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maio 31, 2006

Reality Ciao

reality shows
Há uns tempos atrás o Zé Maria, aquela alma simples do Big Brother, tentou suicidar-se, depois de ter estoirado o dinheiro que ganhou no concurso em projectos falhados.
Marco, o neanderthal do pontapé maravilha do Big Brother, foi detido pela polícia no ano passado, acusado por um camionista de agressão selvática e persistente numa fila de trânsito.
Há algumas semanas li que o Mário, o loiro burro do Big Brother, foi preso pela judiciária, acusado de liderar um gang responsável por assaltos à mão armada na zona do Porto.
A julgar pelos exemplos acima, os reality shows serão largamente responsáveis por toda uma geração de anormais desajustados e destrambelhados, com a mania das grandezas e do sucesso fácil. Não falo só dos anormais que por lá pululam, mas também dos anormais que diariamente enchem as audiências deste tipo de programas.
Parece-me óbvio que os reality shows dão cabo da vida pública dos seus participantes, que consequentemente passam a lidar muito mal com isso nas suas vidas privadas. Ora se assim é, porque não assumir as coisas frontalmente e criar programas que arrebentam com a vida dos gajos logo ali em directo, à vista de toda a gente, em vez dos abandonar à sua sorte no fim de cada programa? Seria infinitamente mais honesto do que acontece agora. E geraria muito mais audiência.
Foi a pensar nisto que elaborei algumas ideias passíveis de serem utilizadas pelo Piet Hein, free of charge, nos seus futuros lixos televisivos:

O Atol
Um grupo de labregos é colocado num atol de Mururoa. São formadas equipas de dois elementos e a cada indivíduo é dado um componente de uma bomba nuclear de potência desconhecida. Cada elemento da equipa é colocado num ponto do atol, bem distante do seu companheiro de equipa. O objectivo é encontrarem-se o mais rapidamente possível, juntando os componentes da bomba e accionando o dispositivo. Vence quem conseguir destruir o atol primeiro. Prémio de 100.000 euros para os primeiros, que será doado à TVI se os participantes não se apresentarem nos escritórios do Piet Hein duas horas depois de finalizada a prova.

A Tribo
Um grupo de quarentonas encalhadas é largado na selva ardente à mercê de uma tribo de somalis devidamente untadinhos e com a testosterona alterada quimicamente de modo a não pensarem noutra coisa que não seja a sodomia brutal e persistente.
Ao fim de três meses as quarentonas serão recolhidas e a vencedora será aquela que ostentar um caminhar mais esquisito.

A Catapulta
Um reality show com anões, cavalos pentapérnicos, e mulheres desnudas, que tem características próximas do triatlo olímpico.
Os anões são inicialmente catapultados para dentro de campos de minas, que terão que atravessar até chegar aos cavalos pentapérnicos. Os que sobreviverem à queda e às minas terão que cavalgar 20 km num campo de urtigas e espinhos, agarrados à quinta perna do cavalo. Os que conseguirem transpôr a segunda fase da prova serão de novo catapultados para o campo de minas. As mulheres desnudas na realidade não existem, e são apenas um motivo para dar cabo dos anões. O anão que sobreviver estará automaticamente apurado para «O Atol».

O Cartoon
Destinado a toda essa malta com talento para o desenho que anda por aí. Doze cartoonistas são fechados numa sala blindada com um fundamentalista islâmico que, embora ninguém saiba porque não se vê, está atestadinho de explosivos na zona rectal. Os cartoonistas têm que desenhar temas religiosos alusivos ao Ramadão. Quem conseguir fazer explodir o árabe ganha umas próteses biónicas (último modelo) para os bracinhos.

A Repartição
Reality show que simula o interior de uma repartição pública. A cada um dos quinze participantes é facultado: uma máquina de escrever Remington de 1916, trinta resmas de papel pautado, cinco resmas de papel químico, uma caixa de lexotans. Vence quem conseguir levar mais tempo a deferir um processo. O premiado será catapultado para o campo de minas dos anões. Os restantes irão servir de figurantes em «O Atol».

[Humor Negro]

maio 29, 2006

Gracias, amigos...

drip.jpg
A todos os que estiveram presentes e que se deslocaram de locais tão remotos quanto, Almada, Porto, Lisboa, Stº António dos Cavaleiros, Lapa e até...Cascais.
A todos, mesmo aos que não tiveram oprtunidade de se deslocar, um grande abraço.
Meu e da Anilina, esse palindroma perfeito...

maio 27, 2006

Portugal-Cabo Verde

Bandeira Cabo verde.bmp

portugal.bmp

Deste Jogo retenho, assim já:
- o hat-trick de Pauleta. Oxalá continue a acertar
- o tiraço de Petit - o Benfica que não o perca
- a resposta de Cabo Verde, quando provavelmente houve quem perguntasse: "mas Cabo Verde tem uma equipa???"
- a entrada de Cristiano Ronaldo sobre um jogador de Cabo Verde. Shame on you!
- o comentário do "comentador" da RTP - "se fosse um jogo a sério levava o cartão vermelho" - as pernas do caboverdeano eram a brincar... e o resto também...
- a preocupação do árbitro quanto à hidratação dos jogadores. Esforço muscular e pouca água: lesão renal. Parabéns pelo profissionalismo.
- a falta de respeito da TSF que, depois de fazer uma pergunta a Kafu, lhe retirou o som a meio da resposta porque o Simão estava a falar. Falta de respeito e de profissionalismo.
PS: foi da minha vista ou a camisola do Ricardo Carvalho tinha escrito "Ricardo Carvaho"? Será possível um erro destes?

É só. Bom fim de semana e aguentem a canícula

Opá

Espanha sempre à frente!
Associem a capacidade de inovar reconhecida aos nossos vizinhos à febre pré-mundial e obtenham o primeiro hino de desincentivo a uma selecção.
Passo a explicar. Parece que alguem terá concebido uma musiquita de apoio à selecção espanhola, a que terá dado o nome de "Opá, vamo a por el Mundiá". Até aqui nada de novo, mas se por acaso houver interessados em conhecê-la, podem fazê-lo neste link.
Verdadeiramente criativo é o video que se segue, onde, entre outras pérolas se pode ouvir esta preciosidade:
"opa no viavé el mundia, porque es un truño hacer el ridiculo, me quedo en casa, cuidando de mi jaca, la gente ilusionada viajará hasta alemania, y volvera llorando, no pasaremos ni a cuartos, muchos jugadores que cobran muchos millones, pero no meten goles, mira que tienen cojones opa... opa paso del mundial, es un timo siempre ganan los mismos"

maio 26, 2006

Sexta-Feira

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"Easy chair"
Stephen Hansen

Se o Dan Brown vê isto ainda escreve um livro...

twins.jpg
Alexandre Guimarães, brasileiro e seleccionador da Costa Rica; Arnaldo Otegi, basco e líder do partido ilegalizado pró-etarra Batasuna. Separados à nascença? Será que o nacionalismo basco, tão convicto de representar um «povo eleito» superior aos makaitos (estrangeiros), escondeu a sua linhagem do malvado castelhano, levando-a para a América Latina? Sempre se diz que o espanhol que por lá se fala é mais doce... Bernardo Motta, elucida-nos!!!

Resposta da Prof. Helena Barbas

Com a autorização da Prof. Helena Barbas, apresento de seguida a sua resposta à minha carta aberta:

Caro Senhor: em resposta ao seu e-mail, queria agradecer a atenção que dispensou ao programa. Um programa de televisão é um programa de televisão. Relativamente às críticas que me faz, remeto-o para a minha tese de doutoramento publicada on-line desde Fevereiro de 2003 - http://www.fcsh.unl.pt/docentes/hbarbas/ em «dissertações». Os meus cumprimentos Helena Barbas

Check List Matrimonial

festa de casamento
Tenho um problema com as festas de casamento. Primeiro porque não percebo porque raio dois seres acham que o facto de terem decidido viver juntos «para o resto das suas vidas» constitui motivo de celebração, e depois por todos os rituais bacocos que envolvem a festa, e que fazem com que as festas de casamento se assemelhem às bolas de ténis: quem vê uma vê todas. E por isso mesmo, sempre que vou a um casamento é como se estivesse a ver pela enésima vez o mesmo filme, só mudando os locais de filmagem, e claro, as personagens.
Ao longo de anos como convidado de festas de casamento criei uma pequena check list virtual que uso para me entreter e passar o tempo em cada celebração matrimonial. Como o argumento é sempre igual de festa para festa, a check list é dolorosamente implacável a assinalar «os pontos altos» de cada uma.
Não pretendendo ser exaustivo (a minha lista é verdadeiramente longa e diversificada, ombreando com qualquer modelo de análise multivariada) vou partilhar convosco os items mais comuns:

Na Igreja

Para quem conseguiu escapar à gloriosa tarefa de ter que começar a festa a enfardar na casa de um dos noivos antes de o acompanhar no seu trajecto ao altar, a Igreja é o grande início da festa do casamento e apresenta per si um rico manancial de rituais:

- O Freakshow – continuo a achar esta parte a mais interessante porque em cada casamento há sempre uma bela molhada de seres esquisitos (amigos e familiares dos noivos) que nós nunca vimos antes e que dão um colorido peculiar à cerimónia, com os seus fatos a cheirar a naftalina (invariavelmente dois números acima ou abaixo da medida do seu utilizador); os sapatos encerados de modo a encandear toda a tripulação de um boeing que passe por ali perto; os vestidos mais inexplicáveis com decotes e minissaias generosas sustentadas por saltos agulha que dificultam o andar no chão empedrado da igreja. Na fase de freakshow os mamíferos presentes trocam olhares e cochichos, medindo-se timidamente uns aos outros, avaliando as suas respectivas figuras tristes.

- O Sermão e as Leituras – onde por breves momentos toda a gente parece ter o dom da leitura, recitando aqueles repetitivos «discursos de São Paulo aos etruscos», ouvindo-se aqui e ali um choro de criança a ser levada rapidamente para fora da igreja por um dos seus sádicos pais. Se tivermos sorte, o que é raro, o padre é breve e contido e poupa-nos meia hora de seca a falar da incerteza dos dias de hoje, da crise das instituíções e da própria família, e da escassez de crentes praticantes abaixo dos 65 anos.

- O Arroz – o discurso do padre ditará a violência com que se atirará o arroz aos noivos. Se o padre nos deu uma seca, o mais provável é que pelo menos um dos conjuges nunca consiga recuperar totalmente de uma perfuração da retina.

- O Cortejo Automóvel – já vi carrinhas funerárias deslocarem-se mais depressa que um cortejo automóvel num casamento, o que torna a chegada ao Copo D’Água um verdadeiro suplício, principalmente durante a época de Verão. De salientar aqui dois aspectos: os carros estão sempre imaculados e reluzentes; e um grupinho de labregos irá invariavelmente perder-se do cortejo chegando muito depois dos petit fours.

Vou omitir propositadamente a parte das fotografias e das filmagens, porque geralmente não têm grande interesse na altura (embora saibamos que vamos ter de levar com elas mais tarde, quando os noivos chegarem da Lua de Mel).

No Copo D’Água
É considerada a segunda parte do filme, e aquela que apresenta variantes mais ricas. Digamos que a verdadeira festa começa realmente aqui.

- Os Petit Fours – ao chegarmos ao local do Copo D’Água somos presenteados com petit fours e aperitivos vários. Começa assim a verdadeira maratona de bebida e comezaina, havendo alguns convivas que ficarão alegremente etilizados nesta fase em estágio para a verdadeira bebedeira que se desenrolará a seguir, em todo o seu esplendor. Nesta fase o nível de álcool faz com que os convivas comecem a socializar entre si, perdendo alguma inibição inicial.

- O Arremesso do Bouquet – um momento crítico para as encalhadas de serviço a qualquer casamento. Já quentinhas com os aperitivos, este ritual assume um carácter de «vida ou morte» para cada uma das participantes, podendo originar traumatismos graves dependendo do grau de desespero das intervenientes.

- A Refeição Principal – aparte da velocidade com que a comida e a bebida desaparecem nesta fase, pouco há salientar, tirando talvez o ritual do bater em uníssono com um talher no copo, na tentativa de que os noivos se beijem. Existem variantes deste ritual, muito mais interessantes aliás, onde os convivas exigem que o pai da noiva beije violentamente a mãe do noivo (a maior parte das vezes sem qualquer sucesso aparente).

- O Charuto – como fumador habitual de habanos divirto-me a observar os mamíferos do sexo masculino a fumar o tradicional charuto depois da refeição principal. É impressionante a figura urso que se pode fazer a fingir que se sabe fumar charuto. Gosto particularmente do free style de espetar um palito pelo charuto adentro de modo a segurá-lo na boca trincando apenas o palito. São uns artistas.

- O Bailarico – na minha modesta opinião, o ponto mais alto da festa matrimonial. Nesta altura eles e elas perderam a compostura, desapertaram as gravatas, subiram as mangas e as saias, baixaram os decotes e dançam (muitas vezes descalças) como se não houvesse amanhã, fazendo de quando em vez um pequeno comboio de bêbados que circula por entre as mesas do recinto. Valentes trambolhões são coisa normal nesta fase, havendo variantes mais excitantes que envolvem cenas de desenfreada pancadaria entre maridos ciumentos na defesa das suas etilizadas e ziguezagueantes esposas, apalpadas sem dó nem piedade por indivíduos que ultrapassaram, em muito, os limites legais de consumo de substâncias entorpecentes.

- O Cortar do Bolo – é normalmente arrastado até ao último minuto possível por se saber que, depois dele, mais de metade dos convivas baza alarvemente dali para fora. Eu incluído (antes de dar a segunda dentada naquela fatia gigantesca e sensaborona já estou ao volante do carro para me pirar).

- A Ceia e o Pós Ceia – confesso a minha total falta de experiência nesta fase. Mas segundo me dizem é aqui que se inicia o próximo casamento, dado que são normalmente os encalhados que resistem até à Ceia na tentativa de desencalharem de uma vez por todas. A bebedeira normalmente baixa-lhes a fasquia dos critérios o que lhes abre uma possibilidade, mesmo que remota, de encontrarem (no mesmo estado etilizado) a «pessoa do resto das suas vidas».

[Humor Negro]

maio 25, 2006

Carta aberta à Prof. Helena Barbas

Ontem assisti, na RTP-N, a um interessante debate acerca da omnipresente obra polémica da Dan Brown. Foi um debate que me perturbou profundamente, sobretudo pela forma como a Professora Helena Barbas nele participou.
Assim, escrevo esta carta aberta à Professora Helena Barbas, pedindo-lhe que me elucide sobre certas questões que me ficaram no espírito durante e após o visionamento do dito debate. Com esta missiva, não tenho qualquer pretensão de provar o que quer que seja, apenas desejo manifestar publicamente as minhas dúvidas, aguardando ser esclarecido.

Exma. Senhora
Prof. Helena Barbas,

Manifestando desde já todo o respeito pelo seu estatuto de docente universitária, e em consideração pelo seu conhecido e reconhecido trabalho académico, venho por este meio, humildemente, comunicar-lhe algumas dúvidas que tenho acerca daquilo que disse no debate conduzido ontem, dia 24 de Maio, em directo no canal RTP-N acerca do livro de Dan Brown, "O Código da Vinci".
Apenas dependendo da minha memória, irei apontar as suas afirmações que me intrigaram, esperando ser fiel na sua reprodução:

A) Sobre a datação dos Evangelhos

Pareceu-me ter ouvido a senhora Professora afirmar que os Evangelhos Canónicos seriam largamente posteriores ao tempo de Jesus; se bem entendi, a senhora Professoria teria afirmado que o mais antigo dos evangelhos dataria de sessenta anos após a morte de Jesus; no entanto, tenho presente outros dados diferentes acerca da datação dos evangelhos. O Evangelho de São João, esse sim considerado o mais tardio, teria sido composto por volta dos anos 90-100 d.C., ou seja, mais ou menos sessenta anos após a morte de Jesus. Mas esse seria o mais tardio!
Em primeiro lugar, a senhora Professora saberá certamente que os Evangelhos ditos de Lucas, Marcos, Mateus e João não são vistos pela Igreja como tendo sido, necessariamente, escritos por estes autores. Pelo que a minha argumentação de antiguidade e historicidade será baseada no conteúdo destes textos, mais do que sobre a materialidade dos textos na forma escrita.
Este é um ponto importante: independentemente do escriba, da pessoa que os materializou pela primeira vez, o conteúdo destes textos respeitaria a tradição oral atribuída a Mateus, Marcos, Lucas e João. A palavra grega "kata", ou seja, "segundo" é aqui essencial: deve-se dizer "Evangelho Segundo S. Lucas", "Evangelho Segundo S. Marcos", etc., marcando claramente que se procura autenticar não tanto o autor físico e material dos textos (o escriba), mas sobretudo o seu inspirador. A tradição oral pré-existe à escrita e não pode ser desprezada do ponto de vista histórico, visto que há ampla evidência do seu relevo na tradição da Igreja. Bastaria recordar, mas não a desenvolverei aqui porque nos levaria demasiado longe, a essencial questão da "disciplina do arcano" e a influência desta no património doutrinal cristão (1).
Apenas para se obter um termo de comparação, a senhora professora saberá certamente que uma boa parte da tradição judaica se transmite por via oral, pelo que não é improvável que, nos primeiros séculos, os cristãos tivessem usado uma estrita e rigorosa tradição oral, pelo recurso à prática da memorização e repetição de textos de grande dimensão.
Posto isto, eis o que pude aprender acerca destes Evangelhos...
Sobre S. Mateus, é complicada a questão acerca de se saber se o texto original seria em aramaico e a versão grega seria posterior, ou se seria ao contrário. À parte destas questões, que são importantes certamente, a datação deste evangelho é maioritariamente consensual na escolha da década de 60 d.C. como a data mais tardia. Não encontro sustentação académica para as datações posteriores a esta década, conforme consta na obra de certos críticos (Weiss and Harnack datam em 70-75; Renan em 85, Réville, entre 69 e 96, Jülicher, entre 81 e 96, Montefiore, entre 90-100, Volkmar, em 110; Baur entre 130 e 34), de forma puramente conjectural, supondo que quando Jesus fala profeticamente acerca da perseguição aos cristãos isso seria prova de que a perseguição aos cristãos no primeiro século já teria ocorrido. Ou seja, a datação é feita por conjectura e não com base em dados mais concretos de estilística, análise lexical ou pelo cruzamento deste evangelho com os restantes.
Sobre São Marcos, a tradição cristã, pela via de autores bastante antigos e respeitáveis como Eusébio, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano, Santo Ireneu de Lião, e muitos outros, estabelece como altamente provável a tese de que este evangelista teria recebido os ensinamentos directamente de São Pedro, o que daria um cunho fortíssimo de historicidade e antiguidade a este evangelho.
Sobre S. Lucas, sabe-se que seria um grego (atestado pela análise da sua escrita - ele é também visto como o autor dos Actos dos Apóstolos) natural de Antioquia (Eusébio atesta-o nas sua História Eclesiástica - Livro III, iv, 6, e nas suas "Quæstiones Evangelicæ", IV, i, 270). Ao longo dos Actos dos Apóstolos, penso que se encontra ampla base para se supor que Lucas seria companheiro de São Paulo.
Sobre o Evangelho de São João, cuja historicidade é amplamente negada fora da Igreja Católica (chegando também a ser negada, dentro da Igreja, pelo modernista Loisy e por outros da mesma corrente), é difícil ter conclusões seguras na sua datação. A Igreja, baseando-se na tradição oral apostólica e na coerência doutrinal deste evangelho com os restantes três, mantém, por respeito a essa tradição, que o autor deste texto é o mesmo apóstolo S. João, o "discípulo amado".
Seja como for, o único evangelho que pode ser atribuido com segurança aos ditos sessenta anos após a morte de Jesus, como referiu a senhora Professora, parece-me ser o de São João, sendo que os restantes três seriam anteriores.
Para terminar, e esperando que a senhora Professora não partilhe desta tese "browniana", os textos canónicos não resultaram da política nem da escolha do imperador romano Constantino, uma vez que o Codex Muratori (datado de aproximadamente 180 d.C.) já traz uma compilação de textos muito próxima do actual Novo Testamento.

B) Sobre o Concílio de Niceia

Escutei, com grande espanto, a senhora Professora afirmar que a Igreja Católica, ao tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.) teria sido constituída como instituição precisamente graças a este concílio, tendo tido a sorte de surgir, no meio das várias "seitas cristãs" (expressão sua, julgo eu), como a corrente considerada ortodoxa. Assim, graças a Constantino, a doutrina cristã oficial teria sido protegida por este imperador, e após ser retirada do universo das seitas e elevada à condição de ortodoxia, teria rotulado todas as restantes seitas de heterodoxas.
Antes de principiarmos, queria recordar a obra de Henri Lassiat, La Jeunesse de l'Église: la foi au IIe siècle (1979), referida por Jean Borella (ver nota no final do texto). Borella, o reputado filósofo francês especialista em cristianismo, afirma que Lassiat demonstra de forma "irrefutável" a existência de amplos testemunhos de que existia uma "regra de Fé" pré-Niceana, o que prova que a doutrina já estava bem definida (não na forma de um texto escrito, mas sim transmitida oralmente) entre os anos 100 e 200 d.C., o que inviabiliza a tese de que Constantino, ou mesmo o Concílio de Niceia, teria pervertido o legado crístico.
Pelo que a alegação da senhora Professora, no que diz respeito ao carácter de "seita" dos defensores da doutrina fixada formalmente em Niceia me parece ser uma alegação com pouco suporte documental. Se eu estiver a interpretar incorrectamente as suas afirmações, por favor, aponte-me as incorrecções, pois estou apenas a comentar com base na memória do que ouvi ontem.
Aproveito para fazer um parêntesis acerca do conceito de "dogma". É uma ideia frequentemente generalizada encarar os dogmas como uma criação exclusiva do Concílio de Niceia, e que estas formas autoritárias e rígidas seriam uma perversão do legado de Cristo. A História prova que esta ideia é falsa. A palavra grega "dogma", que significa "decreto", aplica-se desde as mais remotas origens do cristianismo às chamadas "verdades de Fé". Para vermos que não se tratam de imposições de carácter autocrático nascidas em Niceia, é importante saber qual era, e qual é, o significado genuíno destes "dogmas", ou seja, destes "decretos da fé cristã".
É útil recordar, como menciona Jean Borella, o legado de São Basílio de Cesareia, bispo da dita cidade, irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório de Naziano. É que a obra de São Basílio é uma das mais importantes evidências da antiguidade da dita "disciplina do arcano": ou seja, falamos do preservar, sob a protecção do silêncio, as "verdades da fé", não só dos pagãos não baptizados, mas também dos catecúmenos, ou seja, dos "pré-cristãos" que aguardavam o baptismo e que para ele se preparavam longamente.
Nos primeiros séculos, ainda longe da generalização da prática do pedobaptismo, a administração deste sacramento (a palavra "sacramentum" é a fiel tradução latina do grego "mystérion", não esquecer) culminava um longo percurso de preparação, que hoje em dia ainda subsiste, chamado de "catecumenado". Ora a obra de São Basílio (destacando o "Tratado do Espírito Santo") explicita de forma clara a distinção entre o "dogma" e a "kérigma" ("proclamação"): aos não baptizados, estava vedado o conhecimento dos dogmas, ou seja, das verdades de fé. Assim, os primeiros pastores da Igreja, quando falavam publicamente, guardavam rigorosamente a "disciplina do arcano", vedando às plateias não preparadas (não baptizadas), a revelação da essência da fé, ou seja, dos dogmas. Nestes tempos muito recuados, sempre que falavam publicamente, os sacerdotes e os bispos usavam os "kérigmata", ou seja, "proclamações" públicas que evitavam a revelação generalizada das verdades písticas centrais ao cristianismo.
Assim, vemos que o significado da palavra "dogma" tem sido mal compreendido e mal estudado, visto que na origem revela algo cuja natureza é, surpreendentemente, mais "esotérica" do que se imaginaria, ou seja, de carácter mais interior e reservado do que se suporia.
Distinguindo "dogma" como algo de interior, de "kérigma" como algo de exterior, parece-me que não poderemos fazer leituras simplistas acerca do fenómeno de Niceia como se se tratasse de uma ditatorial e autoritária definição de regras que perverteriam o legado de Jesus Cristo para favorecer o Império e a Igreja.
Fechando este parêntesis, cara Professora Helena Barbas, sintetizo a minha dúvida deste modo: como é possível sustentar que não existia, desde o final do século I, uma regra de fé cristã bem solidificada, transmitida quase exclusivamente por via oral (os "dogmata" protegidos pela "disciplina do arcano"), que se manteria inalterada na sua essência até Niceia, quando em 325 d.C., os bispos cristãos reunidos em concílio decidiram formalizar a dita regra de fé no chamado Símbolo de Niceia?
É, até, curioso notar que a necessidade de formalização da fé neste primeiro concílio não nascera por vontade primordial da Igreja Católica mas sim como reacção ao fenómeno ariano, que naquele tempo alastrava com vigor. Vendo bem, atentando aos relatos que chegaram aos nossos dias, constatamos que fora o espírito filosófico grego imbuído na personalidade de Ário que o fizera procurar uma formulação metafísica nítida e clara para a relação entre o Pai e o Filho. Niceia é a reacção do mundo cristão à difusão generalizada das ideias metafísicas muito pessoais do próprio Ário. Essa reacção explica-se, na minha modesta opinião, pelo simples facto de que quem conhecia profunda e interiormente o legado apostólico, transmitido por via oral, via que as ideias de Ário, por muito "claras" que fossem, não eram compatíveis com o dito legado.
Mas tentemos ir à profundidade, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava, julga-se que suportado pelo Papa Silvestre I, juntar a Cristandade na definição clara da sua doutrina em Niceia, porque Constantino queria uma fé oficial sólida para o Império. O que o motivava era a união dos seus súbtidos sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa o "homoousion" ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto, que eu não vi a senhora Professora referir, de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção ao Concílio de Niceia, vai gerar consequências durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII.
Sinceramente, perante os factos históricos, não sei como é que se mantém, sem ser anacronicamente, a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Roma.

C) Sobre as origens gnósticas da mortificação corporal

Fiquei surpreendido ao ver que a senhora Professora partilhava da opinião de que a penitência e o sofrimento corporal voluntários seriam algo de estranho ao cristianismo, encontrando as suas raízes no gnosticismo e no maniqueísmo. É inegável que a doutrina gnóstica considerava que a Criação era a obra maligna de um demiurgo, e que a matéria era intrinsecamente má. Contudo, é também inegável que essa era uma das principais razões pelas quais o cristianismo combateu o gnosticismo. Esse repúdio, essa malignidade da Criação, estavam (e estão) em total contradição com a tradição cristã e judaica (basta pensarmos no Génesis, por exemplo).
A tendência para uma valorização negativa da matéria sempre existiu no cristianismo, mas a sua génese nada tem de gnóstico! É pela noção do transcendente, pela elevação da condição espiritual acima da condição humana, que se pode abrir caminho para uma certa relativização da condição material, não enquanto maligna, mas enquanto inferior ao transcendente.
A abundância de exemplos da prática do ascetismo, a generalização dos testemunhos de eremitas e de vidas cristãs de grande penitência corporal, está presente no cristianismo desde as origens. O próprio martírio dos cristãos nas arenas romanas era já um bom exemplo desta entrega da vida às mãos dos carrascos romanos pela glória da defesa de uma verdade que transcendia este Mundo.
A mortificação corporal (nem sempre "auto-flagelação" como me pareceu que o debate de ontem pretendia concluir) não é uma prática do Opus Dei, mas sim do cristianismo desde sempre.
Não será, certamente, uma prática recomendada, mas ao mesmo tempo nunca tal prática se poderia condenar, desde que, dentro de certos limites, fosse mantido um respeito pelo corpo que impedisse a sua morte prematura (o que seria "contra natura").
Espero que concorde comigo quando aponto a diferença, cara Professora, entre o "endura" cátaro, a prática ultra-ascética do suícidio pela privação de alimentação, e o que a tradição cristã conta acerca, por exemplo, de um Santo Antão ou de outros santos que viveram como eremitas, alimentando-se de forma precária, procurando imitar Cristo (recordemos a estadia de Cristo no deserto) mas sem nunca procurar a gnóstica libertação da carne!
Para terminar, interrogo-me porque razão a senhora Professora não teria tido presente, no debate de ontem, uma evidência contrária às suas afirmações. Em S. Francisco, aliás, em toda a tradição franciscana, é difícil negar a presença da penitência corporal por via da privação dos bens e dos luxos da vida terrena. Ora, existirá hino mais anti-gnóstico, mais contrário à heresia gnóstica, do que o Cantico delle Creature, de São Francisco de Assis (2)?
Há, no cristianismo, um convívio generalizado com a penitência corporal, que também encontra raízes judaicas por via do jejum. Este convívio foi praticado e defendido sem qualquer relação causal com a heresia gnóstica. A mortificação corporal encontra a sua razão de existir na vontade, puramente pessoal, de certos crentes se identificarem com a Paixão de Cristo pela via do desconforto ou da penitência do próprio corpo, não porque este seria maligno, mas sim porque Cristo teria passado pelo mesmo tipo de situação,
É inegável que existiram, ao longo dos dois mil anos de história da Igreja Católica, vários exemplos de excesso, vários testemunhos de cristãos que levaram demasiado longe a relativização do corpo face ao espírito, e que, numa tentativa de fugir das "tentações da carne", procuravam na auto-flagelação uma solução para evitar cair em pecado. Este é, certamente, um caso de desvio do cristianismo, visto que de acordo com o legado cristão, o pecado resulta de uma decisão voluntária do Homem e não da malignidade do seu corpo, como defenderiam os gnósticos.
Conclusão: a mortificação corporal, como forma de imitação do sofrimento físico de Cristo, encontra o seu lugar na tradição cristã, sendo uma prática puramente pessoal, decidida e vivida opcionalmente na interioridade espiritual de cada um. A mortificação corporal como forma de expiação dos pecados é algo de excessivo e de seguramente posterior aos primeiros séculos do cristianismo, associando-se sobretudo à Idade Média e a um ambiente psicológico e social que a senhora Professora conhecerá certamente melhor do que eu, ao qual não é estranha a influência dos quiliasmos e dos sentimentos apocalípticos aliadas à vivência difícil de alguns dos séculos mais duros na História da Europa.

Falhando-me a memória para poder criticar outras afirmações proferidas pela senhora Professora Helena Barbas no referido programa televisivo, despeço-me com elevada consideração e respeito, não querendo de forma alguma manchar ou atacar a sua reputação académica, mas procurando sobretudo obter o esclarecimento das afirmações que aqui apontei e critiquei.

Com estima,

Bernardo Sanchez da Motta

(1) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne.
(2) Ver o texto completo desta composição de São Francisco aqui: http://www.crs4.it/Letteratura/CanticoCreature/CanticoCreature.html
Nota: consultei amplamente, na redacção deste texto, a enciclopédia católica on-line "New Advent", em http://www.newadvent.org

Lisboa, sete da manhã

espiga.bmp
A cada esquina, em estaminés improvisados em parapeitos, caixas de electricidade ou corrimãos das entradas do metro, aí estão elas e eles. Hoje, o ramo da espiga invadiu Lisboa com a promessa de pão (trigo), paz e luz (oliveira), amor e alegria (papoila), ouro e prata (malmequeres amarelo e branco). Centeio, cevada, aveia, margaridas, pampilhos e rosmaninho são outros componentes opcionais do dito, bem como a videira. Talvez me digam que nestes tempos apetece acreditar em grande coisa, mas o certo é que o meu dia começou bem.

maio 24, 2006

Notícias avulsas de uma quarta-feira anódina

América, América... ou Iraque, Iraque

Portugal, Portugal

e ainda Portugal

maio 19, 2006

Saudades do Aiello!

OS DEZ MANDAMENTOS DA BLOGSFERA

heston.jpg

1- Há que linkar, linkar sempre. Começando pelo óbvio mas sem grandes hipóteses de retorno, como o Pacheco, e acabando em malta simpática que até costuma dar troco a qualquer indigente que lhes bata à porta. Linkar e citar muito dá-nos a ilusão de que um dia, um dia, alguém com "nome" há-de reparar no nosso imenso talento e retribuir o favor.
2- Acima de tudo, muito cuidado com o nick que se escolhe. Usar o próprio nome pode ser coisa de gajo com tomates, mas não se compara a tretas eminentemente poéticas como "Luna", "Anazul" ou "Rosa Nocturna". Agora uma merda como "António Albino Aiello"… francamente: nomes cacofónicos e pindéricos destes é que não.
3- Nunca se contradiz os malucos. Na mesma onda de rosada tolerância, temos de fazer de conta que a bichice é um estilo de vida que até recomendaríamos aos nosso filhos.
4- Nunca se contradiz gajos convencidos que são o novo Fernando Pessoa. É mesmo de bom tom concordar com os alucinados que encontram naquelas cretinices salpicadas de advérbios de modo e de verbos mal conjugados textos "arrepiantes", "fantásticos", "de tirar o fôlego" e patacoadas similares.
5- A política só nos deixa dois nichos na blogosfera: ou temos posições definidas e coerentes ou fingimos que estamos acima desses temas rascas e tão pouco poéticos. Citar notícias ou criticar o Cavaco não é digno de um blogger distinto. Mas se tivermos mesmo de escolher um lado, a Direita é o que está a dar nos dias que correm.
6- Não é preciso ter algo a dizer para postar. Quem acredita no oposto nunca chegará a lado nenhum na blogosfera. Aliás, não faltam por aí blogues de sucesso a demonstrar a validade deste Mandamento.
7- Tal como a paneleirofobia é um claro no-no, dizer mal dos judeus assassinos que governam Israel ou dos ladrões árabes que enterram a Palestina também não é grande estratégia de sobrevivência. O mesmo vale para críticas à ICAR, aos Moons, ao PCP, à IURD, etc. Devemos ser tolerantes, sobretudo com os maiores crápulas deste lado da galáxia: os chefes das religiões organizadas.
8- Devemos sempre fazer de conta que esta senhora não é totalmente desinteressante e que excêntricos como este senhor têm montes de pilhéria. Claro que todos são muuuito mais substanciais do que aparentam; se não lhes achamos piadinha nenhuma, o defeito só pode ser nosso.
9- É imperativo fazer de conta que a blogosfera não está claramente dividida em 3 escalões: a Superliga, onde navegam os blogues muito citados pelos media, por vezes contendo opiniões novas e relevantes; a divisão de Honra, onde circula malta que até escreve bem e tem ideias no sítio mas ainda carece de "nome" q.b. ; as Distritais, onde se acumulam trastes pseudo-poéticos em aterros sanitários cheios de ridículos recadinhos para os amigos e de opiniões bacocas que não interessam nem aos autores.
10- O António Albino Aiello tem sempre razão.

António Albino Aiello

maio 18, 2006

Num cinema ao pé de si...

tom_cruise1.jpg

Bernardo Motta, defendendo ferozmente a Mona Lisa dos ataques impiedosos e impenitentes de Leonardo da Vinci, conluiado com Dan Brown.
Apoiemos o Bernardo. Há monas por que vale a pena lutar...

maio 17, 2006

Inscrevam-se aqui!!

seita
A seita está para a religião como a loja de bairro está para o hipermercado: as primeiras adequam a sua oferta ao tipo de bairro onde se inserem, as segundas vendem indiscriminadamente a quem quiser comprar.
Criar uma seita não é difícil, basta conhecer relativamente bem os papalvos que queremos evangelizar, adequando o discurso aos seus medos, às suas ansiedades e às suas necessidades. E depois é como fazer sabonetes – ou apostamos no básico e temos o sabão macaco que dá para tomar banho e lavar a roupa, ou vamos para uma coisinha mais sofisticada acrescentando aloevera ou ginseng que dão a ilusão que, para além de lavar, fazem mais qualquer coisinha.
Uma condição sine qua non de qualquer seita bem sucedida é a figura do seu líder espiritual – mais uma vez recorro à analogia da loja de bairro e do hiper: quantos de vós conhecem pessoalmente o gerente do hipermercado onde fazem compras? E quantos conhecem o dono da vossa loja de bairro? O hipermercado passa muito bem obrigado sem que vocês lhe conheçam o gerente, a loja de bairro não. O dono da mercearia confunde-se com a mercearia, é a sua alma, tal como o líder espiritual de uma qualquer seita.
Por isso quando se limpa o sebo a um desses líderes (muitas vezes eles limpam o sebo a si próprios, fartos da fantochada que criaram) acaba a seita.
E depois temos os seguidores – uma seita com um líder espiritual e sem seguidores é um terrível aborrecimento (garanto-vos eu que sou o líder espiritual de uma seita alucinada, mas sem ninguém que me siga). Para se ser seguidor de uma seita não são necessárias grandes habilitações: basta querer acreditar em qualquer coisa. Convém ser uma coisa assim distante e inatingível tipo: estar à espera das naves venusianas do comandante Ashtar que vêm buscar todos aqueles que acreditam; ou esperar pelo Cometa para lhe saltar para a sua cauda e zarpar rumo à outra ponta da galáxia; ou ainda aguardar de caçadeira na mão (numa onda mais Koreshiana) que me apareçam um dia uns gajos com as letras FBI nas costas.
Acreditar em coisas tangíveis como sentir na nuca a respiração de Hale Berry num dia nublado não são suficientemente motivadoras (vá-se lá saber porquê) para granjear um número considerável de seguidores.
Uma coisa que contribui para criar um espírito de corpo numa seita é o vestuário: pode ser mais ou menos elaborado dependendo do grau de loucura dos participantes, mas convém que seja uniforme – tudo de tanga laranja e capuz negro por exemplo; ou vestes compridas mais clássicas com padrões estranhos. O que interessa mesmo é que todos se vistam de igual, tipo salesianos.
Finalmente, a parte mais importante das seitas: o financiamento. Uma seita que não tenha apoios financeiros não é uma seita, é um grupo de escuteiros com distúrbios de personalidade (um silogismo, portanto). O apoio financeiro de uma seita não é pêra doce, e depende do grau de exigência do seu líder espiritual. Normalmente o jacto particular e o Ferrari Testarrossa fazem parte do cerimonial, mas outros fringe benefits podem ser acrescentados dependendo da quantitade e qualidade dos seguidores. Neste aspecto as seitas aprenderam com a secular experiência da Igreja Cristã, hoje muito mais discreta mas igualmente eficaz na arte de sacar o seu indiscriminadamente, sem recibos ou quaisquer deduções à colecta.
Para todos os que acham que a política já não tem futuro, sugiro uma pequena reengenharia na actividade profissional: façam a vossa seita. Tax Free.


[Humor Negro]

maio 12, 2006

Histeria de Massas

davincicode.jpg

O blogger Luís Grave Rodrigues lançou, com grande entusiasmo, uma campanha de anti-boicote ao filme O Código da Vinci.
Escolhi este post deste blogger como poderia ter escolhido muitos outros: não se trata de uma implicação pessoal.
Chamei a este meu post "Histeria de Massas" porque o filme em questão vai mostrar-nos precisamente o que é uma histeria de massas e de que forma é que tais fenómenos podem, ao mesmo tempo, ser tão mediáticos e tão inúteis.
Alguns esclarecimentos prévios:

1. Li o livro de Dan Brown e irei ver o filme, mas apenas quando puder (não alinharei em histerias de estreias ou ante-estreias);

2. Considero que a história em si, da autoria de Dan Brown, deve ser alvo de duras críticas, tanto porque o autor promove as ditas teorias pseudo-históricas como sendo verdadeiras, mas também porque a maioria dos leitores as leva a sério.

Por isso, torna-se evidente que, sem querer sugerir um boicote ao filme (caramba, eu vou vê-lo!), sou muito duro nas críticas que faço a este tipo de literatura em geral, e a esta obra desonesta em particular.
Posto isto, o cerne da minha questão é o que se segue...

O problema das histerias de massas é que polarizam as ditas massas em duas posições empobrecedoras e irredutíveis: há os "nossos", ou seja, os "bons", e há os "outros", ou seja "os maus". Esta infantilização de um fenómeno social complexo não é boa para ninguém! Apelar ao boicote é tão imbecil como apelar ao anti-boicote, sem que neste último caso se tirem as devidas ilacções acerca dos lados negativos deste fenómeno cultural: Dan Brown já vendeu 40 milhões de exemplares de uma obra de ficção que é vendida pelo próprio autor como uma obra baseada em informação histórica sólida!
Bastaria verificar o que Umberto Eco, um autor bem informado que não é conhecido pela sua simpatia pró-católica, tem escrito acerca da miséria das teses de Dan Brown: Eco chega a sugerir que os leitores, e com toda a razão, confiem no site do Opus Dei, por este site conter a informação mais fidedigna e imparcial acerca desta questão!

Vejamos, a par e passo, os erros em que incorrem as diversas facções (não pretendo ser exaustivo nem exagerar na catalogação - isto é apenas ilustrativo de tendências gerais):

PERFIL 1 - O cristão ofendido
Este sente-se, com muita razão, ofendido com a "História" na versão de Dan Brown, que distorce de forma inqualificável a história do Cristianismo, para mais enquanto defende publicamente que fez uma pesquisa histórica séria para compilar as suas teorias. Mas, e isto é o mais grave, muitos dos cristãos ofendidos não se dão conta de qual é a sua parte da culpa! É pela ignorância do crente que tais teorias patetas se tornam perigosas! É devido ao já caótico e catastrófico estado de analfabetismo religioso do cristão moderno que se chegou a esta situação! Campanhas de boicote a um filme não levam a lado nenhum: não geram informação e cultura para o crescimento cultural e espiritual do crente, nem geram informação sobre o cristianismo para a sociedade em geral.

PERFIL 2 - O fã / crente de Dan Brown
Este sente-se perante a revelação do maior segredo histórico de todos os tempos. A euforia da descoberta acelera-lhe a pulsação cardíaca. A elevada oxigenação das suas células cerebrais, contudo, ao invés de lhe tornar mais eficiente e eficaz o raciocínio, gera-lhe entusiasmos pouco regrados: este fã ou crente não irá estudar a questão a fundo. Não irá ler os livros essenciais. O cerne do Cristianismo passar-lhe-á totalmente ao lado, e possivelmente durante toda a sua vida. Para este fã / crente em Dan Brown, finalmente comprova-se o seu antigo preconceito de que a Igreja Católica era um bando de mafiosos e mentirosos. E assim, para este novo adepto da "Deusa", tudo ficará na mesma no que toca à sua ignorância acerca do fenómeno religioso cristão.

PERFIL 3 - O anti-católico que gosta de Dan Brown porque ele diz mal da Igreja Católica
Nesta categoria, inserem-se pessoas como Luís Grave Rodrigues, e muito boa gente que por esse mundo fora se congratula, e bate palmas, ao genial Dan Brown. Seguros que estão das suas certezas preconceituosas acerca do Cristianismo, berram, gritam e gesticulam por "anti-boicotes": não que esses anti-boicotes em si mesmos estejam errados! Eu estou contra o boicote ao filme! Mas porque este tipo de pessoas defendem a posição indefensável de que o público saberá avaliar, por si só, a veracidade das teses do filme, e que, portanto, não há mal nenhum neste fenómeno. Luis Grave Rodrigues critica o facto de vários representantes católicos estarem preocupados com a falta de preparação dos espectadores para visionarem este filme, porque ele pensa que não há perigo no seu visionamento. Ao afirmar isto, o Luís incorre num duplo erro: a) sobrevaloriza a cultura dos espectadores, que todos sabemos ser baixíssima; b) sobrevaloriza a sua própria cultura (se não vê problemas culturais na obra de Dan Brown isso já é suficientemente revelador da sua própria cultura).

Perfil 4 - O céptico face a Dan Brown mas crítico face à Igreja Católica
Nesta categoria, encontram-se, curiosamente, muitas pessoas equilibradas. Normalmente, são pessoas que sabem bem que não devem levar a sério as teorias anti-científicas e conspiratórias de Dan Brown. Mas sentem-se desconfiadas da doutrina católica e da forma como esta foi constituída. O problema, para estas pessoas, está em que, ao afirmarem que a obra de Brown "faz-nos pensar sobre certos dogmas instituídos", estão a cair na cilada de Dan Brown sem se darem conta. É também algo de incoerente: se criticamos a cientificidade de uma obra destas, porquê afirmar que tal emaranhado de pseudo-ciência nos faria "pensar" validamente sobre o que quer que seja? Nada se pode aprender sobre História no Código da Vinci, mas muito pode ser aprendido sobre Sociologia com esta obra. A minha sugestão, para estas pessoas, seria: de que estão à espera para começarem a estudar a Historia da Igreja Católica? Para pegarem num Catecismo? Num Novo Testamento?. Nada pior do que suspeitar de algo só por suspeitar, sem conhecimento de causa...

Evitemos a Histeria de Massas!
Tanto do lado católico como do lado anti-católico ou como dos múltiplos lados ditos "neutros", encontramos muita histeria...
Se algo pode ser aproveitado desta "crise browniana" é o desafio que nos é feito com esta situação concreta (sejamos nós crentes, agnósticos, ateus) para que estudemos, para que nos informemos, para que sejamos sérios quando defendemos esta ou aquela posição. Para que nos eduquemos, para que saiamos de um estado de infantilidade cultural, numa situação deplorável em que as nossas convicções bailam ao sabor das marés mediáticas e dos preconceitos da moda...

A ler

A entrevista de Nick Sagan ao Science Fiction Weekly.

maio 11, 2006

Prioridades e realidades

Será Portugal o primeiro lugar a visitar...

Lobby de Bernardo Sanchez da Motta revela-se especialmente poderoso no Médio Oriente

É um facto: Não só no Egipto estará proibida a estreia do "Da Vinci Code", como o mesmo sucederá noutros países árabes, que igualmente não verão a estreia desta obra prima. O mesmo vem aliás sucedendo com a edição e venda da tradução em árabe da obra de Dan Brown, proibida no Egipto e noutros países árabes.

Em Roma...

Incomodado pelo facto de ter sido lançado um denominado "Guide on how Americans should act around the world", destinado a proteger de algum anti-americanismo, o IMAO blog contra-ataca com um bem-humorado FRANK GUIDE TO NOT ANGERING AMERICANS. Primeira regra:

Learn English. We're the most powerful country in the world, so you better be fluent in English just in case you ever one day run into an American or just want to know what we're saying about you... if anything. We don't have time to learn all your different silly little languages, so just learn ours. Also, if you’re begging a Marine to spare your life, it's much more effective if he can understand you.

maio 10, 2006

Think Tank

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"President Bush had dinner last month on the Stanford University campus at the home of George P. Shultz, who was President Ronald Reagan's secretary of state, and the topic of conversation was not, as might be expected, the war in Iraq. Instead, guests said, Mr. Bush spent the evening focused on how he could create a public policy center with his presidential library after he leaves office in 2009. (...) he wanted to create a policy center focused on the spread of democracy and Alexis de Tocqueville's vision of America as a nation made better by its "associations," or community groups.

"I would like to leave behind a legacy or a think tank, a place for people to talk about freedom and liberty, and the de Tocqueville model, what de Tocqueville saw in America," Mr. Bush told Mr. Schieffer.


[a imagem do tanque supra foi gentilmente cedida por FibroÁgueda, Indústria de Fibras, Lda.]

Enquanto não vamos todos almoçar

Dance Monkeys Dance. Para um momento de alegria no trabalho.

Pedreiros do Millennium

macons
A malta receia aquilo que desconhece. Quanto mais secretismo e mistério se promover em torno de qualquer coisa, mais respeitinho se tem por essa coisa. Foi com base nesta premissa básica da natureza humana que se criaram as lojas maçónicas. Sempre envoltas num mistério cabalístico, as lojas maçónicas e os seus incógnitos membros são alvo das mais variadas especulações: conspiração mundial para colocar os seus membros nos lugares-chave do poder político e económico; tráfico de influências; festas pagãs envolvendo virgens bêbedas e desnudas; práticas impronunciáveis com animais de pequeno porte; embalamento de frutas escamosas sem recurso ao vácuo; e outro tipo de actividades que, na realidade, nada estão relacionadas com a razão de ser maçon (ou pedreiro-livre, se quiserem).
A verdadeira razão da maçonaria é algo de muito mais simples, embrulhada, por uma questão de marketing e credibilidade, num conjunto de rituais e vestimentas ridículas, com o objectivo de intimidar o mais incrédulo. Na realidade o objectivo do maçon é ter uma desculpa para deixar a mulher em casa e ir passar umas horas descontraídas com os amigos, em amena (e por vezes, alarve) cavaqueira. Algumas lojas admitem mulheres, mas nunca as dos próprios sócios (porque será?), embora a maioria das lojas se constituam seguindo escrupulosamente os estatutos do Clube do Bolinha.
Detentores de uma imaginação prodigiosa, os maçons estão na base do progresso social e são responsáveis por uma série infindável de invenções que tiveram como único objectivo fazer com que as suas mulheres não os controlem, nem os chateiem. Alguns exemplos:
No início do século XX inventaram o Country Club – um sítio de acesso exclusivo a indivíduos do sexo masculino onde podiam passar o fim de semana a comer, a beber e a jogar que nem uns javardos.
Anos mais tarde inventaram o Golfe. Na altura jogar golfe consistia apenas em enfiar a bola num único buraco. Como aquilo durava muito pouco tempo inventaram o green com 18 buracos – podiam estar uma tarde inteira a jogar uma única partida entre amigos e sem as mulheres.
Nos anos 30 inventaram o Chá das Cinco. Elas ficavam entretidinhas a preparar e a fazer o chá para as amigas e eles bazavam para se divertirem que nem uns perdidos.
Como o Chá das Cinco tinha uma duração muito reduzida, pensaram numa maneira de o alargar. E assim, nos anos 40 fizeram um upgrade inventando as Reuniões de Tupperware que tinham lugar antes do Chá das Cinco.
Nos anos 50 inventaram os Salões de Cabeleireiro. Nos anos 60 foram mais longe e inventaram o Movimento de Libertação das Mulheres (enquanto elas participavam nas reuniões e manifestações eles iam à sua vidinha fácil).
Nos anos 70 inventaram os cartões de crédito. Lá iam elas todas satisfeitas às compras estoirar o plafond dos cartões.
Nos anos 80 decidiram circunscrevê-las num determinado espaço, para melhor as controlar, e inventaram os Centros Comerciais.
Nos anos 90 inventaram a Internet e as Compras Online (que reduziram drasticamente a taxa de infidelidade das décadas anteriores porque elas já não precisavam de saír para ir às compras).
Na actual década inventaram o Investimento no Brasil, e lá vão eles em grupo «fazer negócio para a sua Empresa Brasileira» enquanto elas ficam por cá a tratar da casa e dos filhos.
Naturalmente que têm que ser secretistas e misteriosos. Estariam completamente lixados se não o fossem. Deixem lá os gajinhos a curtir em paz...



[Humor Negro]

maio 09, 2006

Luísa, jamais te olvidaremos!

luisa.jpg

A verdade merece ser bradada, doa a quem doer: A Luísa C. foi velhacamente saneada da SOCA! Ao contrário das aleivosas inverdades que por aqui se contam, numa tentativa patifória de disfarçar o desconforto face aos inevitáveis comentários na comunidade blogueira, Luísa C. não era um alter-ego de ninguém. A Luísa C. é uma mulher de carne e osso, com sentimentos, personalidade, riqueza interior (bastante interior, até) e um mau penteado. Porque é que lhe fizeram a folha?! Não era uma gaja boa, nem era doida por sapatos!

Nem as Galinhas são poupadas à opressão Sionista

Israeli scientists unveiled their new genetically modified featherless chickens, which are supposed to be cheaper to kill, as they need not be plucked, though the naked birds have been unable to mate, because the males cannot flap their wings, and they are vulnerable to mosquito attacks and disease, and they fall down stunned if they happen to wander out into the sunlight.

Koeman ganha Prémio Camilo Castelo Branco

Desculpem. Foi Kellerman.
Koeman vai treinar o Benfica de Castelo Branco. Assim é que é... será depois conhecido como o camilo do Benfica, com duas bossas e muito pilo...
Abraços lampiões a todos, lagartos, morcões ou o que sejam.
Agora somos todos da Selecção!

maio 08, 2006

Porter Goss, o Aliado Paquistanês e o 11 de Setembro

Entre o muito que vem sendo escrito sobre a recente demissão do Director da CIA, Porter Goss, apetece-me destacar este artigo de Michel Chossudovsky no CityPaper de Filadélfia, para perceber que há muita coisa que tresanda nalguns aliados da presente estratégia de luta contra o terrorismo. Falta acrescentar que na manhã do fatídico 11 de Setembro o Sr. Goss até tomou o pequeno-almoço com o representante da Nação amiga Paquistanesa, o mencionado General Mahmoud Ahmad.

Pakistan’s chief spy Lt. Gen. Mahmoud Ahmad "was in the U.S. when the attacks occurred." He arrived in the U.S. on Sept. 4, a full week before the attacks. He had meetings at the State Department after the attacks on the World Trade Center. But he also had "a regular visit of consultations" with his U.S. counterparts at the CIA and the Pentagon during the week prior to Sept. 11.

What was the nature of these routine pre-Sept. 11 "consultations"? Were they in any way related to the subsequent post-Sept. 11 consultations pertaining to Pakistan’s decision to cooperate with Washington? Was the planning of war being discussed between Pakistani and U.S. officials?

On Sept. 9, while Ahmad was in the U.S., the leader of the Northern Alliance, Commander Ahmad Shah Masood, was assassinated. The Northern Alliance had informed the Bush administration that Pakistan’s Inter-Services Intelligence (ISI) was allegedly implicated in the assassination.

The Bush administration consciously took the decision in the post-Sept. 11 consultations with Ahmad to directly "cooperate" with Pakistan’s military intelligence despite its links to Osama bin Laden and the Taliban and its alleged role in the assassination of Masood, which coincidentally occurred two days before the terrorist attacks.

In the days following Ahmad’s dismissal, a report published in the Times of India revealed the links between Pakistan’s chief spy Ahmad and the presumed "ringleader" of the World Trade Center attacks, Mohamed Atta. The Times of India article was based on an official intelligence report of the Delhi government that had been transmitted through official channels to Washington. Quoting an Indian government source, Agence France-Presse confirms that: "The evidence we [the government of India] have supplied to the U.S. is of a much wider range and depth than just one piece of paper linking a rogue general to some misplaced act of terrorism."

The article’s revelation has several implications. The Indian intelligence report not only points to the links between ISI’s Ahmad and terrorist ringleader Mohamed Atta, it also indicates that other ISI officials might have had contacts with the terrorists. Moreover, it suggests that the Sept. 11 attacks were not an act of "individual terrorism" organized by a separate al-Qaeda cell, but rather they were part of a coordinated military-intelligence operation, emanating from Pakistan’s ISI.

o artigo integral aqui

Como se alcança desta notícia, pelo menos os serviços secretos indianos parecem estar a fazer um bom trabalho para desmontarem os verdadeiros actores do tal axis of evil, enquanto Allah o Misericordioso executa milagres no Bornéu.

maio 07, 2006

Tou cromo

Estas linhas começaram por ser um comentário ao post anterior, mas a imagem que achei no forum do http://www.misteriojuvenil.com justificou a promoção.

Sem contrariar os argumentos do Humor Negro, acho que houve um factor determinante no declínio do império cruássanteiro, que não foi mencionado. O cromo do Bolicao!
Se fizerem um rewind até aos finais dos eighties, devem lembrar-se que tal fenómeno coincidiu com o descrédito das croissenterias.

Andaram os criadores da genial ideia de misturar um pão manhoso, com um chocolate ordinário, de mãos na cabeça, durante anos a tentar desencantar soluções para a falta de aceitação generalizada ao dito artigo.
Falhou a aposta na publicidade, falhou a reformulação da imagem do produto, falhou o enriquecimento da receita. Tudo foi tentado, mas o lobby do croissant manteve-se inultrapassável.
O cromo do Bolicao tudo mudou.

img170.jpg

Se calhar as coisas nem se passaram muito bem como a seguir se conta, mas não deve ter andado muito longe disto:

Preocupado com o possibilidade de encerramento da unidade de fabricação do pão achocolatado, um qualquer estagiário, terá arriscado a seguinte sugestão:
Estagiário: Atão e se metêssemos um cromo lá dentro ?
Sr. Aministrador: Um cromo?? Mas pra quê ?
Est: Pra nada, chefe! Só um cromo.
SA: Tens com cada idéia. Mas cromo do quê, pá ? Isso interessa a quem ?
Est: Ópá sei lá chefe, um cromo duma merda qualquer. Com bonecos, sei lá...Interessa a todos, chefe, interessa a todos. Cromos em Portugal é sucesso garantido.
SA: Explica lá isso, fáxavôr !
Est: Ó chefe...Já reparou nos gaijos que estão sentados no parlamento? Eles não nasceram lá. Aquilo foi o pessoal, nós os tugas que votámos neles. Já viu maior caderneta do que aquilo ? O pessoal gosta é de cromos. Se não acredita repare nos clubes de futebol. Aqueles dirigentes também são eleitos. Conhece cromos mais cromos ?
SA: Eheheh. Sim, aí tens uma certa razão, mas daí a podermos aplicar isso ao comércio...vai uma distância considerável.
Est: Pois não sei... o chefe é que sabe, mas olhe, os gaijos da Olá, há séculos que conseguem vender a porcaria do Epá à tonelada, à conta da pastilha. É o mesmo princípio do cromo. A gente mete na embalagem uma chachada qualquer que não sirva para nada, fá-los pagar por isso e diz-lhes que é brinde.
SA: Eheheh. Este puto tem piada. Senta-te aí um bocado.
Est: É garantido chefe. O chefe até vai ter que aumentar a frota das carrinhas, que isto não vai chegar p'rás encomendas.
SA: Humm, essa agradou-me !
Est: Ah pois é chefe. E mais. Escusa de andar a gastar mais guito no melhoramento do produto, que o pessoal está-se um bocado a cagar p'ra isso.
SA: Ai é ?
Est: Claro, o chefe tem é que arranjar um porradão de cromos...coloridos, e de preferência, assim a atirar ao foleiroso, tá a ver ?
SA: Sim, mas porquê ?
Est: Por causa do efeito-colecção, Chefe. Se forem poucos, toda a gente vai ter os mesmos, e são não pudermos fazer inveja ao vizinho, com alguns cromos que ele não tenha, a coisa arrefece...Competitividade entre os consumidores, percebe chefe ?

E assim terá nascido a "Toumania", com os resultados de que se devem lembrar.
Pessoalmente, parece-me que tal como nas outras modas ou febres, o problema dos croissanteiros nem foi o número dos que aproveitaram a onda, foi o dos que não souberam sair dela a tempo.
A um êxito instantâneo sucedeu outro semelhante.
Em comum entre os croissants e os bolicaos, a facilidade de embarque que revelamos em cada foleirada bem promovida que apareça. Então se envolver cromos desviem-se, que o tuga vai sair disparado.

P.S. Nunca gostei muito de croissants, sempre me pareceram pães-de-leite armados em importantes...mas confesso que tenho saudades de ouvir o outrora frequente: "Sai duas cruássandes cum queijo"

maio 05, 2006

Eu cá é mais bolos

croissant
A razão do insucesso de qualquer negócio em Portugal está relacionado com aquilo que costumo designar pelo «síndrome do croissant», uma derivada da famosa expressão «onde mija um português, mijam logo dois ou três».
O «síndrome do croissant» tem o seu início e o seu fim em meados dos anos 80, no século passado, altura em que muitos dos leitores deste blog se preparavam diligentemente para nascer.
Antes dos anos 80 não existiam croissants, imaginem vocês. As pastelarias exibiam orgulhosas duchéses, coriáceas bolas de berlim, empertigados ecláires, esbeltos pastéis de nata, abnegados jesuítas, e muitos outros docinhos que apaziguavam a gulodice bovina de muita gente. A palavra snack ainda não fazia parte da vida dos mamíferos daquele tempo.
Então, surgido do nada, ou provavelmente surgido do empreendorismo de um emigrante da bidon ville (que é praticamente a mesma coisa que nada) surge a primeira croissanterie - assim mesmo, em estrangeiro para parecer mais fino. Ávidos por tudo aquilo que vinha do estrangeiro, na boa tradição do provincianismo nacional, os portugueses acorreram em massa. E o sucesso da primeira croissanteria foi tão grande que, num curto espaço de tempo, o país se transformou numa imensa croissanterie. Era impossível descobrir uma pastelaria. Porta sim porta sim, as croissanterias espalharam-se como um ébola desvairado, por todo o país, ameaçando a sobrevivência do queque e do mil folhas. Cidades houve em que surgiu a «rua das croissanterias». Os portugueses atafulhavam-se de croissants como se não houvesse amanhã.
E de repente, cerca de 5 anos depois da croissanteria original, acabaram tão rapidamente como tinham começado. Tipo dinossauros. A razão: não havia mercado para tanta oferta - estava descoberto o «síndrome do croissant».
Curiosamente, os pequenos empresários portugueses não aprenderam nada e, hoje em dia, o país apresenta um número absurdo de falências que está directamente relacionado com este fenómeno.
Em Portugal, a maneira mais rápida de atingir a falência é ter uma boa ideia lucrativa, que só vai ser lucrativa nos primeiros meses porque será selvaticamente copiada até à exaustão: videoclubes; lojas de posters; ginásios; casas de frangos; lojas de artesanato; restaurantes; cibercafés; etc.
Conclusão: tudo tem de dar lucro no muito curto prazo, um princípio que não é nada saudável para o futuro económico, quer do negócio, quer do país

[Humor Negro]

maio 04, 2006

Único e irrepetível

No momento em que esta entrada vai para o ar, a tradução numérica é algo que nunca mais vai existir nas nossas vidas:
1:2:3:4:5:6
Uma hora, dois minutos e três segundos de quatro do cinco do seis.

maio 03, 2006

update

O que acontece quando um excepcional blogger faz de ventríloquo? Transformando adoráveis animais que procuram ser de estimação em cães melómanos?
Era giro que houvesse um blog que nos desse música e vídeos, nos poupasse o trabalho de descobrir os links relevantes e importantes, nos informasse, nos divertisse e nos deliciasse, por ser lindo. Não havia, mas já há: é brand:new.

brandnew.jpg

maio 02, 2006

Ai a língua portuguesa...

cel.jpg

Porque é que, num SMS, quando se quer escrever "Olá Ana, daqui é o Tiago" ele escreve "Olá, Boa, daqui é o Vício"?

Outras paragens...

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"solitude"
geoffrey oryema (uganda)
album "exile" 1990

Carreiras

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Com a actual crise no mercado de trabalho, urge apresentar alternativas de carreira aos que a têm suspensa (à carreira, seus badalhuecos).
Ao mesmo tempo, alastra em Portugal o fenómeno do parolismo, o que todos fingem ignorar, com excepção da comunicação social, indústria discográfica, e candidatos ao exercício do poder político em período de campanha.

Temos assim, uma fracção considerável da população perfeitamente votada ao abandono, sem qualquer instituição que os apoie, sem uma linha directa à qual possam recorrer num momento de aflição, nem um comissário ou provedor qualquer que zele pelos seus interesses. Em simultâneo, uma taxa de desempregados a raiar os 10%.

Crie-se então o parolo officer, adaptação à realidade nacional dos parole officer, indivíduos que, nos states se dedicam a fazer queixinhas quando a rapaziada da condicional pisa o risco. Nós por cá não precisamos disso para nada, damos antes uma peça de bijutaria chipada àqueles que devem ser controlados, mas cuja perigosidade não justifica a preventiva.

Já os parolos, esses sim carecem de acompanhamento pemanente e personalizado. Precisam de atenção.
O parolo officer poderia desempenhar funções de grande relevância social e humanitária, de inegável utilidade.
Já repararam certamente naqueles indivíduos que vagueiam sozinhos pelas ruas aos domingos, passo lento e olhar em paralelo infinito. O officer podia, por exemplo, encaminhá-los para o complexo comercial mais próximo, a fim de promover a sua socialização com os da sua espécie, quer através da participação em animadas procissões rente às montras, ou da sua encarceração no ponto obrigatório de paragem no movimento migratório do parolo domingueiro, o cinema do shopping. E ficava assegurada a integração.

Caberia ainda ao officer a correcção de gestos técnicos deficientemente executados, sob a óptica paroleira. A título de exemplo, cite-se a forma de dialogar. Parolo que se preze nunca apresenta registos vocais abaixo dos 75 decibéis. Fala normalmente acima dos 90, ultrapassando os 110 quando ao telemóvel, sendo porém tolerados desvios, até um máximo de 20%, para momentos íntimos, uma vez que tal marca assegura a sua audibilidade nas moradias dos vizinhos.

Outra das ocasiões em que se tornam mais visíveis as lacunas dos menos rodados na área do parolismo é o da entrada nas lojas. É imprescindível para o parolo, a permanência junto à porta, por período não inferior a dois minutos, geralmente em animada cavaqueira com a respectiva parola e/ou mini-parolos, impedindo a entrada ou saída dos demais do estabelecimento em causa. Para estimular a competiitividade e o apuramento da espécie, aos que conseguissem ficar indiferentes aos pedidos de "có'licença" que lhe fossem dirigidos, o officer atribuiria o parolo de honra ou galardão semelhante.

Como a taxa de inflação paroleira não dá sinais de abrandamento, daqui resultaria seguramente uma redução significativa e sustentada do número de desempregados.

O funcionamento do sistema, seria garantido pelo somatário do que se deixava de gastar em subsídio de desemprego com as avultadas coimas a aplicar aos parolos desertores ou refractários. Mão pesada dos officers para todos os que fossem apanhados sem uma cassetezinha do Dino Meira no carro, ou que na inspecção ao domicílio não demonstrassem ter o quadro do puto chorão em local de destaque, ou dois terços do exterior da vivenda coberto com azulejos hipnóticos ou psicadélicos.

Salvamos uma espécie e acabamos com o desemprego. Política sócio-ecológica!! Estamos à espera de quê ?

maio 01, 2006

Globalizacoiso

estreladeradio

Video killed the radio star. Sempre que me falam em globalização o meu cérebro vagueia invariavelmente por esta música simpática dos velhotes Buggles. Goste-se ou não a globalização matou, a dada altura, a maior parte do que era feito localmente. Este não é um post anti-globalização, até porque pessoalmente acho que esta nos tornou mais conscientes do mundo à nossa volta – por vezes demasiado conscientes para o meu gosto. Este é um post com o mesmo travozinho saudosista e atravessado pela mesma alegria adolescente e inconsciente da música original. É um post «que se lixe». Que se lixe já não termos os iogurtes Longa Vida; que se lixe a Pasta Medicinal Couto; que se lixe a Laranjina C; que se lixem programas de rádio que nos faziam acordar cedo como o Pão com Manteiga (de um rapazinho que hoje está indiciado por pedofilia); que se lixem os Rajás, os chocolates Regina e as Bombokas; que se lixem os Pilote, os Cavaleiros Andantes, e os Tintins coleccionáveis; que se lixem o ZX Spectrum e o Atari; que se lixem os Sanjo (esbirros nacionais dos All Star); que se lixem os pirulitos e as pastilhas Gorila. Que se lixem o Subbuteo, e o Ludo, e a sueca.
E viva a globalização! Normalizada, instantânea (sem juntar água), e em directo. Vivam as frutas gigantes e brilhantes a saber ao mesmo; viva a fast food que nos garante que tudo sabe igual em locais diferentes; viva a roupinha para betos, para dreads, para grunges, para góticos, e para surfistas; vivam os bifes de vaca lúcida e os frangos sem febre. E acima de tudo vivam os blogs, a expressão máxima e positiva daquilo que é a globalização – e que nos mostram diariamente que, apesar de tudo, encerramos em cada um de nós um imenso universo nunca globalizável.
Passem um grande e globalizante dia.

[Humor Negro]

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