondas à minha provocação pateta, vê lá se escreves mais que a malta gosta e assim não nos sentimos sozinhos nesta nossa demência...
afixado por: Bernardo | janeiro 17, 2006 05:39 PM
Obrigada, João. Eu também tenho andado muito orgulhosa de partilhar este espaço contigo e com tanta gente tão talentosa.
Bernardo,
o doutor é aquilo que o paciente quiser. Ou melhor, neste caso, o leitor! ; )
Eu vou ver se escrevo mais, sim. Mas não é todos os dias que consigo. Beijos.
afixado por: M. | janeiro 18, 2006 09:19 AM
e o conzento tá na moda
cof cof cof
afixado por: cândida | novembro 12, 2007 06:57 PM