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Para camionetes com uma caixa mais modesta

noçao
Episódio I
Afonso de Albuquerque, depois de ter destruído vários portos tributários do Rei de Ormuz decidiu, ao comando de seis naus com cerca de 400 homens a bordo, entrar na baía de Ormuz tendo ficado cercado por 250 navios de guerra inimigos a que se juntava um exército em terra de cerca de 20.000 homens. Quando o Rei mandou um emissário a bordo para saber quais as suas intenções, Afonso de Albuquerque enviou-lhe uma curta mensagem: «Renda-se!»

Episódio II
Uma caravela portuguesa levava ostensivamente a bandeira das quinas no seu mastro mais alto ao entrar na baía de Cádiz, onde se encontrava a esquadra do Rei de Espanha, naquele tempo conhecida por «Invencível Armada». Interpelado pelos espanhóis para baixarem o seu estandarte à entrada do porto, abriu fogo à esquadra inteira, causando-lhe danos significativos e, após ter passado em combate por toda a fileira de navios de guerra espanhóis, acabou por saír incólume do porto de Cádiz, fugindo para Portugal.

Episódio III
No verão de 1574 D. Sebastião decidiu, sem prevenir ninguém, fazer uma investida a África deixando a corte em pânico sem saber onde estava o seu Rei. Quando desembarcou com meia dúzia de fidalgos alucinados em Ceuta os árabes retiraram pensando que aquele era um grupo avançado de uma força maior. Sem ninguém para combater, D. Sebastião ruma a Tânger onde lhe acontece o mesmo. Frustrado, volta para casa sem ter conseguido andar à porrada.

A nossa história está recheada destes episódios que demonstram que, ao longo dos tempos, o povo português nunca teve grande noção do que andava por aí a fazer. Podemos romanticamente acreditar que tudo isto não era mais que coragem, bravura, e temeridade. Mas a realidade é que desde os primórdios que somos uma cambada de inconscientes sempre de peito feito, para o que der e vier. Por isso, quando vejo na televisão que os portugueses se estão nas tintas para a gripe das aves, e para as vacas loucas, e para os nitrofuranos, lembro-me invariavelmente da nossa ancestral e encantadora falta de noção.

Vem-me sempre à cabeça a resposta do capitão António da Silveira, cercado pelos turcos em Diu:
«Fiquem sabendo que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros e têm por capitão António da Silveira, que tem um par de tomates mais fortes que as balas dos vossos canhões e que todos os portugueses aqui têm tomates e não temem quem não os tenha!».
Delicioso. Que falta de noção num excesso de nação.

Foto de Fotoben

[Humor Negro]

Comentários

ahahahahahaha
ganda título!!!
(ao texto já conhecia)

Mate ao terceiro lance!
Ah pastor!

Bom texto, um retrato da nação ultraperiférica que ainda somos. No entanto, veja-se que a generalização transforma o país numa espécie de beco sem saída. A questão é: como vão as nossas actuais elites servir de exemplo a um país descrente de si mesmo e das suas próprias elites.

Saudações ultraperiféricas.

Mais uma excelente critica para começar bem a semana. Pobres, mas Nobres ;)

Então o povo português nunca teve noção do que andava por ai a fazer? Então não teve.
Criou um império que foi dos últimos a cair. Ou não tivemos a visão dos ingleses?
D. Sebastião foi um general do insucesso que criou em nós um estado em que passamos a encontrar-nos na saudade.
O padre António Vieira lançou a ideia de um novo império espiritual no futuro, ele, respeitava os povos autóctones das Terras de Vera Cruz onde ele se encontrava lutou por eles, assim como respeitava aquele povo de onde ele provinha, Portugal. Esta atitude era levar a um futuro Império na terra. A uma comunidade. Era demasiado cedo para a época cujo poder económico era a escravatura.
Fernando Pessoa fundou um quinto império no passado onde nenhum português pode renegar a sua historia no plano dos factos nem no plano que ilumina esses factos.
Agostinho da Silva sintetiza o quinto império nos pensamentos de Vieira e Pessoa que em ultima instancia achava que devia ser o nosso destino e a tal sina que ainda temos muito a dar ao mundo. Será a tal comunidade lusófona? Tal com a comwealth britânica.
Merecia ser explorado mas não vejo grande motivo e interesse politico para uma comunidade que fala português em quantos milhões? Nós temos vergonha daquilo que criamos porque será?
Os actuais é que não sabem bem o que andam a fazer, para além de desbaratarem todo o capital que os ancestrais deixaram, nem barbas tem para se empenharem.

Leopard,
O Quinto Império existe. Começamos por chamá-lo de Terras de Vera Cruz, e pouco tempo depois ganhou vontade própria e lá foi ao seu destino. Já não é nosso. ;-)
Para muita pena minha, devo confessar.

Bem então existiu, mas não existe. O tal quinto império é uma comunidade mais espiritual que física, essa a diferença, a língua não é física mas um sinal de pertença a um passado comum. Embora a partir dai os laços se estendam a outros domínios.
Mas também não é o caso de ganhar vontade própria e ir à vida. Isso é natural, é autonomia, independência, coisa que nós nunca soubemos fazer em relação aos países que colonizamos e que por isso só podiam terminar em ruptura, em guerra.
Outra coisa é reconhecer essa autonomia. E então cria-se um sentimento que se mantém apesar da separação essa a grande diferença.
Os ingleses fizeram-no e por isso a rainha é chefe de estado em países como Canada Austrália etc. a chamada comunidade britânica ou comwealth
Esse sentimento tentou ser inspirado por Vieira, Pessoa e Agostinho.

o anonymus anterior

Eu tb considero a commonwealth uma maneira inteligente de descolonização sem comprometer a influência económica e política do colonizador. Um bocadinho diferente da nossa, que sem noção, abandonámos uns à sua sorte (e depois armámo-nos em defensores da sua auto-determinação anos mais tarde) e destruímos o que pudemos de outros antes de bazarmos.

Foi mais ao azar, Humor Negro ..ao azar ... às alheiras ...

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