Quando os padres fazem campanha política...
... esquecem-se do que são e daquilo que defendem.
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O cenário: Sílvio Berlusconi, em campanha pela Sicília, encontra em cima do palanque de campanha um apoiante eclesiástico, o Padre Massimiliano Pusceddu, de San Lucifero di Vallermosa. Este último, publicamente, pronuncia o seu apoio político ao «cavaliere». Sigamos a notícia do Il Giornale (o sublinhado é meu):
«Lei è l'unico che ha difeso i valori della famiglia in Italia, il mio movimento l'appoggerà in tutto e per tutto in questa campagna elettorale perché se vince la sinistra sarà la fine morale per questo Paese: matrimoni omosessuali, eutanasia, Far West bioetico. Mi permetta di darle la mia benedizione». Il parroco ha appena finito il suo discorso che Berlusconi ribatte, sfoderando uno dei suoi sorrisi: «Caro don Massimiliano, la ringrazio molto, cercherò di essere all'altezza, e le prometto sin d'ora due mesi e mezzo di astinenza sessuale assoluta, fino al 9 aprile».
Entusiasmado pela euforia demagógica, Berlusconi devolve-lhe a mesma confiança com uma promessa de abstinência sexual até às eleições de 9 de Abril. À parte do ridículo da promessa de abstinência sexual (Berlusconi é um dos magos do ridículo contemporâneo), o que está aqui em jogo é algo de particularmente grave para um católico que se preze e que tenha olhos para ver.
O senhor Padre Massimiliano Pusceddu joga um jogo perigoso, desvirtuando o que é o ofício de um sacerdote. Entrando nas jogadas políticas de Berlusconi, este sacerdote faz aquela que tem sido a grande asneira de tantos e tantos representantes da Igreja Católica ao longo da sua extensa história: escolher "o mal menor". Berlusconi é preferível aos comunistas e ao lobby gay? Será mesmo, senhor Padre Pusceddu, aos olhos da doutrina que o senhor representa, será que ele é mesmo um mal menor?
É curioso que este inflamado sacerdote, zelador da ortodoxia e rigor doutrinal das suas palavras e acções pastorais, se esquece que apoia o mesmo Berlusconi cujo governo proclamou recentemente uma alteração legal que permite o homicídio de outrém, numa espantosa e inaceitável interpretação distorcida da figura da legítima defesa. Este sacerdote está a apoiar um político que, armado em primário cowboy, e fingindo agora um puritanismo casto, faz aprovar uma lei cuja interpretação "abrangente" de legítima defesa, está em total contradição com o Magistério da Igreja, nomeadamente contra o Vaticano II, e mais recentemente, encíclicas como a Evangelium Vitae, do Papa João Paulo II (ver ponto 55, sobre a legítima defesa).
Como é, senhor Padre Massimiliano Pusceddu?
Berlusconi é apoiável quando combate os gays e os comunistas, independentemente do seu governo tomar decisões insensatas relativas ao porte e uso de armas, que deveriam deixar indignada a sua consciência cristã de sacerdote?
Não quero ser mal interpretado: todo e qualquer cristão tem o direito e o dever de intervir na res publica, sempre que considera que estão em jogo valores que ele considera fundamentais. É uma liberdade que lhe assiste, a si e a qualquer cidadão, independentemente de confissão religiosa ou ausência dela. Outra coisa totalmente diferente é assistirmos a situações deploráveis de sacerdotes que, consciente ou inconscientemente, subordinam a obediência ao magistério da Igreja às motivações e ambições dos políticos.

Comentários
Pois é Bernardo mas não é so isso, igreja católica também quer o seu quinhão vamos la lutar contra a laicidade, não é só os extremos que devem fazer campanha, toca a aproveitar. Isto é tudo muito repugnante
Vaticano: “L´Osservatore Romano” compara peça teatral em Madrid a caricaturas de Maomé
O jornal oficial do Vaticano considera que alguns espectáculos, que considera ridicularizarem o Papa e a Igreja Católica, em Espanha, constituem manifestações de intolerância contra a religião, comparando-os às caricaturas de Maomé, publicadas por um jornal dinamarquês, que têm sido alvo de controvérsia.
O texto do “L'Osservatore Romano” que irá sair na edição de amanhã, de acordo com a AFP, será um editorial com direito a primeira página, sob o título “Progresso da liberdade ou recuo da civilização”, dedicado ao tema das caricaturas do profeta Maomé, que têm gerado reacções violentas em alguns países islâmicos.
“O caso dessas caricaturas não é, infelizmente, o único exemplo do género”, lê-se no texto, que denuncia a existência em Espanha de “manifestações ultrajantes de intolerância contra a religião e a Igreja Católica que causam espanto”.
O caso citado é uma peça teatral, em cena em Madrid, em que, de acordo com o jornal, “o Papa actual é caricaturado, o seu predecessor ridicularizado, onde são lançadas ameaças obscuras contra os católicos e onde é incitada a apostasia”.
Outro exemplo dado pelo editorial é o de “um vídeo difundido pela televisão em que o crucifixo se transforma num ingrediente para uma repugnante receita culinária”.
De acordo com o jornal do Vaticano, “a crítica, a polémica argumentada, o desacordo expresso, ainda que de formas radicais”, ou mesmo a sátira que denuncia a “idolatria de poderes” são “legítimos”.
Contudo, o editorial defende que a sátira “privada de toda a finalidade crítica ou educativa torna-se pura obstinação”.
Este artigo do “L’Osservatore Romano” foi escrito dois dias após um comunicado do Vaticano que sublinha que a liberdade de expressão não autoriza as ofensas às convicções religiosas, considerando porém os actos violentos "deploráveis".
afixado por: leopard | fevereiro 8, 2006 05:06 PM
Leopard,
Com alguma boa vontade, é possível manter uma certa coerência perante esta questão.
Se esse for o teor do documento, concordarei inteiramente com o jornal romano. Penso que tais caricaturas são deploráveis, mas daí a impor-se censura vai um salto grande e perigoso.
Ou seja, repudio violentamente tanto os cartoons como a peça teatral em questão, mas não me parece correcto que o meu repúdio se materialize em termos legislativos numa censura. Penso que a legislação já abarca (bem ou mal é matéria que não domino) ofensas deste tipo, pelo que, caso a caso, os tribunais deveriam ajuizar o que fazer.
Contudo, os crentes e não crentes que discordem deste tipo de sátiras ofensivas fazem muito bem em fazer ouvir a sua discórdia.
A argumentação do editorial do jornal L'Osservatore Romano é altamente subjectiva, e por isso mesmo, caso a caso, a Justiça deve ajuizar o que fazer ou não.
Por outras palavras: eu acho muito mal que se faça chacota destrutiva baseada em questões sensíveis para a individualidade dos seres humanos, como a raça ou a religião. Do mesmo modo condeno fortemente a sátira discriminatória de teor racista, condeno a discriminatória de teor religioso. Mas não me parece sensato que tais sátiras passem a ser censuradas, sem mais nem menos, sem ter em conta o teor concreto de cada sátira.
É evidente que há grande valor numa sátira de teor religioso, como o romance queirosiano "A Relíquia", enquanto que aparentemente não reconheço qualquer valor na peça teatral referida. Como são questões subjectivas, cabe à parte incomodada manifestar o seu incómodo, pacificamente, e se necessário recorrer às instâncias jurídicas adequadas, caso a ofensa encontre protecção legal.
afixado por: Bernardo | fevereiro 8, 2006 05:16 PM
Leopard,
«não é só os extremos que devem fazer campanha, toca a aproveitar. Isto é tudo muito repugnante»
Isso não é bem assim.
Como católico, assistindo a uma afirmação pública (como uma peça de teatro, um filme, um livro, uma declaração de um político, etc.) que distorce a minha religião ou os seus dirigentes, tenho todo o direito de me indignar publicamente, de fazer campanha, usando meios próprios, contra essa afirmação, e se for caso disso e existir sustentação legal, recorrer aos tribunais.
O direito à indignação é inabalável, Leopard!
Não é nada "repugnante" que a Igreja aproveite o caso dos cartoons para relembrar, como deve, que mesmo na Europa, há abusos que incomodam muita gente. Repito: devem estes abusos ser todos censurados pela lei? Acho que não. Acho que, caso a caso, a lei deve (e já o faz) prever punição para extremismos que violem direitos fundamentais, como actos xenófobos, por exemplo.
Mas era só o que faltava, repito, ERA SÓ O QUE FALTAVA, que eu como católico não me pudesse indignar publicamente com actos e palavras que me ofendem ou que ofendem a minha religião.
Um caso menos subjectivo (porque recolhe também as críticas dos agnósticos e ateus sérios da nossa sociedade) é o do romance Código da Vinci, assunto sobre o qual falo com conhecimento de causa. Esse romance tem como objectivo claro (e isto que vou escrever é demonstrável) transmitir ideias históricas erradas sobre a Igreja Católica. Basta ler as próprias palavras do seu autor, Dan Brown, que estão disponíveis em entrevista escrita no seu site. Ele não visa apenas a ficção literária, e é o próprio quem o diz. Por isso, de forma muito mais objectiva, esse livro de Dan Brown é censurável em termos da mais elementar moral (mesmo não religiosa), uma vez que tenta transmitir aos leitores menos preparados historicamente (os mais frágeis perante a sua argumentação inconsistente) uma versão distorcida da verdade histórica.
Mas cada qual compra, lê e acredita no que quer!!
Daí a eu concordar que se censure este, ou qualquer outro, livro vai um grande salto que eu não dou!
Publique-se o Código da Vinci, vezes e vezes sem conta! Faça-se o filme passar em todas as salas de cinema! Faça-se um musical, DVDs, sites de Internet, o que se quiser. Agora, contem com a contestação forte dos católicos atentos e contem com uma aguerrida campanha de crítica!
afixado por: Bernardo | fevereiro 8, 2006 05:29 PM
Ok. tudo bem de acordo, não foi minha intenção esmiuçar a fundo a questão do artigo mas sim a questão da oportunidade e o seu relacionamento aos cartoons, ou seja aproveitar a maré alta, de resto já tinha referido a questão do bom senso e respeito pelo próximo como limite, mas não deixa de ser engraçado o pensamento quando funciona por ideologias e não consegue ver para além de si. Isto é respeitar os outros e suas crenças
Isto vai ter efeitos, se continua assim o direito liberdade expressão pode ser posto em causa a partir daqui, como já foi anunciado que seria tentado no Conselho de Segurança da ONU.
A minha achega foi só neste sentido.
afixado por: leopard | fevereiro 8, 2006 05:53 PM
Leopard,
Eu percebi! ;)
Eu não concordo que se atente contra o direito à liberdade de expressão. Nem que se atente contra o direito à liberdade de indignação.
Defendo que deve existir uma protecção legal mínima, para garantir os direitos fundamentais, como o da não discriminação pela raça ou credo. A partir daí, a sociedade deverá auto-regular-se. Mesmo que a lei não chegue ao ponto de censurar cartoons como estes, é normal que um jornalista seja responsabilizado (eventualmente, pelo seu superior, pelo director de redação, por exemplo) pelos actos que comete. Deve partir do próprio exercer jornalismo responsável, e se tal não suceder, ele deve estar preparado para os protestos da sociedade.
Não vale de nada dizer que os cartoons são ocidentais, porque há minorias gravemente ofendidas com os cartoons. Repito o que disse no meu outro post: o cartoon de Maomé permite duas interpretações, pelo menos: uma delas claramente discriminatória do credo muçulmano, outra delas não. Se virmos o cartoon como crítica ao fanatismo de uma Al-Qaeda, tudo bem, mas o MESMO DESENHO permite uma leitura xenófoba anti-Islão como um todo.
E isso está mal...
afixado por: Bernardo | fevereiro 8, 2006 06:02 PM
Qdo foi da discussão (no velho afixe) sobre o Codigo da Vinci, um dos exercícios propostos foi o de pensar o que aconteceria se, em vez da Ig Católica e do Opus Dei, estivessem em causa Maomé ou outros.
Agora já sabemos...
afixado por: CarLoS | fevereiro 9, 2006 06:08 PM
Carlos,
O direito à indignação existe em ambos os casos. As ofensas são diferentes, mas igualmente reais e provocatórias.
O direito à indignação VIOLENTA é que não existe, em caso algum!
Cumprimentos,
afixado por: Bernardo | fevereiro 9, 2006 06:14 PM