BESphoto*
Fui ontem ver a exposição BESphoto, patente no Centro Cultural de Belém. Na sua segunda edição, esta iniciativa tem o fito de promover a fotografia nacional, atribuindo um prémio a um dos fotógrafos selecionados. Gostava de saber falar sobre fotografia, para sair daqui um post decente. E teria também sido muito oportuno que os folhetos relativos à exposição não se tivessem esgotado antes da minha ida, porque o google tem pouco para me dar, a este respeito – nem uminha imagem das que vi no CCB estava disponível nos parcos links relacionados que encontrei.
Os trabalhos escolhidos foram apresentados nos últimos três anos e pertencem a José Luís Neto, Paulo Catrica, José Maçãs de Carvalho e António Júlio Duarte. Com toda a isenção que me caracteriza, vou já dizendo que vale a pena lá ir nem que seja só para ver as imagens de José Luís Neto.
As fotografias de Paulo Catrica reflectem sobre urbanidade e natureza, com boas fotografias de cidades e arquitectura e uma, belíssima (entre o núcleo de paisagem) com um imenso monte verde cujo limite em curva oblíqua se dilui estranhamente, na sobreposição de uma nuvem. Diz-me a informação que recolhi que é no Alentejo, mas eu iria jurar que foi tirada na Madeira.
José Maçãs de Carvalho foi o preferido do meu filho mais velho, com um vídeo em que uma mulher diz uma frase sem som: “as imagens são as palavras dos analfabetos”. Ficou vidrado. O mais novo achou curioso que a mulher tivesse só braços e cabeça (sendo quase incorpórea, portanto), até perceber que ela estava vestida de preto sobre um fundo da mesma cor. Também gostou bastante dos caixotes onde o mesmo artista colocou exemplares emoldurados de fotografias suas, à disposição do visitante, mas não quis trazer nenhuma.
António Júlio Duarte apresenta imagens de corpos na noite, alguns tatuados, mulheres de meias de liga e tal, intercaladas com outras de carros acidentados, com o eventual bombeiro a retirar corpos.
E agora, José Luís Neto.
Este rapaz tem-me surpreendido sempre com um trabalho que foge às leituras mais prosaicas da fotografia. Com uma minúcia de relojoeiro no que respeita ao domínio das técnicas (e como eu gostaria de ter o knowhow necessário para escrever sobre provas de prata e brometos de não sei quê... mas não tenho), todas as imagens suas, que tive o privilégio de ver, são paradigmáticas de como a fotografia já se soltou da tradição, para passar a ser obra plástica obtida por meios fotograficos. E de como o fotógrafo investiga incansavelmente a fotografia, caminhando perigosamente nos seus limites.
Evidenciando duas preocupações que me são caras, a da subversão das escalas e a da introdução da percepção do tempo, o inesperado está sempre presente no seu trabalho, como nas fotografias feitas em macro dos perfis de listas telefónicas (parecem pinturas abstractas, numa primeira leitura), que se podem ver no CAM (Gulbenkian).
Aqui, no CCB, apresenta duas séries e uma fotografia de grande dimensão. “Anónimo” é feita a partir de um negativo de Joshua Benoliel, em que sucessivas ampliações permitiram revelar, em claro escuro numa superfície texturada, imersos no grão, os rostos de presos políticos (há uma outra série com cabeças encapuçadas). Uma outra, de miniaturas, “Irgendwo” é constituída por fotografias minúsculas, perfeitas no rigor do enquadramento e na subtileza do detalhe. “Für Claudia”, uma daquelas que parecem desenhos, é um conjunto de linhas horizontais sobre uma comprida página branca. Maravilhoso.
Amanhã será atribuído o prémio. Escusado será dizer em quem eu aposto.
* A exposição poderá ser vista até dia 2 de Abril.

Comentários
Post bem mais que "decente". Digo eu...
afixado por: Luis Rainha | fevereiro 14, 2006 11:16 AM
Bela posta. Deixaste-me curioso para ir ao CCB.
afixado por: gibel | fevereiro 14, 2006 03:01 PM
os meninos são muito gentis.
afixado por: susana | fevereiro 14, 2006 04:34 PM
de forma nenhuma...gentil é a menina, por quem é...
afixado por: gibel | fevereiro 14, 2006 04:40 PM
E apostou muito bem! Obrigado pelo post. Por causa dele fiquei atenta ao resultado. É pena o CCB estar longe!
afixado por: méri | fevereiro 17, 2006 09:55 AM
pois apostei, méri. a atribuição do prémio não podia ter acontecido de outra maneira! ele é mesmo muito muito bom.
afixado por: susana | fevereiro 17, 2006 02:58 PM