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agosto 27, 2006

qwert

qwert.
terqw.
ewrtq.

palavras.
apalsarv.

Um teclado.

27 letras.

Qwertyuiopasdfghjklçzxcvbnm.

Mnbvcxzçlkjhgfdsapoiuytrewq.

O resto, !”#$%&/()=;:^`´*¨¨?; são bengalas de fraco escrevinhador.

2004825114811teclado.JPG

Pequenas são as probabilidades de, batendo insistentemente nas teclas, não se conjugar uma palavra. E, de forma insistente, uma frase. E, daí, um texto.

Partindo deste pressuposto, a coisa afigura-se fácil.

O título? Deste para o texto ou do texto para este?

À vontade do freguês, que é como quem diz, do batedor de teclas.

Era uma vez…

Há quem diga que um gato maltês.

Outros preferem coisas sórdidas entre uma pálida donzela e meia dúzia mais um de nanicos.

Tente-se…

Era uma vez…

Sem bengalas.

Era uma promessa que lhe tinha feito

(arranja-me aí umas vírgulas)

Era uma promessa que lhe tinha feito. Havia de escrever um livro. Chegou a pôr um alarme no telemóvel: 2ª feira, 15 horas, avisar 10 minutos antes (era um nokia): "Escrever". Assim mesmo. "Escrever". Como se estas coisas de escrever pudessem ser programadas.

Levanta-se pela manhã, toma um duche, engole os cereais e vai à bolina no seu carro que "pelo menos é seguro" e que "já não é a primeira pessoa que me diz, e até já li num livro: tem mais 28 cavalos do que diz o livro - sabes como é que é! Questões fiscais".

E vai asinha porque não pode chegar atrasado ao seu novo emprego de escritor. O patrão é severo. Tem prazos a cumprir. Agora é um romance. Uma história de tragédia. Dois irmãos que se apaixonam um pelo outro e são obrigados a terminar a relação quando descobrem que, afinal, não são irmãos. Depois chega a hora de almoço e à tarde tem de se embrenhar numa comédia.

Há que arranjar um herói. Pode ser o terceiro irmão dos atrás avindos - e que hão-de deixar de o ser. Que nome lhe havemos de dar? Passa este escriba pelas mesmas agruras dos pais que lhe escolheram o nome, assim como "uma espécie de pai sem o ser". Martim. Pronto. Pelo menos aqui não tenho quem discorde. Martim será e pouco me importa que lhe chamem Martins. Afinal as crianças são cruéis e os adultos são medíocres. Quase todos. Não podem ser todos. O próprio conceito e o simples facto de existir, como tal o impõe. Se o oposto da mediocridade, qualquer que ele seja, como de resto tudo o que é ou não é, não existisse, ou não fosse reconhecido, a própria mediocridade não existiria.

Mas já chega de conversa fiada. Vamos às coisas sérias.

Falava-vos do nosso herói! Lindo! Bela tirada: "o nosso herói". Livro que o queira ser, deste escritor de empreitada (que não sou eu, atenção, não se esqueçam da promessa), tem de ter um princípio, um meio e um fim e, mais que tudo, tem de ter um narrador - aqui posso ser eu - que possa dizer coisas como: "o nosso herói".

Martim. Irmão do Fulano e da Beltrana - assumi o "Beltrana". Irmã borralheira da Fulana, a preferida, e da Sicrana, irmã do meio a quem pouco falta. Não é a sério, não se esqueçam, porque irmãos são mesmo só três - recapitulando, Martim, Fulano e Beltrana. Nesta história, sempre que não se quiser nomear alguém, Beltrana será. E assim no feminino, que fica giro. E o raio do corrector ortográfico automático quer à força mudar-lhe o género. Pois que aguente. Não é Beltrano. Nesta estória não há paneleirices, se o outro é fulano, esta tem de ser Beltrana. Bem bonda o incesto que afinal não era.

O Martim, como não pode deixar de ser, é aprendiz de feiticeiro. Genericamente: bruxo - como se intitula. Num mundo de medíocres ninguém quer ser aprendiz de nada. Vamos todos fazer de conta. Fazer de conta que somos felizes. Fazer de conta que somos experimentados. Fazer de conta que temos dinheiro. Fazer de conta que não são os nossos papás que nos sustentam. Fazer de conta que nos esfalfamos a trabalhar. Sábados, Domingos e feriados. E dizer mal do vizinho que é um calão e não trabalha nos dias de descanso - deve-lhe vir da droga. Mesmo que estejamos conscientes, e alguns não fogem a esse estado, o que só lhes deve aumentar a agrura, mesmo que estejamos conscientes que não fazemos a ponta de um corno, que é só para inglês ver e, pior que tudo, que somos, na maior parte das vezes, o nosso próprio inglês. O que interessa é que o nosso vulto apareça na fotografia, que os movimentos mecânicos do trabalho se possam vislumbrar. Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato, dado bem alto e ao vento para que ninguém possa ouvir nem cheirar.

Mesmo assim. Como num enorme auto de fé de bruxas vaidosas. E um bruxo não dorme, um bruxo não come, um bruxo não bebe, um bruxo não fode. Pois bem, este aprendiz de feiticeiro faz isso tudo e mais uma botas que sejam precisas para algum pobre ucraniano que por ai ande de pata ao léu.
E lá vai então o Martim para o escritório. Chegou. As estórias misturam-se, a do criador e da criatura. Está quase a tocar o alarme das 10 para as 10. Ele espera, pacientemente. Escrever. Tá bem, tá. Escreve tu que tens bom vagar. Eu tenho muito com que me entreter - afinal, sou o vosso herói, o protagonista desta história. Embora não me desagrade de todo a ideia de tão tonta corrente literária, não gabo a sorte de quem a quiser aproveitar. Demasiado trabalhoso e, tecnicamente, não passa de uma bela dor de cabeça. Ah, e não vende.

Tocou o alarme, toca a escrever.

"Era uma vez um gato maltês tocava piano e falava francês."

esparrame e encante na bodega andaluza

bodega.JPG

agosto 26, 2006

Os olhos dourados de Samarcanda

Mia.JPG

Gharb

fala.JPG

agosto 21, 2006

tumor

9to5

(imagem: 9 to 5, de João Cóias)


Não olhes para mim assim.
Tenta não ocupar o meu campo de visão com essa tua gaifona de bezerro acabado de parir.
Reconheço que não é coisa assim tão complicada e que é tarefa ao teu alcance.
Mesmo tu serás capaz de a cumprir a contento.
Não, lamento, não te odeio.
Nada que merecesse sequer a pena ser escrito.
Não te coles à parede quando passo, nem me peças desculpa por a tua massa ocupar espaço. Em cada palavra, até nos bons dias. Evita, isso sim, olhar para mim.
Continuemos a respirar o mesmo ar contaminado.
A partilhar os mesmos cheiros fétidos.
Os mesmos sabores acres.
A visão das mesmas pessoas. As que eu suporto e as que tu detestas. Porque eu as suporto.
Não digas nada.
Não te atrevas a dizer nada.
Está tudo dito. E desde que a tua mísera figura se interpôs entre o destino do meu olhar.
Simplesmente estava tudo errado. Mexias-te de maneira inconveniente. Vestias-te de forma descortês. O que noutra pessoa ficaria bem, em ti é uma chapada nas trombas. Andas a querer provocar-me. Está-se mesmo a ver. Nasceste para isso.
Qualquer dia, levanto-me 5 minutos mais cedo e mato-te.
Assim eu arranje dia para ser estragado com rotinas quebradas, não é meu costume matar.
Arranco-te a vida do corpo.
E tu hás-de ser condenado por teres aparecido morto dessa forma desacostumada.
E isso dá trabalho, tenho de perder alguns minutos a pensar na coisa. Se forem 10, serão já 15 os minutos que te dedico.
E tu, perdido, está-se mesmo a ver que acabas por morrer feliz. Perceberás, no último estertor, que te dediquei 15 minutos do meu dia.
Os teus melhores, que nos outros se querem de fama.
E isso está completamente errado, meu pequeno tumor reverencial.
Há que reflectir.
Até lá, evita apenas olhar para mim.
Fecha os olhos.
Havemos de pensar em algo melhor.

agosto 17, 2006

... pelo fim.

Gurugu.JPG

Disse coisas que tinham que ser ditas, fez coisas que tinham que ser feitas.

(publicado em simultâneo no Getting Even)

agosto 07, 2006

Um pensamento para Haifa

haifa2.jpg

Haifa. Cidade da tolerância, do encontro de culturas, de religiões, de homens e de mulheres. Cidade da paz.
É este o desgosto desta guerra - Israel, Hezbollah, Hamas, Teerão e tantos outros, cegos pelo ódio.
O negócio de armas é a maior economia do mundo. Às claras e às escuras. Bate a droga e o tráfico de mulheres e de crianças. Talvez resida aí parte do problema. A água é um bem escasso - outra machadada. A perda e dor nas famílias motivo suficiente para a vingança. A manipulação das pessoas através dos grupos de pertença - outra realidade.
Haifa mostra que o mal existe. Não enquanto apenas a ausência de bem. Não. É uma entidade nosológica própria.

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