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Dedicado ao Dr. César das Neves, alma cristã perturbada pelo des-entendimento moral do mundo e já sem qualquer metafísica

Certamente que as motivações de um cristão da massa são muito mais de ordem moral que metafísica. Este cristão define-se, antes de mais, pelo temor de um Deus antropomórfico, não obrigado por um determinismo intemporal, e, por conseguinte, como o próprio homem, senhor a cada instante dos seus actos e das suas respostas; um Deus sem plano preconcebido. Uma tal ausência de metafísica lança o cristão vulgar numa moral estritamente utilitária, atrás de vantagens ou de garantias pessoais no céu ou na terra (...) porque nesta fase de evolução, já não basta anatemizar o Mal para o fazer desaparecer; o sortilégio verbal, desvirtuado pelo uso excessivo, já não consegue obter a adesão. As dualidades são, daí em diante, verdadeiramente sentidas na carne e na alma. Esse cristão encontra-se dilacerado. Não consegue ver, na "queda", exactamente o elemento que condicionou a Criação, e continua a concebê-la como um acto contingente que compromete a sua própria responsabilidade. O seu pensamento, se não o seu corpo, está constantemente voltado para esta exasperação moralista da noção de pecado e leva-o a uma desconfiança profunda não só em relação ao mundo como a si próprio. Literalmente, isolando o Mal em si, e recusando-se a ver no Diabo uma criatura de Deus, os cristãos da massa divinizam-no. Dir-se-ía que o cristianismo vulgar actual foi inteiramente conquistado pelo maniqueísmo. Estes cristãos não compreenderam as palavras do Livro de Tobias: "E porque éreis agradáveis a Deus, foi preciso que a tentação vos pusesse à prova." Verifica a dualidade e alimenta-a precisamente com esse medo que se recusa a ser ponderado e, de certo modo, dissolvido pela inteligência.

Raymond Abellio [Ensaio sobre o papel político do sagrado]

Comentários

Foste muito simpático em só teres transcrito esse excerto. Se lhe tivesses juntado as comparações que o Abellio faz...;)

Comentário de excessiva má qualidade.

Não só devido ao estilo, como que "bancando" o médico espiritual que vai diagnosticar a doença do cristão, ganhando de antemão uma artificial superioridade moral em relação ao caso de estudo, é no mínimo desrespeituoso.

Como também pelo conteúdo, que denota um profundo desconhecimento conceptual sobre o catolicismo, e já agora sobre a vida, da qual propõe uma visão retrógada, sinal dos tempos modernos.

A pedra de toque é precisamente esta:

"Estes cristãos não compreenderam as palavras do Livro de Tobias: "E porque éreis agradáveis a Deus, foi preciso que a tentação vos pusesse à prova.""

Se isto tenta definir o erro conceptual de muitos cristãos, não o vejo necessariamente em César das Neves. Confunde-se aqui em particular uma questão essencial, a da Liberdade.

Porque para um Cristão como César das Neves (de quem conheço o seu "background" religioso, e por isso posso dizer o que digo) e eu mesmo, a liberdade é entendida sobretudo como uma adesão à verdade das coisas, apenas possível quando se é "livre" e tiver em mãos a possibilidade do mal, mas a resposta não deixará de ser aquela que é eterna, luminosa e boa, essa é aquela que é realmente livre, como Jesus disse: "A verdade libertar-te-á"

Quem vê na queda a salvação da alma é um romântico, e esquece-se da lei da gravidade. Se existe a possibilidade do mal, é para que nós na nossa liberdade possamos escolher o bem e "glorificarmos a Deus", ou por outras palavras de menor "tralha cristã", glorificarmos a vida e o amor.

Bem sei que como o antigo dizia: "detesto o que dizes, mas lutarei até à morte para que tenhas a liberdade de o dizer", vai exactamente ao encontro do que Tobias disse. No entanto, ninguém me pode impedir de detestar que se digam certas atrocidades, pois também essa é a minha liberdade! Por mais liberdade que o Diabo (seja qual for a sua forma) possua na terra, no céu ou no inferno, não vou deixar de o repudiar. Não se confunda censura com crítica profunda.

E quando se discute política, ou seja, as regras segundo as quais a sociedade se rege e educa a sua próxima geração, aguentem-se meus senhores, pois tanto eu, como o senhor das Neves e como vós próprios, temos todo o direito de nos indignarmos sobre aquilo que a nossa liberdade ditar. Chama-se a isto "democracia".

Habituem-se!

O dr. Cesar das Neves pode dizer muito bem o que entender, vivemos em democracia onde há um principio básico de liberdade de pensamento e expressão que nas palavras de Voltaire "posso não concordar com uma única palavra
do que dizes, mas lutarei até a morte para que tenhas o direito de dizê-las!” deve sempre ser defendido.
Mas isso é uma coisa que se pode aceitar, outra é aceitar que certas pessoas com certas filosofias de vida tentem condicionar ou modificar a liberdade de viver de outras e não se limitem a viver a sua vida segundo essas mesmas regras que “impõe a si próprios” somente. Mas através da sua visão do mundo e dos seus valores vão fazendo pressão sobre os poderes políticos legitimamente instituídos para que essa visão tenha a forma de regras.
A igreja sempre fez isto ao longo dos séculos e não desiste de o fazer, o problema é quando do lado do poder politico estão outras pessoas que comungam de igual opinião e dão seguimento a essas ideias. Podemos ter então alguns Sousa Laras vetando obras literárias que passem pelas suas competências e isto não falando sequer na elaboração ou alteração de leis.
O Dr. César das Neves pode dizer por exemplo (“A juventude naturalmente não pode existir sem uma fé. Os que a assumem, vivem equilibrados; os outros são explorados por interesses sedutores. O rock e o metal, por exemplo, apresentam-se cada vez mais como avassaladoras galáxias de doutrinas metafísicas, com santuários, paramentos, liturgias e penitências. Os novos profetas organizam-se em bandas e a visita semanal à discoteca substitui para muitos a missa. O êxtase dos concertos imita as antigas apoteoses dionisíacas.”) é a sua opinião esta no seu direito. Até podia ir para o Speakers Corner anuncia-lo.

Mas já não deve propor o seguinte eu pelo menos fiquei abismado,Sera a mesma pessoa? não sei se é verdade ou mentira mas li de um leitor em reacção a um artigo do D.N. por parte do César das Neves.
http://www.geocities.com/CapitolHill/Senate/4801/Autores/JCNeves.html

(“Conheço-lhe, no entanto, o estilo e o apelo que fez ao Prof. Marcelo Caetano em carta de 24 de Fevereiro de 1971, para que a lei do divórcio fosse abolida do Código Civil; a devoção com que, na mesma carta, lhe pediu para que a Constituição Portuguesa fosse “elaborada sob a invocação do Santo Nome de Deus e sob a protecção de Nossa Senhora Padroeira da Nação”; e o entusiasmo com que igualmente implorou “modéstia no trajar, sobretudo da mulher” e a respectiva punição para “vestidos transparentes, ... curtos acima do joelho, ou decotes a baixo mais de três centímetros da clavícula”.)

É que se consta que Jesus disse “ a verdade libertar-te á” também é verdade que consta que quando Pilatos lhe perguntou a uma resposta de Jesus que dizia que tinha vindo dar testemunho da verdade. O que é a verdade? Fez se silencio.
A verdade é relativa e depende do nosso “ângulo de visão”( tem a ver com formação, cultura, educação, instrução etc) em relação aos factos que a compõe, dai que nos podemos estar todos a olhar para um mesmo objecto de ângulos diferentes e ver perspectivas e verdades diferentes.
Portanto se uns querem viver segundo os livros do Tobias ou outros livros podem faze-lo quanto a obrigar outros a seguir os mesmos passos vai uma grande diferença.

posso fazer perguntas sobre neurologia?

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