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abril 26, 2006

Neonazismo

Ouvi agora mesmo na rádio uma notícia preocupante: desde 2004 que o número de militantes neonazis aumentou em 400% em Portugal. É evidente que, se falamos de uma minúscula franja de imbecis, um aumento de 400% no seu número pode não ser assustador.
Mas, a cada dia que passa, sinto que a situação está a piorar.
O maior problema que eu aponto a estes movimentos nem sequer é a sua ideologia. Se os neonazis dos tempos de hoje exibissem a intelectualidade (pobrezita, é certo, mas mesmo assim...) de um Dietrich Eckhardt, de um Alfred Rosenberg, ou de um Karl Maria Willigut, mesmo discordando radicalmente de teorias tão abjectas, sempre existiria um mínimo patamar de literacia para se poder tolerar (apenas em nome da tolerância e da liberdade de expressão) a existência de tais pessoas.
O que mais me aflige com o neonazismo é a sua manifesta total falta de cultura e intelectualidade (apesar de alguns dos seus ardentes defensores se terem em alta estima nestas matérias, isso não muda uma vírgula à deprimente realidade)...
A notícia da rádio deixava este ponto bem explícito, ao afirmar que a principal fonte de recrutamento para estes jovens está nas claques de futebol. Será preciso dizer mais?
Hitler choraria de raiva com o Q.I. e a iliteracia dos seus actuais seguidores...

abril 17, 2006

Quo vadis Iudas?

... Perguntaria a mulher de Judas Iscariotes ao marido, antes de ele sair de casa para ir para o trabalho.
«Olha, querida, vou ali ao Templo fazer um favorzinho ao mestre!»

Esta Páscoa não fugiu à excepção.
A Comunicação Social, um pouco por todo o mundo fora, confunde o Carnaval com a Páscoa, e é vê-los a comentar, uns a seguir aos outros, tudo o que é religioso como se se tratassem de palhaçadas carnavalescas.
Foi fascinante, mas assustador em termos do poder dos media, assistir ao desfilar de notícias este fim-de-semana, desde a redescoberta do «Judas amigo» até à charada de que um cardeal teria supostamente proclamado «novos pecados». Bastaria fazer zapping, desfolhar as páginas dos jornais, e verificar que a religião estava presente um pouco por todo o lado, mas sempre com um esforço por parte de muitos jornalistas em distorcer, em deturpar, em informar mal.
Os artigos na imprensa sobre o Codex Tchacos raiaram o absurdo: o que fará um jornalista pensar que, apesar de ter a carteira profissional, está apto a comentar uma descoberta arqueológica complexa, que normalmente obriga a que se possuam conhecimentos elementares sobre gnosticismo, a corrente que é berço doutrinal do dito documento?

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abril 07, 2006

Dan Brown ganha caso em Tribunal!

Notícia de última hora:

Court rejects Da Vinci copy claim

The Da Vinci Code author Dan Brown did not breach the
copyright of an earlier book, London's High Court has
ruled.

Michael Baigent and Richard Leigh, who wrote 1982 book
The Holy Blood and the Holy Grail, sued Random House,
publisher of both books.

Mr Brown said the verdict "shows that this claim was
utterly without merit".

"I'm still astonished that these two authors chose to
file their suit at all." The ruling clears the way for
the Da Vinci Code movie to come out in May.

Fonte: BBC (7-4-2006)

Conforme se esperava, Dan Brown saiu a ganhar deste processo. De facto, era complicado encontrar base legal para plágio, mesmo sendo evidente que o autor se baseou em larga medida na obra de Lincoln, Baigent e Leigh, O Sangue de Cristo e o Santo Graal.
Divertido, foi mesmo ouvir Dan Brown, à saída, afirmar que qualquer romancista se deveria poder basear em «ensaios históricos» (sic) sem que tivesse que ver o seu nome arrastado para tribunal. Brown demonstrou grande fair play, usando um termo altamente elogioso para a obra pseudo-histórica de Lincoln e amigos, que assim poderão conseguir vender mais alguns milhares de livritos para pagar aquela que se imagina ser uma brutal conta em advogados...
Como ainda existe muita gente desorientada e crédula destas teorias pseudo-históricas, aqui deixo uma página com 25 perguntas e respectivas respostas acerca deste fenómeno mediático, cuja loucura máxima ainda está para vir, após a estreia a 19 de Maio do filme homónimo de Ron Howard:

http://bmotta.planetaclix.pt/codigodavinci.html

Extremamente útil e elucidativa é também a leitura do resumo do julgamento.
Para terminar, recomendo vivamente aos interessados que façam o download do texto completo do julgamento, onde se pode verificar com grande facilidade como a Justiça Britânica não tem dificuldade em reconhecer a fraude do Priorado de Sião como tal.
Infelizmente, há pessoas que, mesmo assim, não vão desistir das teorias que pensam que "aprenderam" com a leitura d'O Código da Vinci, de Dan Brown. Há pessoas, e muitas, para quem a atracção e a paixão puramente emotiva por uma ideia falsa vale muito mais do que a verdade histórica...

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Já vem equipado com críticas favoráveis de jornais importantes.
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março 27, 2006

Zonas de tolerância

No Público de hoje:

O prazo limite para a entrega através da Internet do modelo 3 de IRS, relativo à primeira fase (trabalhadores dependentes e pensionistas), foi prorrogado até ao dia 4 de Abril.

Antes de começar a dizer mal, faço um mea culpa: eu sou daqueles contribuintes que todos os anos entrega o IRS fora de prazo, e que todos os anos paga a tal coimazita associada.
Antes de começar a dizer mal, aproveito para elogiar as constantes melhorias no site das Declarações Electrónicas, que de ano para ano está cada vez melhor, mais profissional, mais fácil de usar e mais informativo.

Mas francamente...
Mudar outra vez o prazo?
Se calhar, estou a ser egoísta, precisamente neste ano em que, pela primeira vez, tinha isto tudo prontinho para entregar hoje. Mas acho que não! Acho que estes adiamentos sucessivos descredibilizam o Estado. Descredibilizam a seriedade da máquina fiscal, a eficiência de todo o processo. São uma falta de respeito para com aqueles contribuintes que se organizaram para entregar dentro do prazo.
A desculpa do senhor ministro, por bem intencionada que seja no seu uso, não passa disso mesmo: uma desculpa. Que interessa a greve nos CTT? Os contribuintes que, devido a essa greve, ainda não receberam a sua senha deveriam tê-la pedido com maior antecedência!
E por fim, situações como esta relembram outras patetices tão típicas do nosso pensar portuguesito medíocre, como a da ideia da "Tolerância Zero". É tão pateta impor zonas de "tolerância zero", nas quais, para variar, se vai aplicar com rigor o Código da Estrada como é pateta impor prazos para entrega do IRS que todos sabem que serão adiados todos os anos, pelo menos duas vezes...

março 23, 2006

O meu "progenitor B" é professora!

Poderá ser assim que daqui a uns anos, uma criança espanhola responderá, na escola, acerca da profissão da sua mãe. Zapatero e a sua claque estão a transformar a legislação civil espanhola num filme surrealista.
O Boletín Oficial del Estado publicou recentemente a alteração em causa: nos formulários do registo civil de nascimentos, os termos "pai" e "mãe" passarão, respectivamente, a "progenitor A" e "progenitor B". Por outro lado, nos formulários de casamentos, "marido" e "mulher" passarão a "cônjuge A" e "cônjuge B". Tudo isto para acomodar, é claro, a recente moda brokeback do Governo Espanhol.
O que é anedótico, nesta cruzada imbecil, é que da distinção "mãe" e "pai", que colocava a mulher em pé de igualdade, passa-se a mulher para segundo plano, porque esta passa a "progenitor B". Ainda mais curioso é como é que se permite o uso de uma palavra masculina! Porquê "progenitor A e B" e não "progenitora A e B"? Como se garantem assim os direitos que algumas feministas radicais reivindicam?
Espero que tudo isto não passe de um boato. Não consegui ainda ler o texto original do BOE, e por isso, ainda tenho uma secreta esperança de que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto.

março 21, 2006

Primavera jovem e socialista

Entrevista no Público ao líder da Juventude Socialista, Pedro Nuno Santos:

PÚBLICO - O que pensa do uso de embriões excedentários das técnicas de reprodução assistida para investigação científica?

PEDRO NUNO SANTOS - Sou a favor. Não há razão nenhuma para que esses embriões que são excedentários não possam ser utilizados para a investigação que terá como consequência a melhoria de vida das condições de vida das pessoas. É um recurso que considero de utilidade.

Segundo este jovem, "não há razão nenhuma" para que os ditos "embriões excententários" não sejam usados em investigação. E o que se faz com eles a seguir? Congelam-se? É o que tem sido feito durante as últimas décadas nalguns paises "avançados" onde isto já se pode fazer. Congelar os "embriões excedentários"... Um típico "lava-mãos de Pilatos", um arrumar da chatice na gaveta dos congelados...
É curioso, este fenómeno do congelar dos embriões, porque há ainda um resquício de moralidade nos técnicos que o defendem. Entendem que, de alguma forma, se está a passar para lá da fronteira do razoável, e como não querem sentir culpa ou peso na consciência, toca de congelar os "restos" em vez de os deitar fora.
O que me espanta é a total falta de coerência: se acham que os embriões excedentários são "material de investigação", porque não deitá-los fora quando deixam de servir? Afinal, nunca irão ter a hipótese de passar pela gravidez e nascimento...

Mais à frente, na entrevista a este especialista...

Concorda com o recurso a mães de aluguer? Se sim, quem deve ser considerada a mãe legal?

Bom, aí tenho dúvidas. Não consigo ter uma posição definitiva. Nomeadamente porque tenho receio que isso crie um mercado de barrigas de aluguer. Se estamos a falar de parentes próximos aí se calhar teria mais abertura, portanto, se tivermos a falar da mãe e da irmã causa menos confusão. Quanto à maternidade isso teria de ficar esclarecido desde o início, a maternidade poderia até ser partilhada, mas o que faz sentido é que seja a que dá a célula.

Se "estivermos a falar da mãe e da irmã" isso causa "menos confusão"?
Fiquei confuso...
"Maternidade partilhada"?

«És o filhote da mamã e da avó, querido... És filho da avó, mas também és neto dela!»
«És meu filho, mas também da tia, pequerrucho!»

Na minha opinião, tudo isto é sinistro. Um verdadeiro filme de terror ético e deontológico.

Em relação ao jovem Pedro Nuno Santos...
Entende-se que há que inventar, diariamente, novas formas de construir carreira política. É a lei da oferta e da procura: há muitos candidatos a políticos profissionais, mas o mercado está cheio. O que é curioso é o frequente recurso a esta técnica clássica: a técnica do "jovem rebelde", que tenta fingir novidade de pensamento onde ele está ausente, tudo através de uma arrogante e pedante postura iconoclasta e revolucionária. Também já enjoa o recurso constante ao "mito do progresso", patente em expressões como "Entendemos que não é aceitável que em pleno século XXI...". Será isto um argumento?
Ofereçam aulas de retórica e argumentação a esta gente. Seria um gesto de caridade!

Primavera "Reloaded"

Em protesto contra os excessos hormonais nos comentários ao meu post anterior sobre a Primavera, venho de novo sugerir outro Van Gogh primaveril, e lançar aqui um repto:

Longa vida às Primaveras pacíficas e sossegadas!

(Cúcio, desliga lá o auto-play dessa treta de vídeo, pá! Já te pedi! E no caminho, traz-me um Xanax®, que estou a gastar demasiado Alprazolam com esta malta...)

Primavera "Reloaded"

Em protesto contra os excessos hormonais nos comentários ao meu post anterior sobre a Primavera, venho de novo sugerir outro Van Gogh primaveril, e lançar aqui um repto:

Longa vida às Primaveras pacíficas e sossegadas!

(Cúcio, desliga lá o auto-play dessa treta de vídeo, pá! Já te pedi! E no caminho, traz-me um Xanax®, que estou a gastar demasiado Alprazolam com esta malta...)

Primavera

(Já agora, pedimos ao senhor Cúcio o favor de desligar a chinfrineira do seu post sobre fair play, que começa a espingardar imediatamente assim que se abre este blogue. Queríamos que esta casa tivesse a paz e o sossego adequados à nova estação. Obrigado!)

março 14, 2006

The greatest cover-up in History

Desculpem-me a insistência, mas este material hilariante continua a chegar à minha caixa de correio todos os dias, e a tentação é demasiado forte! Para aqueles que ainda não estão fartos, há ainda muito para rir com toda esta história.

A 28 de Março de 2006 é lançado no mercado o novo livro de Michael Baigent:

Chama-se The Jesus Papers, sub-intitulado Exposing the Greatest Cover-Up in History. O livro é apresentado assim:

What if everything you think you know about Jesus is wrong? In The Jesus Papers, Michael Baigent reveals the truth about Jesus's life and crucifixion. Despite -- or rather because of -- all the celebration and veneration that have surrounded the figure of Jesus for centuries, Baigent asserts that Jesus and the circumstances leading to his death have been heavily mythologized.

Já não sei quem é que plagia quem, porque n'O Código da Vinci, Dan Brown escreve, a certa altura:

Everything our fathers taught us about Christ is false.

Mas é ou não curioso que aquele que a comunicação social apelida de "historiador", em pleno processo de plágio contra Dan Brown, venha aproveitar a oportunidade para lançar um livro novo, e sobre Jesus Cristo? As grandes livrarias já registaram um aumento impressionante das vendas do livro do trio, O Sangue de Cristo e o Santo Graal (1982), obra que segundo os autores Baigent e Leigh, foi plagiada por Dan Brown.
Também divertida é esta entrevista recente dada por Umberto Eco à comunicação social italiana, na qual ele relembra que as verdades históricas não estão sujeitas a copyright. Diz Eco que, ironicamente, o processo que Baigent e Leigh lançaram contra Dan Brown é uma confissão de que são autores de fantasia, porque essa sim poderá não ser de domínio público. Eco termina com uma piada amarga, comparando os entusiasmados crentes d'O Código da Vinci aos eleitores de Berlusconi...

março 13, 2006

Jesus Decoded

A Conferência Episcopal Norte-Americana lançou na passada quinta-feira um site de esclarecimento sobre o Cristianismo. Chama-se "Jesus Decoded".
É uma espécie de FAQ ("Frequently Asked Questions") sobre Cristo e sobre a Igreja Católica.
Porquê?
Porque abunda, como nunca antes, um analfabetismo grave acerca deste tema, não só entre os cristãos (os crentes mais ignorantes sobre a sua própria religião à escala mundial) mas também na sociedade em geral.
É indiferente procurar culpados nos media, como por exemplo, o escritor norte-americano Dan Brown. Ele será certamente responsável pela propagação de ideias históricas erradas, mas não será nem o primeiro nem o último e está no seu direito de enganar quem estiver disposto a tal.
Contudo, não se costuma falar tanto na própria responsabilidade que todos temos em estarmos correctamente informados e esclarecidos sobre um tema. Este site é uma oportunidade. Estes esclarecimentos fazem falta a todos. Mesmo para quem não é crente, ou é crente de outra religião, é importante, em termos de cultura geral, possuir uma correcta ideia sobre a história do fundador do Cristianismo, sobre a doutrina que ele estabeleceu e sobre a história da Igreja que em torno dele nasceu.
Para os mais maldosos que afirmam que este site "Jesus Decoded" é oportunista, só tenho a dizer isto: nada como aproveitar as oportunidades quando elas se apresentam. Aproveitar as ameaças, transformando-as em oportunidades: uma táctica muito antiga e muito eficaz...

março 07, 2006

Serial Killer ou Programador?

killer.jpg

Aqui está um questionário bem divertido.
Os senhores deste questionário pertencem a uma de duas categorias. Ou são perigosos serial killers, habituados ao uso da navalha, ou são criadores de linguagens de programação, habituados à companhia de um pacífico teclado. Socialmente perturbante, este teste...
Acho que falhei quase todas as perguntas!

Serial Killer ou Programador?

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Aqui está um questionário bem divertido.
Os senhores deste questionário pertencem a uma de duas categorias. Ou são perigosos serial killers, habituados ao uso da navalha, ou são criadores de linguagens de programação, habituados à companhia de um pacífico teclado. Socialmente perturbante, este teste...
Acho que falhei quase todas as perguntas!

fevereiro 27, 2006

O clube dos tontos

Começou o processo!
Michael Baigent e Richard Leigh estão em tribunal, em Londres, acusando Dan Brown e a sua editora de plágio. Afirmam que o autor norte-americano, para a escrita do "Código Da Vinci", lhes roubou toda a estrutura teórica de um "trabalho de investigação" que tinham escrito anteriormente.

Da esquerda para a direita: Dan Brown, famoso autor do gigantesco best seller "O Código Da Vinci", Richard Leigh e Michael Baigent, dois dos autores do não tão gigantesco best-seller "O Sangue de Cristo e o Santo Graal" (Londres, 1982).
Os dois últimos, maçons defensores de uma "espiritualidade sem dogma", escreveram nos idos anos oitenta uma obra de pseudo-história nas quais defendiam teses historicamente inconsistentes. Estes autores, chamados inocentemente de "historiadores" por uma imprensa ignorante, juntamente com Henry Lincoln (ausente da acção judicial por alegadas razões de saúde), criaram nos anos oitenta uma rebuscada teia de teorias que pretendia deduzir de um hipotético casamento de Jesus com Maria Madalena uma "linhagem sagrada" de descendentes, que cruzando-se em França com a dinastia dos Merovíngios, teria sido protegida ao longo dos séculos por uma misteriosa sociedade secreta chamada "Priorado de Sião".
Baseando-se na popular mistificação de Rennes-le-Château, os três autores Lincoln, Baigent e Leigh conseguiram um formidável sucesso, divulgando em inúmeros países as histórias fantasiosas do Priorado de Sião, o fabuloso tesouro/segredo descoberto pelo padre Saunière de Rennes-le-Château, e as suas teorias muito sui generis sobre os planos deste mesmo Priorado de Sião para o domínio político à escala global com a criação de uns Estados Unidos da Europa sob a égide de um monarca merovingio descendente de Jesus Cristo!
Muitos cairam na esparrela (eu confesso que caí que nem um patinho), o livro fez sucesso nos aeroportos e nas bombas de gasolina, e a "lebre" foi lançada pelo mundo inteiro. Hoje, são às centenas as obras "filhas" do livro escrito pelo trio. Dan Brown, de forma inteligente, apercebeu-se do poder tremendo desta "lebre" pseudo-histórica, apercebendo-se também de que, no final dos anos noventa, a burla do Priorado de Sião, da autoria do francês Pierre Plantard, era ainda largamente desconhecida de um grande público de leitores ávidos por estes temas.
Se querem que vos diga, contrariamente ao que se poderia pensar, estou com Dan Brown neste caso!
Acho que Baigent e Leigh vão perder uma pipa de massa!
Mas, claro está, falta saber se a balança entre os custos judiciais destes autores e os proveitos do relançamento das vendas do seu livro irá pender para o primeiro, ou para este último lado.
Sinceramente, não vejo suporte factual para a acusação de plágio. Dan Brown retirou a esmagadora maioria das suas teses do trabalho do trio, isso é inegável. E é patético assistir ao advogado de Dan Brown, que sistematicamente o nega, dizendo que a obra do trio apenas foi consultada numa fase final da escrita do "Código Da Vinci".
Mas copiar uma tese ou uma ideia não infringe o copyright.
Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos. Se Baigent e Leigh vencessem a causa em tribunal, isso poderia comprometer seriamente a rodagem do filme de Ron Howard, agendado para estrear em Portugal ainda neste Verão...

Algumas notícias retiradas do site do jornal The Times:
Historians take Da Vinci Code publishers to court
'Da Vinci Code' Author Accused in London
Da Vinci Code case 'could prove costly' for authors
British court battle over 'The Da Vinci Code'

fevereiro 08, 2006

Quando os padres fazem campanha política...

... esquecem-se do que são e daquilo que defendem.

O cenário: Sílvio Berlusconi, em campanha pela Sicília, encontra em cima do palanque de campanha um apoiante eclesiástico, o Padre Massimiliano Pusceddu, de San Lucifero di Vallermosa. Este último, publicamente, pronuncia o seu apoio político ao «cavaliere». Sigamos a notícia do Il Giornale (o sublinhado é meu):

«Lei è l'unico che ha difeso i valori della famiglia in Italia, il mio movimento l'appoggerà in tutto e per tutto in questa campagna elettorale perché se vince la sinistra sarà la fine morale per questo Paese: matrimoni omosessuali, eutanasia, Far West bioetico. Mi permetta di darle la mia benedizione». Il parroco ha appena finito il suo discorso che Berlusconi ribatte, sfoderando uno dei suoi sorrisi: «Caro don Massimiliano, la ringrazio molto, cercherò di essere all'altezza, e le prometto sin d'ora due mesi e mezzo di astinenza sessuale assoluta, fino al 9 aprile».

Entusiasmado pela euforia demagógica, Berlusconi devolve-lhe a mesma confiança com uma promessa de abstinência sexual até às eleições de 9 de Abril. À parte do ridículo da promessa de abstinência sexual (Berlusconi é um dos magos do ridículo contemporâneo), o que está aqui em jogo é algo de particularmente grave para um católico que se preze e que tenha olhos para ver.
O senhor Padre Massimiliano Pusceddu joga um jogo perigoso, desvirtuando o que é o ofício de um sacerdote. Entrando nas jogadas políticas de Berlusconi, este sacerdote faz aquela que tem sido a grande asneira de tantos e tantos representantes da Igreja Católica ao longo da sua extensa história: escolher "o mal menor". Berlusconi é preferível aos comunistas e ao lobby gay? Será mesmo, senhor Padre Pusceddu, aos olhos da doutrina que o senhor representa, será que ele é mesmo um mal menor?
É curioso que este inflamado sacerdote, zelador da ortodoxia e rigor doutrinal das suas palavras e acções pastorais, se esquece que apoia o mesmo Berlusconi cujo governo proclamou recentemente uma alteração legal que permite o homicídio de outrém, numa espantosa e inaceitável interpretação distorcida da figura da legítima defesa. Este sacerdote está a apoiar um político que, armado em primário cowboy, e fingindo agora um puritanismo casto, faz aprovar uma lei cuja interpretação "abrangente" de legítima defesa, está em total contradição com o Magistério da Igreja, nomeadamente contra o Vaticano II, e mais recentemente, encíclicas como a Evangelium Vitae, do Papa João Paulo II (ver ponto 55, sobre a legítima defesa).

Como é, senhor Padre Massimiliano Pusceddu?
Berlusconi é apoiável quando combate os gays e os comunistas, independentemente do seu governo tomar decisões insensatas relativas ao porte e uso de armas, que deveriam deixar indignada a sua consciência cristã de sacerdote?

Não quero ser mal interpretado: todo e qualquer cristão tem o direito e o dever de intervir na res publica, sempre que considera que estão em jogo valores que ele considera fundamentais. É uma liberdade que lhe assiste, a si e a qualquer cidadão, independentemente de confissão religiosa ou ausência dela. Outra coisa totalmente diferente é assistirmos a situações deploráveis de sacerdotes que, consciente ou inconscientemente, subordinam a obediência ao magistério da Igreja às motivações e ambições dos políticos.

Surreal real?

And they call it Puppy Love

Philip Buble is just one of many zoophiles who think that they should be able to marry their four-legged loved ones. The argument that they raise to support their position is that since the definition of marriage is no longer restricted to a union between a man and a woman, it need not be restricted to persons. People like Buble should not have to endure discrimination and a loss of self esteem due to their sexual orientation and lifestyle choices.

fevereiro 07, 2006

Para saber mais sobre o Islão... e não só!

É imperdível e imprescindível a trilogia de Pinharanda Gomes sobre a Filosofia Portuguesa, editada pela Guimarães:

Destinada a obter um panorama lógico e temporal das três tradições fundamentais da cultura portuguesa, o primeiro volume abrange a Filosofia Hebraico-Portuguesa, nas suas constantes e variantes desde a medievalidades à época contemporânea. O segundo volume, A Patrologia Lusitana, isola o pensamento patrístico entre os séculos III e X, abrindo uma linha que continua com o terceiro volume dedicado à Filosofia Arábigo-Portuguesa, numa abrangência temporal e numa universalidade de perspectiva que integra os fenómenos do pensamento islâmico e outros países de língua portuguesa. Inclui, em cada volume, extensa bibliografia.

Islão e confusão

maome.jpg

Um cartoon.
Tomei este como exemplo, mas o que vou escrever poderia ser escrito com base noutro qualquer dos cartoons da discórdia. Este é o poder da imagem, em muitos casos superior ao da palavra. Peço a quem me lê que tente seguir o meu raciocínio, que tentei que fosse imparcial e equilibrado.
Eu vejo neste cartoon, pelo menos, e sublinho pelo menos, duas interpretações diametralmente opostas:

Interpretação A
O Islão é terrorista desde a sua génese, que está em Maomé, o terrorista por excelência. O Islão é uma religião de terror, este último materializado na bomba que jaz sob o turbante do Profeta.

Interpretação B
O Islão está, nos tempos de hoje, subjugado a uma ditadura ideológica de terror. A mensagem do Profeta é constantemente transformada em ideologia de ódio por fanáticos que visam uma guerra cultural em grande escala com o Ocidente "infiel".

Escolhi estas duas interpretações para tentar, exactamente, extremar duas vistas opostas do mesmo cartoon. Penso ser difícil discordar que este desenho permite as duas leituras.
Peguemos na primeira interpretação. É uma interpretação radicalmente xenófoba, no ódio que exala face ao Islão, numa visão totalmente redutora (se bem que sedutoramente popular para a mentalidade dos nossos tempos) de um fenómeno cultural, religioso, tradicional e politicamente complexo e heterogéneo. Aos olhos da legislação actualmente em vigor na maioria dos países ocidentais, uma visão xenófoba como esta poderia ser facilmente condenável ou, pelo menos, censurável.
Peguemos agora na segunda interpretação: sendo uma crítica a um tipo de terrorismo moderno, a crítica seria inatacável, pela sua característica de livre denúncia de abusos terroristas. Nenhum tribunal ocidental poderia, alguma vez, ver esta denúncia do terrorismo fanático como algo de xenófobo.

Temos visto nos últimos dias um assumir de posições em ambos os lados da barricada, precisamente pelo facto de que o cartoon, este e os restantes, se prestam a leituras duais e diametralmente opostas.
Eis o que penso, em suma...
Liberdade de expressão?
Sim, sem dúvida.
Liberdade ilimitada de expressão?
Evidentemente que não!
Toda e qualquer liberdade, assim como todo e qualquer direito, pressupõe o respeito pelas demais liberdades e direitos. O limite de uma liberdade, ou direito, encontra-se exactamente no ponto em que se cruza com outra liberdade ou direito. Não há direitos absolutos nem liberdades absolutas. Isso seria um contrasenso. Há apenas direitos e liberdades relativas.
Onde está a irresponsabilidade dos autores destes cartoons?
Está, precisamente, no uso irresponsável de uma ferramenta poderosa: a do desenho. O cartoon que escolhi ilustra bem o poder deste meio de comunicação para a ambivalência!
E a ambivalência, no actual contexto de política externa, é desastrosa. O cartoonista responsável deveria ter zelado para que o seu desenho fornecesse ao leitor todas as pistas necessárias para a descodificação da sua intenção. De pouco vale que tantos afirmem que o desenho apenas veicula a segunda interpretação que indiquei. O problema é que o desenho permite as duas interpretações. É aqui que reside a necessidade da responsabilidade. Todos os direitos trazem com eles, necessariamente, a responsabilidade.
Claro está que é impossível concordar com as manifestações de violência a que todos temos assistido. Contudo, é de evitar o uso de argumentação falaciosa e sentimentalista, que visa transformar o ponto de vista que defendo num ponto de vista desculpabilizante da violência. A violência que vimos não tem desculpa. Também ela é resultado da instrumentalização de uma grande parte das massas muçulmanas por fanáticos desonestos. Quantos dos vândalos que a televisão exibiu terão, sequer, visto os cartoons com olhos de ver?
Devolvo a pergunta para o lado de cá dos fazedores de opinião: quantos terão, sequer, visto o Islão com olhos de ver?
Infelizmente, muito poucos...

Sobre o debate de ontem na RTP...

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fevereiro 02, 2006

Jerusalém Celeste

nemsolnemlua.jpg

Nem o Sol, nem a Lua, nem o fogo
dão luz a tal lugar, de onde não voltam mais
aqueles que para lá partiram para sempre
e que é a Minha suprema residência.

- Vyassa, Bhagavad-Guitá, XV, 6

E a cidade não necessita de Sol nem de Lua para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada.
- Apocalipse segundo São João, 21, 23

Jerusalém Celeste

nemsolnemlua.jpg

Nem o Sol, nem a Lua, nem o fogo
dão luz a tal lugar, de onde não voltam mais
aqueles que para lá partiram para sempre
e que é a Minha suprema residência.

- Vyassa, Bhagavad-Guitá, XV, 6

E a cidade não necessita de Sol nem de Lua para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada.
- Apocalipse segundo São João, 21, 23

fevereiro 01, 2006

A união de facto, pelos vistos, não chega...

Contactada pelo PÚBLICO, a presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres elogiou a iniciativa de Teresa e Lena. "A mudança pode começar por qualquer lado. É preciso abalar os valores instituídos", afirmou Elza Pais. A presidente daquele organismo governamental, sob a tutela da Presidência do Conselho de Ministros, disse ainda que o caso de Teresa e Lena é "absolutamente importante", para "verter para a agenda política" a discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
, in Público (meu negrito).

No fundo, a criação do conceito de união de facto não foi um fim em si mesmo, como agora ressalta à vista. O objectivo nunca foi esse, mas sim "abalar os valores instituídos", como afirma, pelo menos honestamente e com toda a frontalidade, Elza Pais. Poder-se-ia discutir a abrangência dos direitos das uniões de facto. Poder-se-ia propor uma extensão a esses direitos. Tudo isso poderia ser proposto e discutido.
Mas o que interessa, o que verdadeiramente está em marcha, é "abalar os valores instituídos". Nada mais entusiasmante e revigorante, para estes novos "combatentes da mudança", do que assestar canhões contra o casamento, esse último resquício de tradição na nossa sociedade em acelerada mutação. O processo é imparável. Para quem pensaria, por um instante, que eu sou conspiracionista, desenganem-se: o processo está à deriva, e ninguém o governa. Estes "combatentes da mudança" não são peões subordinados a uma qualquer conspiração contra os valores tradicionais da sociedade! Não sou partidário de delírios conspiracionistas. O que assistimos é uma reacção, talvez pavloviana, de variados agentes sociais e pessoas individuais, a uma mesma tendência niilista, de auto-destruição lenta e progressiva do tecido social. Ninguém vai no leme destas revoluções sociais!
Tristes tempos, estes...
(agora, vou ficar aqui quietinho à espera dos insultos da praxe)

A união de facto, pelos vistos, não chega...

Contactada pelo PÚBLICO, a presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres elogiou a iniciativa de Teresa e Lena. "A mudança pode começar por qualquer lado. É preciso abalar os valores instituídos", afirmou Elza Pais. A presidente daquele organismo governamental, sob a tutela da Presidência do Conselho de Ministros, disse ainda que o caso de Teresa e Lena é "absolutamente importante", para "verter para a agenda política" a discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
, in Público (meu negrito).

No fundo, a criação do conceito de união de facto não foi um fim em si mesmo, como agora ressalta à vista. O objectivo nunca foi esse, mas sim "abalar os valores instituídos", como afirma, pelo menos honestamente e com toda a frontalidade, Elza Pais. Poder-se-ia discutir a abrangência dos direitos das uniões de facto. Poder-se-ia propor uma extensão a esses direitos. Tudo isso poderia ser proposto e discutido.
Mas o que interessa, o que verdadeiramente está em marcha, é "abalar os valores instituídos". Nada mais entusiasmante e revigorante, para estes novos "combatentes da mudança", do que assestar canhões contra o casamento, esse último resquício de tradição na nossa sociedade em acelerada mutação. O processo é imparável. Para quem pensaria, por um instante, que eu sou conspiracionista, desenganem-se: o processo está à deriva, e ninguém o governa. Estes "combatentes da mudança" não são peões subordinados a uma qualquer conspiração contra os valores tradicionais da sociedade! Não sou partidário de delírios conspiracionistas. O que assistimos é uma reacção, talvez pavloviana, de variados agentes sociais e pessoas individuais, a uma mesma tendência niilista, de auto-destruição lenta e progressiva do tecido social. Ninguém vai no leme destas revoluções sociais!
Tristes tempos, estes...
(agora, vou ficar aqui quietinho à espera dos insultos da praxe)

janeiro 25, 2006

Às armas...

O Governo de Berlusconi voltou a primar pela falta de bom senso.
Diz o La Repubblica:

La riforma varata autorizza l'uso di armi per difendere la vita e la "borsa". Nell'ipotesi di violazione di domicilio, infatti, non sarà più punibile chi spara contro il malvivente o lo colpisce con un coltello per difendere la propria o altrui incolumità. E non sarà più punibile nemmeno se gli spara per difendere i (propri o altrui) beni, a due condizioni però: che vi sia "pericolo d'aggressione" e che non vi sia "desistenza" da parte dell'intruso. Ossia che di fronte all'intimazione del proprietario di casa, ad esempio, invece di scappare reagisca minaccioso.

Nestes tempos de decadência civilizacional (que tantos negam), fala-se muito em crise de valores, ou crise ética. Mas, se procurarmos a razão de ser desta crise, chegamos sempre ao mesmo: crise intelectual. Ou seja, uma crise no intelecto, uma falta de capacidade para pensar com clareza.
Este apelo às armas por parte do Governo italiano é uma clara tentativa de fazer passar uma ideia falsa: a ideia de que é lícito matar alguém em «legítima defesa». Tout court.
Ora isto é manifestamente falso, por excesso de abrangência.
O que é lícito é matar alguém em legítima defesa da sua própria vida ou da vida daqueles a nosso cuidado.
Por outras palavras, há que procurar, tanto quanto possível, um sensato equilíbrio entre a ameaça e a resposta a ela.
Isto é pensar com clareza, algo que o Governo de Berlusconi (mas tantos, tantos outros nos nossos dias) se mostra agora incapaz de fazer.
Só é legítimo ferir alguém de morte se esse alguém atenta contra a nossa vida, ou contra a vida daqueles que temos o dever de proteger. É esta falta de equilíbrio generalizada, que constatamos na nossa sociedade moderna um pouco por toda a a parte, e em tantos temas, que é sintoma de uma depreciação no pensar moderno.
A sociedade moderna oferece-nos duas posições irredutíveis:
- o «pacifista», palavra que se desvirtuou por uso excessivo, é aquele que é totalmente contra a defesa usando armas, ou seja, é aquele que não vê com legitimidade atentar contra a vida de outrém, mesmo que esse outrém atente contra a nossa ou contra a daqueles que temos o dever de proteger; nesta posição, o desequilíbrio resulta de uma irresponsabilidade, de uma inacção indesculpável, em desprezo pelo valor da vida humana, sobretudo se estiver em jogo a vida de pessoas que temos o dever de proteger
- o «belicista» é aquele que defende o porte de arma como afirmação gratuita de poder per se; o desequilíbrio está no facto de que usa reacções desmesuradas para a ameaça em causa; a irresponsabilidade, também neste caso, curiosamente, está no pouco valor que se dá à vida humana.

Onde está o bom senso para escolher uma via intermédia e equilibrada?
Perde-se na voragem do tempo, numa civilização em processo acelerado de autofagia...

janeiro 17, 2006

17 de Janeiro

É incrível como uma data tão esotérica e misteriosa quase que passava despercebida!
Ó Gibel, ias deixar passar esta, tu que és o esoterista de serviço aqui do burgo?
O senhor na foto, com um ar frio e distante (culpa do mármore), foi papa. Gregório XIII. O da reforma do calendário.
Aqui fica uma curiosidadezinha sobre o dia de hoje...
Em 1582, o Papa Gregório efectuou uma importante reforma no calendário. O calendário juliano, então em vigor, foi substituido pelo calendário que adoptou o nome de Gregório: o dia que se seguiu a 4 de Outubro de 1582 foi o dia 15 de Outubro. Como consequência, o feriado religoso da Epifania, celebrado a 6 de Janeiro, a partir do ano de 1583 passaria a estar “oculto” na nova data gregoriana de… 17 de Janeiro!
A partir de 1583, a data de 17 de Janeiro representa, de facto, a data juliana da Epifania, sendo portanto uma espécie de “epifania oculta”. Encontramos os primeiros sinais do uso desta data no tempo do Rei-Sol, por altura do rejuvenescimento do culto a Santa Rosalina, altura em que se teria fixado o dia 17 de Janeiro como a data lendária da sua morte.
Algo de muito mais moderno é o uso desta data por certas correntes esotéricas, o que só sucede no século XIX. Um dos traços mais antigos deste uso esotérico encontra-se numa obra de Victor Hugo (1802-1885), Notre Dame de Paris, escrita em 1831. A obra Notre Dame de Paris está repleta de simbolismo maçónico, hermético e alquímico. O romance principia a 6 de Janeiro de 1482, ou seja, o dia da Epifania. Contudo, no tempo de Hugo, devido à alteração do calendário, esse dia corresponderia a um 17 de Janeiro. Por outro lado, uma certa tradição alquímica, na sua devoção ao alquimista Nicolas Flamel (1330-1418), descreve que foi a 17 de Janeiro de 1382 que Flamel obteve a Pedra Filosofal, ou seja, completou a Magnum Opus, a “Grande Obra”. Num certo sentido, esta data surgiria como a da “manifestação” do lápis-pedra a Flamel, ou seja, como uma “epifania alquímica”. Como vemos, Hugo coloca o início do enredo da sua obra sobre a catedral parisiense exactamente 100 anos depois desta data simbólica. Será propositado?
Não faço ideia, mas aqui fica a efeméride!
O aproveitamento que se faz desta data, nos tempos de hoje, por toda a corja de charlatães é enorme. Contudo, na origem, está apenas um jogo simbólico de datas. Um bom exemplo de aproveitamento encontra-se nas lendas de Rennes-le-Château. Quem conhece os mistérios de Rennes-le-Château sabe bem que hoje é dia de festa na aldeia, com almoços, debates, excursões, máquinas fotográficas digitais e todo o circo esotérico do costume.

Fonte:
http://www.renneslechateau.it/rennes.php?id=2&url=studi_iann02.php

Schrödinger

This life of yours which you are living is not merely a piece of this entire existence, but in a certain sense the "whole"; only this whole is not so constituted that it can be surveyed in one single glance. This, as we know, is what the Brahmins express in that sacred, mystic formula which is yet really so simple and so clear: tat tvam asi, this is you. Or, again, in such words as "I am in the east and the west, I am above and below, I am this entire world."

Esta frase foi escrita em 1925 por Erwin Schrödinger (1887-1961), eminente físico austríaco, e um dos propulsores da revolução teórica causada na física moderna pela mecânica quântica. Um seu biógrafo, Walter Moore, falaria deste modo sobre a importância do Vedanta hindu no pensamento do físico vienense:

The unity and continuity of Vedanta are reflected in the unity and continuity of wave mechanics. In 1925, the world view of physics was a model of a great machine composed of separable interacting material particles. During the next few years, Schrodinger and Heisenberg and their followers created a universe based on superimposed inseparable waves of probability amplitudes. This new view would be entirely consistent with the Vedantic concept of All in One.

Independentemente do rigor com o qual Schrödinger interpretaria o Vedanta (é facto certo que o físico leu repetida e profundamente, ao longo da sua vida, os textos sagrados do hinduísmo), e independentemente do facto de que a física moderna é um domínio totalmente diferente e inferior (como o indica a própria etimologia) ao domínio da Metafísica, que é o domínio do Vedanta, é de pasmar a genuína abertura de espírito demonstrada por Schrödinger na busca pela essência das coisas. Schrödinger não cometeria, certamente, a veleidade de supor uma equivalência entre a doutrina vedantina, conforme exposta por Çankara, e a sua mecânica quântica. O físico saberia certamente trabalhar por analogias: saberia distinguir o que é análogo do que é idêntico. O facto de Schrödinger ter sido um dos poucos físicos da modernidade a dar-se conta da possibilidade de raciocinar e teorizar sobre realidades que escapam à demonstração empírica, e porque Schrödinger estava aberto ao imenso poder do pensar analógico, faz dele uma das grandes figuras da intelectualidade moderna.

Fontes:
http://www.photonics.cusat.edu/article2.html
http://nobelprize.org/physics/laureates/1933/schrodinger-bio.html
http://www.atributetohinduism.com/articles_hinduism/96.htm

Schrödinger

This life of yours which you are living is not merely a piece of this entire existence, but in a certain sense the "whole"; only this whole is not so constituted that it can be surveyed in one single glance. This, as we know, is what the Brahmins express in that sacred, mystic formula which is yet really so simple and so clear: tat tvam asi, this is you. Or, again, in such words as "I am in the east and the west, I am above and below, I am this entire world."

Esta frase foi escrita em 1925 por Erwin Schrödinger (1887-1961), eminente físico austríaco, e um dos propulsores da revolução teórica causada na física moderna pela mecânica quântica. Um seu biógrafo, Walter Moore, falaria deste modo sobre a importância do Vedanta hindu no pensamento do físico vienense:

The unity and continuity of Vedanta are reflected in the unity and continuity of wave mechanics. In 1925, the world view of physics was a model of a great machine composed of separable interacting material particles. During the next few years, Schrodinger and Heisenberg and their followers created a universe based on superimposed inseparable waves of probability amplitudes. This new view would be entirely consistent with the Vedantic concept of All in One.

Independentemente do rigor com o qual Schrödinger interpretaria o Vedanta (é facto certo que o físico leu repetida e profundamente, ao longo da sua vida, os textos sagrados do hinduísmo), e independentemente do facto de que a física moderna é um domínio totalmente diferente e inferior (como o indica a própria etimologia) ao domínio da Metafísica, que é o domínio do Vedanta, é de pasmar a genuína abertura de espírito demonstrada por Schrödinger na busca pela essência das coisas. Schrödinger não cometeria, certamente, a veleidade de supor uma equivalência entre a doutrina vedantina, conforme exposta por Çankara, e a sua mecânica quântica. O físico saberia certamente trabalhar por analogias: saberia distinguir o que é análogo do que é idêntico. O facto de Schrödinger ter sido um dos poucos físicos da modernidade a dar-se conta da possibilidade de raciocinar e teorizar sobre realidades que escapam à demonstração empírica, e porque Schrödinger estava aberto ao imenso poder do pensar analógico, faz dele uma das grandes figuras da intelectualidade moderna.

Fontes:
http://www.photonics.cusat.edu/article2.html
http://nobelprize.org/physics/laureates/1933/schrodinger-bio.html
http://www.atributetohinduism.com/articles_hinduism/96.htm

janeiro 12, 2006

Sonhar...

dream.jpg
(ilustração de joão cóias)

«A primeira condição é Vaishwânara, cuja morada está no estado de vigília (jâgarita-sthâna), que tem o conhecimento dos objectos externos (sensíveis), que tem sete membros e dezanove bocas, e cujo domínio é o mundo da manifestação grosseira» (1)
«A segunda condição é Taijasa (o «Luminoso», nome derivado de Têjas, que é a designação do elemento ígneo), cuja morada está no estado de sonho (swapna-sthâna), que tem o conhecimento dos objectos internos (mentais), que tem sete membros e dezanove bocas, e cujo domínio é o mundo da manifestação subtil» (2)
«Quando o ser que dorme não sente nenhum desejo e não está sujeito a nenhum sonho, o seu estado é o do sono profundo (sushupta-sthânâ); o que neste estado se tornou um, que se identificou com um conjunto sintético de Conhecimento integral (Prajnâna-ghana), que está cheio da Beatitude (ânandamaya), que goza verdadeiramente desta Beatitude, e cuja boca é unicamente a Consciência total (Chit), esse chama-se Prâjna: esta é a terceira condição» (3)

Diz o poeta que o sonho comanda a vida...
Verdade proclamada por todas as sabedorias humanas desde tempos imemoriais. Estes excertos do Mândûkya Upanishad mostram bem como as doutrinas hindus ensinam que o estado de sonho é superior ao estado de vigília (do mesmo modo que o estado de sono profundo é superior ao estado de sonho). Aquilo que os hindus chamam de "estado subtil" faz parte de nós. Faz parte da nossa existência humana, sendo composto por elementos subtis, não palpáveis nem visíveis, um pouco à semelhança do conceito ocidental de "alma".
Muitas das grandes revelações divinas surgem aos profetas durante os sonhos. Podem ser encontrados inúmeros exemplos na Bíblia, bem como no Corão. É, no mínimo, curioso que enquanto o mundo moderno e materialista menospreza o sonho, este seja elevado a uma categoria superior por todas as doutrinas tradicionais. É grande, o contraste, entre o paternalismo com que se fala, hoje em dia, dos sonhos (como algo irreal e fútil), e a sabedoria dos ensinamentos tradicionais sobre esse estado que eles consideram maior, e mais perto do real (porque mais perto do seu conhecimento), do que o estado de vigília.

(1) Mândûkya Upanishad, shruti 3, Cfr. René Guénon, L'Homme et Son Devenir selon le Vêdânta (1925).
(2) Ibidem, shruti 4, Cfr. René Guénon, op. cit.
(3) Ibidem, shruti 5, Cfr. René Guénon, op. cit.

janeiro 11, 2006

Sem stress...

veneza.jpg

Não...
Nem uma ponta de stress nesta foto...
E o tempo, lá para estas bandas, passará certamente a menos de metade da velocidade normal...
A propósito, já repararam que agora uso muito mais reticências?...
Um hábito saudável que ganhei neste blogue...
Espero ganhar outros...

janeiro 09, 2006

Tempo

Seguramente, já todos nos sentimos assim:

Ticking away the moments
that make up a dull day
You fritter and waste the hours
in an offhand way.

O tempo não pára. E há dias em que sentimos a suprema inutilidade do tempo desperdiçado.
Depois, há outros dias assim:

Tired of lying in the sunshine staying
home to watch the rain.
You are young and life is long and
there is time to kill today.

Porque é que não são todos assim, os nossos dias?
Afinal, porque é que não havemos de desafiar o tempo, queimar horas, ver até onde ele nos leva?
O que é que nos assusta? Perder oportunidades?

And then one day you find
ten years have got behind you.
No one told you when to run,
you missed the starting gun.

O "De Vagares" é uma oportunidade. Que não quisemos perder.
Uma oportunidade para gastar o tempo, aproveitando-o. Vamos queimar horas, deixar os ponteiros do relógio voarem como as pás de uma batedeira. Mas iremos fazê-lo conscientemente.
Nos tempos do Afixe, acontecia por vezes isto:

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come
up behind you again.
The sun is the same in a relative way,
but you're older,
Shorter of breath and one day
closer to death.

Um dia sem posts? Suprema heresia!
Havia sempre que escrever alguma coisa, a correr, num instante, antes que a notícia deixasse de ser actual. O Afixe tinha um tique-taque ensurdecedor. E nós íamos a correr atrás do Afixe. Bloggers com a corda ao pescoço? Trabalho gratuito com pressões temporais? Vivíamos obcecados com o ruído ensurdecedor do tempo a passar, no Afixe. E lá, o tempo passava mesmo depressa... Dez por cento de trezentos mil quilómetros por segundo? Vinte por cento de trezentos mil quilómetros por segundo?
Quem sabe!

Every year is getting shorter
never seem to find the time.

Uma grande verdade, a desta música. O tempo escasseia.
Falta-nos. Por isso, decidimos fazer alguma coisa!
O "De Vagares" funciona a um ritmo alterado. Um ritmo baixo.
Eis o que este blogue vai ser para nós:

Home, home again.
I like to be here when I can.
When I come home cold and tired
It's good to warm
my bones beside the fire.

Já sinto que gosto deste espaço.
Espero que suceda o mesmo com quem por cá passar!
FIM DE POSTA

P.S.: Para aqueles que já se interrogavam com este final abrupto, aqui fica uma justa explicação: a minha consciência católica não me deixou incluir esta estrofe no texto principal, mas aqui fica, para os hereges! ;)

Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly
spoken magic spells.

Tempo

Seguramente, já todos nos sentimos assim:

Ticking away the moments
that make up a dull day
You fritter and waste the hours
in an offhand way.

O tempo não pára. E há dias em que sentimos a suprema inutilidade do tempo desperdiçado.
Depois, há outros dias assim:

Tired of lying in the sunshine staying
home to watch the rain.
You are young and life is long and
there is time to kill today.

Porque é que não são todos assim, os nossos dias?
Afinal, porque é que não havemos de desafiar o tempo, queimar horas, ver até onde ele nos leva?
O que é que nos assusta? Perder oportunidades?

And then one day you find
ten years have got behind you.
No one told you when to run,
you missed the starting gun.

O "De Vagares" é uma oportunidade. Que não quisemos perder.
Uma oportunidade para gastar o tempo, aproveitando-o. Vamos queimar horas, deixar os ponteiros do relógio voarem como as pás de uma batedeira. Mas iremos fazê-lo conscientemente.
Nos tempos do Afixe, acontecia por vezes isto:

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come
up behind you again.
The sun is the same in a relative way,
but you're older,
Shorter of breath and one day
closer to death.

Um dia sem posts? Suprema heresia!
Havia sempre que escrever alguma coisa, a correr, num instante, antes que a notícia deixasse de ser actual. O Afixe tinha um tique-taque ensurdecedor. E nós íamos a correr atrás do Afixe. Bloggers com a corda ao pescoço? Trabalho gratuito com pressões temporais? Vivíamos obcecados com o ruído ensurdecedor do tempo a passar, no Afixe. E lá, o tempo passava mesmo depressa... Dez por cento de trezentos mil quilómetros por segundo? Vinte por cento de trezentos mil quilómetros por segundo?
Quem sabe!

Every year is getting shorter
never seem to find the time.

Uma grande verdade, a desta música. O tempo escasseia.
Falta-nos. Por isso, decidimos fazer alguma coisa!
O "De Vagares" funciona a um ritmo alterado. Um ritmo baixo.
Eis o que este blogue vai ser para nós:

Home, home again.
I like to be here when I can.
When I come home cold and tired
It's good to warm
my bones beside the fire.

Já sinto que gosto deste espaço.
Espero que suceda o mesmo com quem por cá passar!
FIM DE POSTA

P.S.: Para aqueles que já se interrogavam com este final abrupto, aqui fica uma justa explicação: a minha consciência católica não me deixou incluir esta estrofe no texto principal, mas aqui fica, para os hereges! ;)

Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly
spoken magic spells.

online