Férias Lusas

Não há nada mais exasperante do que ir de férias para um sítio recheado de portugueses. Depois de 18 anos a levar com portugueses no Algarve prometi a mim mesmo passar as minhas férias, para o resto da minha vida, fora de Portugal. A maior parte das vezes consigo viajar para sítios sem tugas. Outras vezes não tenho essa sorte, e já sei a sorte que me espera:
No Avião para Lá
Para parecerem muito modernos e muito rodados na onda de viajar de avião, os portugueses comportam-se como se estivessem num autocarro de carreira em hora de ponta. Andam de um lado para o outro de pé. Encostam-se à cadeira de quem calhar. Sentam-se nos braços da cadeira ao seu lado. Gritam ruidosamente para manter uma conversa com a excursão de amigos e amigas que viajam com eles, sentados em pontos opostos do avião. E naqueles vôos de longo curso, onde o que eu só quero é dormir para não sentir a viagem passar, passam a noite excitadinhos que nem uma criança à espera do Pai Natal, e a beber que nem uns javardos. Gosto particularmente da fase da aterragem, onde todos batem palmas como se estivessem num circo.
No Pequeno Almoço do Hotel
Distinguir um português em férias antes de ele abrir a boca é um exercício penosamente elementar. Podemos distingui-los pelo belo calçãozinho de banho com padrão príncipe de gales, acompanhado pelas chanatas, ou pelo sapatinho de vela com peúga de cor variada, dependendo do seu grau de sofisticação social. Mas se porventura já aprenderam a vestir-se decentemente há uma coisa que não falha: a quantidade inacreditável de comida que, no buffet, conseguem transportar nos pratos. E a quantidade de vezes que repetem. Se não repetirem 3 vezes é porque estão com azia da viagem.
Na Praia
Aqui continua ser fácil porque se comportam como se estivessem na Caparica: berram que nem uns desalmados, levam um lanchinho proveniente do pequeno almoço, e estão sempre acompanhados por uma bola de futebol que insistem em chutar para cima dos outros (mais por falta de jeito do que intencionalmente). Os que não levam bola passam o dia a chafurdar dentro de água, a dois metros da areia, numa actividade que consideram tratar-se de snorkelling.
No Comércio Local
Não compram nada que não seja muito bem regateado. Não interessa nada se estão a regatear preços miseráveis. De calculadora na mão, estão dispostos a negociar 5 cêntimos para orgulhosamente acharem que não só não foram enganados, como enganaram o pelintra que estava a vender o pechisbeque para comer a sua refeição diária. Claro que neste processo a chinfrineira é mais que muita...
No Avião de Volta
Regressam normalmente decorados com os artigos locais: o chapéu de palha ou feito com folha de palmeira pelo barman do hotel; a camisinha às flores; a t-shirt alusiva tipo «Yo estube en Varadero»; O cabelinho entrançado à lá nativa; a tatuagem temporária no braço; todos com um bronzeado excessivo, próximo da insolação, meio inchados do sol e da bebida. O seu comportamento dentro avião é um remake do que fizeram à ida.
Felizmente tenho um agente de viagens que me compreende. Quando me vê chegar para comprar as minhas férias, diz sempre: «já sei onde é que não vai passar férias este ano».

Comentários
Humor Negro, com esta descrição tão pormenorizada, quer-me parecer que as suas férias têm sido um bocado "chungas" (ao contrário do que nos quer fazer acreditar...)
afixado por: Leão da Lezíria | junho 6, 2006 11:48 AM
Concordo plenamente....a mim é que não me apanham no Brasil, República Dominicana, México, Indonésia e afins...nada como matar saudades das capitais europeias no Verão para encontrar uma percentagem mínima de portugueses....em Portugal para não encontrar o portuguesinho típico e confusão habitual é o mau cheiro é complicado, assim à primeira só vejo mesmo S. Pedro de Moel....Agosto definitivamente é para passar em casa na fresquinha....
afixado por: Rendinhas e Veneno | junho 6, 2006 01:51 PM
Eu acho que o "Humor" está a dever-nos a publicação online dos comprovativos dos seus últimos 10 "vouchers" de férias. Temos que saber onde é que andas a passar as tuas férias, pá! A minúcia da tua análise é altamente suspeita...
afixado por: Bernardo Motta | junho 7, 2006 10:45 AM
Pelo ke li, e eu sou dos ke lê tudo, mastiga calmamente, saboreia, tenta identificar os sabores e as suas origens e no final, engole ou deita fora, total ou parcialmente. Akilo ke li, como dizia, deixou-me um pensamento/dúvida - também é uma atitude típica do português vulgar,(é aquele ke não se acha diferente)sempre que está em públiko, ocupar o seu tempo e a sua atenção, observando e criticando a postura e os habitos dos demais?
Kundo era criança e ao sair kom os meus pais, notava alguem ke me parecia "diferente" e lhes chamava a atenção para esse facto, recordo-me de eles sempre me dizerem, educando-me : Kem está, está, kem vai, vai.
Abençoados!!!!
afixado por: Falcão | junho 8, 2006 11:05 AM
There is much more simplicity in a man who eats caviar on impulse than in a man who eats Grape-Nuts on principle (Chesterton)
afixado por: fresquinha | junho 8, 2006 06:39 PM
Chesterton também disse... se puderes não anseies por mais do que já possuis...
hehehehe
outro alguem também disse...Não se deseja o que não se conhece.Porém, sofre-se quando se ama...
malvados pensadores, julgam-nos incapazes de dirigir o nosso intelecto, não resistem á tentação de subtilmente tentarem configurar a nossa argúcia.
Em abono deles, vou ter de convir que outra situação também sucede... citamo-los com mais frequência que a necessária, hehehehehehe
e aqui deixo mais uma, que ouvi da boca de Isabel Silvestre... é bom que saibamos sentamo-nos á soleira, a ouvir os ruidos do mundo e interpretá-los á nossa maneira.
Estou espantado comigo, ainda só tive uma aula de meia hora e já consigo eskrever sem utilizar os "K"
afixado por: Falcão | junho 9, 2006 12:34 PM
ahahahahahah ... Enfim, fazes-me rir ... Há quem precise muito de outras aulas, a vida inteira. Tu só precisaste de meia hora. Tens graça.
Leonor
afixado por: fresquinha | junho 9, 2006 02:44 PM
Nem sempre!!!
Outras nacionalidades se reconhecem à primeira.
Aqui...no fundo do "campo" em frança, uma família portuguesa só a reconheço pela...matrícula do carro.
Discretos, educados, respeituosos...enfim, não devem vir da mesma terra que os viajantes aéreos aí descritos.
fagote (Dordogne)
afixado por: fagote | agosto 4, 2006 10:01 PM
Que palhacada pegada, porque nao imigra, se esta farta de Portugueses...Tem medo de ser rotulada de Portugues la fora? Se sim de um tiro nos cornos e acredite na reencarnacao, pode ser que reencarne no Bangladesh, e entao possa ter as suas merecidas ferias, com as pessoas que merece...Haja paciencia para estas tias.
afixado por: Observador | agosto 21, 2006 06:28 AM
Não lhe chega o resto do ano para ser "cusco"? até nas férias? tenha dó! nada mais chunga, que um chunga armado em chic.
afixado por: Joao | agosto 30, 2006 03:39 PM
Excelente a descrição dos tugas em férias. Alguns comentários anteriores são tão representativos da descrição do "post"! lol! Com o devido respeito, fiz uma cópia para o meu blog.
afixado por: minarete | janeiro 6, 2007 06:42 PM