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fevereiro 02, 2006

Deixai casar as raparigas em paz, pá!

Como muito bem diz a Susana, em comentário mais abaixo, 'para que querem elas casar? Nem sabem no que se vão meter', mas isso já sou eu a pensar. Como dizia uma amiga jurista, há uns anos, eu jamais em tempo algum assinarei um contrato a comprometer-me a cumprir amor e fidelidade e deveres conjugais, isso é cá comigo e não concebo isso em termos contratuais. (Uns anos mais tarde, casou-se, portanto depreendo que, ou mudou de opinião, ou casou-se a mulher, mantendo-se solteira a jurista, sendo que uma e outra são a mesma pessoa, mas não deve haver nada na Constituição que proíba as pessoas de pensarem uma coisa e fazerem outra, senão íamos todos dentro.)

Eu vou lendo argumentos a favor e contra, já não são de hoje, esta porra é como a lei do aborto: ninguém quer saber ou toda a gente tem uma opinião mas alterar o que está estabelecido, tá quéto. Ninguém os faz, ninguém os faz, mas o que é certo é que aparecem feitos, como os outros. O que a mim me parece (neste caso do casamento, matrimónio ou seja o que lhe quiserem chamar, entre homossexuais e não no caso do aborto em que outros valores se levantam) é que cada um deveria poder fazer aquilo que achasse melhor e ninguém tem nada com isso. Se há homossexuais conservadores que querem legitimar as suas relações através de contrato, pois muito bem, que lhes seja permitido fazer, porque não? Se puderem casar talvez passem a sentir-se menos ostracizados pela sociedade. Também há heterossexuais radicais que jamais em tempo algum nem mortos se apanhariam a assinar uma porra de um papel que só lhes daria dores de cabeça quando a coisa desse para o torto e já sem papel é o diabo e mais três tostões de maçadas.

Só para debitar algumas das minhas opiniões sobre a discussão: o argumento do casamento e da procriação, francamente, rapaziada, não estava na altura de repensar a coisa: então e quem não quer ou não pode ter filhos, não casa? Lá vem mais um papelinho com selo branco atestando que ambos os nubentes estão de saúde, são férteis e estão dispostos a colocar no mundo mais uns tantos potenciais contribuintes e tal. Isso é demagogia pura. O casamento ou o matrimónio (pelos vistos já vi que há diferenças mas este a que me refiro) é um contrato. Dá direitos e deveres e coisas práticas como acesso a heranças se assim for estabelecido e adopção de filhos, pois claro. Embora no caso de casamento entre lésbicas não se veja que haja algum problema, sendo as senhoras férteis e tendo vontade de terem os seus próprios filhos, como aliás creio que é o caso das duas senhoras que quiseram casar uma com a outra ontem.

Mas no fundo, no fundo, a questão é a seguinte: toda a gente tem que se imiscuir na vida dos outros. É da praxe tuga e muita gente acha que o que pensa é que está certo e não quer que o que está estabelecido seja alterado, por uma questão moral Ok, aceito. Mas então não me venham com argumentos que até parecem xptos: digam assim, a gente não quer que eles se casem porque achamos mal. Assuma-se a porra do trauma em relação aos homossexuais que assumiram a posição deles. Se há tomates para assumir que se ama e se quer partilhar a vida com uma pessoa do mesmo sexo, os heterossexuais que assumam que não aceitam porque lhes parece MAL. Não é preciso aceitar isso para o público: não. Privadamente, cada um com a sua consciência. Pensar, sou assim, e depois pensar porque é que sou assim, porque é que penso assim e depois dar o passo seguinte: ok, sou assim mas não sou eu quem vai casar. São outras pessoas. Que raio tenho eu a ver com isso? Com o amor entre outras pessoas? Nada, não é? Então deixai-as casar, caneco.
Só aceitando para nós mesmos os nossos preconceitos é que conseguimos avançar para algum lado.

Eu, como já disse no princípio do texto: a mim tanto me faz. Não é um contrato que me altera a vontade de partilhar a vida com alguém. Não é um contrato que me obriga ou deixa de obrigar a todas as coisas ímplicitas e explícitas naquilo que diz a lei. Mas isso sou eu, radical e anarca em relação a certas instituições. Agora os outros, façam como melhor entenderem. Não tenho nada com isso e nem me sinto no direito de achar que tenho alguma coisa a estabelecer quanto à forma como as outras pessoas querem viver os amores delas.

janeiro 30, 2006

A Escarreta (post escatológico, não ler *)

(* é um dos avisos que mais clientela traz, mas não se podem queixar que vão ao engano)

O casal terá, em conjunto, para cima de cento e oitenta anos. Atravessam o jardim em câmara lenta, ele muito direito, ela curvada em duas, apoiada nele. Chegaram àquela idade em que até a parte capilar se inverteu: ela tem três ou quatro cabelos brancos que, por magia, conseguem parecer dez ou vinte, atravessados de lá para cá pela cabeça fora. Ele é dono de uma cabeleira que faria inveja a muito rapaz de quarenta, um bigode retocido e um chapéu.
Todos os dias, ao fim da tarde, vestidos de roupa a condizer com a hora, vão lanchar à pastelaria que fica do outro lado do jardim. Imagina-se que saem de casa às cinco e percorrem os duzentos metros que ficam entre as duas portas. Às seis, já sentados, pedem duas meias de leite e duas torradas.

À entrada da pastelaria está um coiso de metal para guardar os guarda-chuvas.
Nessa tarde não chove. O coiso está vazio.

Dentro da pastelaria, estão já sentados uma rapariga loira e uma criança de cinco anos, com uma bica e um ovo kinder à frente. A rapariga levanta-se para ir buscar um copo de água no exacto momento em que o casal entra. Um ruído de garganta fá-la voltar-se para a porta. A senhora já avançou para uma mesa vaga, mas ele, o dono do chapéu, está a tentar arrancar qualquer coisa do fundo dos pulmões, apenas com recurso aos músculos do pescoço. A rapariga fica a olhar durante os segundos que esse processo demora. Finalmente o homem consegue livrar-se do alien que lhe entope a glote e, julgando-se ainda noutros tempos, vá de cuspir o bicho para dentro do coiso dos guarda-chuvas.

Erra a pontaria.

O bicho cai no chão ao lado. Mesmo à entrada, mesmo à porta. O senhor olha para baixo e segue caminho para a mesa onde a mulher o espera. Por detrás do balcão já se preparam as meias de leite e as torradas.

A rapariga volta para a mesa onde está a criança e tenta acalmar os vómitos que começa a sentir. Sem saber se há-de fazer de conta ou se avisa a empregada. Fica ali num impasse, a tentar não olhar para o chão, sem conseguir muito bem, a imaginar que daqui a nada ou alguém escorrega ou a criança ainda lá mete o dedo a perguntar o que é aquilo tão feio, uma lesma? Os cenários ficam cada vez mais apavorantes e ela decide-se a chamar a empregada e a explicar o que se passou. A empregada, muito discretamente, vai buscar uma esfregona entre suspiros e ruídos de nojo e limpa o chão.
A rapariga assiste à limpeza.
Depois levanta os olhos para a mesa do casal.

E nunca mais me esqueço da ferocidade com que fui brindada no olhar daquele homem, cuja dignidade se viu assim espatifada por uma criatura que não tinha nada que ter visto aquela mostra de decadência do corpo.
Acho que trespassei qualquer coisa que não deveria ter trespassado. Mas não tive alternativa. Acho eu.

Do mal o menos (v 2.1 *)

* título descaradamente roubado ao post abaixo

Se não há posts novos, relemos os antigos.

janeiro 29, 2006

Aqui a coitadita não quer ofender benfiquistas!

Mude-se já isto para cinzento vermelho, olé! Em homenagem aos 14 milhões de benfiquistas que ontem levaram uma abada! ;)

janeiro 28, 2006

Alto!

Já sei onde éééééé! E SIGA!!!!!!!!!!!! Olé olé olé!!!!!!!!!!!!!!

Templates modernos, caneco! Que coisa, um gajo aprende a mexer num, muda logo tudo para outra versão mais avançada! mas já tá, larálará!

(e agora vou-me já embora que nem quero ver a cara de alguns dos sócios aqui do tasco....hihihihihihi)

XACÁVER ONDE É O VERDE AQUI!

OLÉ!
(ora bolas! não quero dar cabo disto tudo...e depois o que iriam dizer? ai ai...vou pintar outra coisa qualquer)

Allez allez!

Que é hoje que eu pinto este tasco de verde, olé! Ah pois!
(tá um frio caneco...)

janeiro 26, 2006

Receita: pedido

Ó Susana! Mete lá a tua receitinha da sopa de peixe, faxavor, que eu já não me lembro e é a melhor que eu provei até agora!

Do sexo foleiro e do outro também

Há por aí um assunto a correr Seca e Meca (em termos blogsféricos e neste caso em concreto, Meca sendo o Esplanar, a Memória Inventada, o Estado Civil e a Origem das Espécies e Seca todos os blogs onde o assunto terá sido referido, mas que não li, por motivos self-explicativos) que consiste em duas coisas. Ou melhor, um facto que leva a uma conclusão.

Facto: José Rodrigo dos Santos, escreveu um livro chamado Codex 632 onde aparece a seguinte frase:
'Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas.'
O que já por si é muito mau. Só quem nunca deu de mamar (e aqui o JRS tem desculpa, concedo) é que não sabe que o leite materno tem a mesma sensualidade que uma embalagem de Forza desentupidor de canos, embora se possa utilizar a palavra corrosivo relacionada com ambas as coisas; mas adiante). O problema é que não acaba aqui o texto. Acaba a cena com o rapaz que ouviu esta frase à rapariga a chupar-lhe 'o mamilo saliente do seio'.

Ora bem. Este facto (e mais uns quantos do tal livro) leva à conclusão que há muito sexo foleiro nos livros portugueses. Escrito, claro.

Vamos lá por partes (embora nem saiba bem por que ponta pegue nisto).

Em primeiro lugar o sexo, convenhamos, não é coisa lá muito chique. Não há grande chá em fodas e suas variantes e se a coisa meter orgasmos, muito menos. É coisa animalesca, assim lá para os lados dos bairros sociais do corpo, não vai lá com colheres de prata de mimos ou toalhas bordadas de preliminares. É coisa rasca mesmo, mete pedaços de carne cujos nomes sonantes não se dizem alto e se são ditos (ou escritos) lá está, é rasca e se não são ditos (ou escritos) e são substituídos por imagens parolas ou termos médicos, ainda pior. Não sei se acontece aos meus caríssimos leitores, mas eu quando oiço a palavra seios dá-me logo uma volta ao estômago. E, claro, homem que me quisesse acariciar a vulva ouvia logo umas boas gargalhadas entrecortadas de vómitos histéricos. E o mamilo saliente do seio, embora com grande tradição naqueles livros das colecções Bianca e Jasmim ou lá o que eram essas coisas que as adolescentes liam às escondidas (roubados das criadas, uma vergonha!), talvez nessa altura fizesse ainda bater mais depressa a ave tímida escondida no seio, mas hoje em dia, só se fôr um ACV de riso.

Eu não discordo que há muito sexo foleiro nos livros portugueses. Aliás, fora deles também. É uma grande maçada. Nós, portugueses, temos imenso medo das palavras. Um gajo que queira escrever seriamente sem chocar a clientela tem que recorrer aos seios. Mamas já é naquela, pá, tu vê lá isso, olha que já é um bocado pá, tu sabes. É raríssimo ler em português um caralho a foder bem e depressa: não, ele é uma coisa qualquer, o mastro do leme a penetrar a rota certa ou outra merda parolírica destas, a verdadeira miséria. Quando se desviam destas rotas, os escritores atiram a matar para a sopinha de peixe mas voltam logo à base dos mamilos salientes, que aquilo é matéria elástica que ainda estica mas puxa de volta e cola-se aos pés quando já está gasta.

Não discordando, porém, tenho de aqui dar uma palavrinha de apoio ao rapaz. Ele tentou. Tentativa falhada, claro, que teria feito melhor figura em prosseguir a cena não com o mamilo saliente (eu não me canso de escrever isto: acho que nunca mais terei oportunidade de escrever mamilo saliente do seio), mas por exemplo com uma troca de receitas: ela a sopinha de peixe, ele depois logo pensava se teria em si algum condimento para temperar uma salada ou assim. Ficava mais composto e sempre mostrava um bocado mais de capacidade de encaixe. Porque estas fantasias escritas, atente-se neste aspecto, são as fantasias de alguém: da pessoa que as escreve. Quanto o ‘Tomás se engasga com a sopa’ depois da rapariga debitar o seu receituário, na verdade é o JRS quem a está a cuspir.
(O que pensando bem, tira qualquer tusa a qualquer texto escrito por ele. Mas isso já é a minha opinião pessoal.)

E na senda desta palavrinha de apoio ao JRS (uma microcausa, por assim dizer), gostava que os críticos literários do estilo-sexo-foleiro se sentassem e tentassem escrever/descrever uma cenazinha de sexo. Das não foleiras, claro. Não precisamos de as ler (embora gostássemos!). Só queria era que depois eles mesmos as lessem. Só para eles. É que isto de escrever sexo parece fácil da bancada. Mas na hora do então-vamos-a-ver-se-este-texto-mexe-connosco-lá-onde-interessa, é como tudo na vida: ou dá tusa ou adeuzinho.

janeiro 25, 2006

Finalmente intelectual depois destes anos todos!

Desde as eleições que não vejo um corno. Literalmente. Os meus olhos ainda funcionaram desde o quadradinho até aos resultados. Mas depois, do lado de Belém ou assim (eu é que escolho o culpado e mai nada!) foi rogada uma praga inflamatória que logo por azar aterrou em minha casa. Felizmente só me afectou a mim, embora o outro morador tenha sentido efeitos secundários sob a forma de uma grande irritação dirigida a quem estava mais perto...
Estas coincidências, nas quais eu não acredito de todo, são graves. O acontecimento impediu-me de saber mais sobre o que quer que fosse, desde as notícias ao estado do tempo. Eu lá abria os olhos para ver se chovia e se estava a andar em linha recta, mas de resto pouco mais conseguia. Não sei de nada, não vi nada. Literalmente não vi nada.
Agora com umas gotas e um par de óculos e os olhos já em fase desdiabolizante, a coisa começa a recompôr-se. Até vou tentar reler este post que está a ser escrito em fonte 48.

Já me disseram que, tirando ainda parecerem a bandeira nacional, os olhos com óculos me fazem muito intelectual.

janeiro 23, 2006

O que é deveras aborrecido para os blogs políticos

é que a partir de hoje vão ter que inventar textos sobre outros assuntos.
(deve ser por isso que vai por aí fora um fogo de artíficio do melhor que há, com os últimos cartuchos)

janeiro 21, 2006

Isto das datas é lindo!

Ora então xacátrocar umas datecas por causa das multecas...:)

XÔ, ego!

Ai isto do colectivo custa muito! Não nasci para isto, eu, não sou nada boa na coabitação sob o mesmo template banner! Aqui a revirar daqui e mais dali e ainda daquele lado e do outro e
isto não serve
isto não serve nem pensar
tás doida?
nánánánáná
também não
não posso de todo
e depois, a vontadinha de dizer umas boas .......
dessas mesmo com todas as letrinhas
por causa deste atrofio
como é que vocês vivem sem blogs individuais, digam-me digam-me
sem recados e desabafos e beijos e abraços
e agora ponham-se daqui para fora e agora voltem voltem que estou muito arrependida
sem amuos e zangas e insultos e pedidos de desculpa
palavrinhas e palavrões
e outras coisas assim
que isto não é coisa para mim.

(mas é só para rimar, claro! que gosto muito de estar aqui! Caneco, pamordeus não me levem a sério!)

janeiro 20, 2006

Segunda mão

- Boa tarde.
- Já iamos fechar, minha senhora.
- Mas ainda é cedo!
- Pois, mas como vê também já não há muita coisa...
- Talvez tenham o que eu queria.
- Bem...diga lá então.
- Estava à procura de períodos de reflexão. Têm?
- Já só temos destes.
- Desses? Mas esses estão quase fora da validade.
- É o que há, minha senhora.
- Bem, se não há de outros...
- É o que há.
- E candidatos, tem?
- Só aqueles que ali estão naquela montra.
- Não são lá muitos, posso ver?
- Faça favor.
- Não têm grande aspecto.
- É o que há.
- Não sei o que leve...
- Olhe que estamos quase a fechar!
- São baratos, isso são.
- É Janeiro, minha senhora, estamos em saldos.
- Mas têm todos um ar muito usado!
- A senhora viu bem a placa da loja quando entrou?
- Bem, então embrulhe-me um período de reflexão se faz favor.

(melhor chutar o posteco para lá da meia noite)

A ver se funciona por blog

Ora cliquem lá aqui . Tem que se ligar o som.

(recebido por email)

O Canhângulo

Desculpem, mas eu tenho que escrever um post com esta palavra no título! Eu sei que não se fazem posts sobre posts dos outros (e daí: não? mas porque raio não?) mas confesso que estava ainda a cair da cadeira a pensar como é que alguém se lembra daquela porra das vassouras no gelo - que eu adoro ver! Melhor que aquilo só aquele concurso inglês dos pastores a fazerem corridas de obstáculos com os seus rebanhos, apenas com as apitadelas que dão aos respectivos cães. Nunca percebi como é que os cães sabem que aquela é a apitadela específica para eles, e tudo aquilo não se baralha tudo, mas o que é certo é que funciona e os carneiros lá passam pela rota traçada e uma pessoa não se pode deixar de questionar sobre a criatura que pensou em tal concurso a primeira vez. É como o tal de curling, aquilo é lindo a sério.
O que é que eu estava a dizer? Ah! O canhângulo! Confesso: quando vejo uma palavra destas escrita dá-me um ataque de histeria total, não tenho mão em mim e é preciso amordaçarem-me para evitar os gritos irracionais de ai o canhângulo, tirem-me daqui! Assim não pode ser rapaziada! Vocês organizem-se senão eu esgoto a quota de gargalhadas para Janeiro. Não ataquem todos ao mesmo tempo!
Os comentários...socorro...os comentários...ai! :DDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDD Juro que não quero ser má, mas eu passo-me eu passo-me com a literalidade na leitura! Ai!
(vou ali recompor-me que estou a ver uns homens de branco avançar para mim com a camisa de forças...)

janeiro 19, 2006

Legenda para uma imagem

drip-9 JCoias.jpg

Sabes, não pensei em nada quando saí de casa para comprar tabaco a não ser que não tinha cigarros. Só quando cheguei ao carro e levei a mão ao bolso é que vi que não tinha as chaves. Nenhumas chaves, nem do carro, nem de casa. Já precisava de um cigarro, fiquei muito pior, mas tinha a carteira nas calças e sapatos nos pés.

Fui andando.

Sabes, a pé as coisas ficam mais perto embora as distâncias sejam maiores. Notas mais que as ruas estão muito sujas e só passam carros. Ninguém anda a pé aqui. Nem em lado nenhum. Não percebo porque é que dizem que é perigoso: não vi praticamente ninguém. Um tipo que saiu de uma porta, meteu um saco do lixo num contentor e voltou a entrar. Uma rapariga apressada que mudou de passeio quando me viu. Dois cães e vários gatos. Uns bancos de jardim vazios. Lembro-me de um banco de jardim, destes, no meio de várias ruas. Um banco e umas mesas de metal num metro de erva entre prédios. Alguém o tinha levado para lá, obviamente. Estavas lá comigo? Já não me lembro, acho que não. Ou se estavas tinhas outra cara, eras outra pessoa. Que estupidez, não eras outra pessoa, era outra pessoa. Só podia ser isso. Não me lembro. Não me lembro de quase nada e também não interessa que a loja está já ali à frente e eu preciso mesmo de um cigarro.

Estou a acendê-lo aqui no passeio agora. Ahhh que bom! Não pensei em nada quando saí de casa e agora não tenho chaves para entrar. Porra, era escusado já uma martelada de realidade com o fumo ainda nem travado. Vou fumar este e pensar nisso e entretanto

Vou andando.

Olha, se calhar sento-me no banco ali ao pé das mesas de metal. Não. Espera, não posso, esse banco não é nenhum dos que vi no caminho até aqui chegar, esse estava noutro lado, mas que lado? Se fôr andando antes por ali talvez o encontre, talvez lá estejas sentada, não, mas não eras tu, eras outra pessoa. Não estás lá sentada de certeza. Era demais, não era? Estares lá sentada. Eu encontrar o banco de jardim e tu estares lá sentada. Até podias ter as minhas chaves de casa, isso é que era! Se um tipo entra numa de pedir, pode pedir tudo o que precisa, não achas?

Vou acender outro.

Sabes, às vezes apetecia-me ir embora. Mas para quê? Ou melhor, vou-me embora de quê? De umas chaves de casa? Do que lá está dentro? Vou andando por aqui fora e estou a pensar que me vou embora de nada. É inútil, não te parece?

Parece-te?
Parece-te inútil?
Pareceu-te sempre tudo inútil!

Olha, então sabes uma coisa? Se achas que é assim, vou mesmo. Está ali a estação à frente, o que já andei e nem me dei conta. Preciso de cigarros outra vez. Não fumei todos ainda, mas é melhor comprar outro maço. É um longo caminho, agora, melhor ir de comboio.

Se a bilheteira estiver aberta, compro bilhete para Nunca Mais.

(texto escrito para uma Ilustração de João Cóias)

janeiro 18, 2006

Preservar o Esplendor

(transcreve-se aqui parte de uma conversa frente a uns jaquinzinhos fritos com açorda, 4 gajas / 1 gajo)

- E aquele anúncio com o hino, já viram?
- Não!
- Eu também não.
- Não dá no Canal Panda, pois não?
- Acho mal!
- Também não acho lá muito bem.
- Qualquer dia embrulham-se as castanhas nas bandeiras.
- E o hino a vender também desentupidor de canos e pensos higiénicos?
- Com som de água a correr no primeiro!
- E a pingar no segundo?
- Pois. E se fossem preservativos era em rap!
- Tá mal.
- Vocês são todas umas sensíveis! O hino nos preservativos, sim! E com o slogan
Pela Pátria, um gajo dá sempre uma!

janeiro 17, 2006

Aviso à navegação (já tá tudo estragado, é o que é!)

Foi-me dada 'carta branca' para os meus dislates. Nem sabem onde se meteram...!
(agora concença que tenho aqui uns metros de ego para desdobrar; espero que sobre espaço para mais alguém)

Adenda: vejo que estão cheios de tempo entre mãos para os cumprimentos, olás e afins. Mas alguém tem que trabalhar neste país, caneco! E, como hoje fui eu quem tirou essa senha, ficam aqui os meus agradecimentos pela simpatia das boas vindas e depois, ainda neste século, se possível, personalizo a coisa.

As letrinhas mais pequenas

O Eixo N-S tem qualquer coisa que ainda não percebi muito bem o que é. Refiro-me a um ponto em concreto, mais precisamente àquela parte que passa sobre Sete Rios. Há ali uma mistura de energias, não sei se por ter de um lado o Jardim Zoológico e do outro uma Embaixada, se por em tempos ali terem estado sentados, já a noite ia alta, um grupo de pessoas muitíssimo suspeitas e totalmente inventadas neste preciso momento, o que para o caso não é relevante. O certo é que, na noite em questão, esse grupo de pessoas se entreteve a enviar para a estratosfera uma série de mensagens codificadas, tudo isto apenas com a força do poder da mente (o que é realmente extraordinário se pensarmos bem e se tivermos em conta que as atrás referidas mentes se encontravam em estado praticamente comatoso, devido à ingestão de carradas de coisas que não podemos aqui enumerar, já que as únicas testemunhas do acto tiveram posteriormente um ataque de amnésia conjunta).
Seja lá como fôr ou tenha sido, essas mensagens codificadas deram a volta ao universo todo, de uma ponta à outra e, como o tempo é relativo, demoraram uns anos ou coisa assim, a regressar. Não vieram todas juntas, foram aparecendo aos poucos, mas sempre no mesmo sítio: aquele viaduto (que o betão não as deixa passar para baixo até ao chão). E, volta e meia, caem em cima de um carro e aterram na cabeça do incauto que o guia: eu sei porque já recebi várias assim.

Que se trata de fenómeno de outro mundo ou pelo menos que por lá passou, não haja qualquer dúvida. A última, durante a semana passada, rezava assim:

- Correr a maratona.

Depois tinha umas letrinhas mais pequenas, mas essas só as consegui ler no semáforo seguinte. Até lá, tive ao meu dispôr uma boa meia hora para pensar que era uma ideia absolutamente alucinada. Talvez não seja para toda a gente, mas quem me conhece sabe que fico exausta só de pensar. Correr não é o meu forte ou fraco, correr é para gente doida que pensa que o desporto faz bem à saúde.

Quando cheguei ao semáforo lá consegui ler o resto. (Quando digo ler, evidentemente não é ler-ler: a mensagem aparece no cérebro, mas isso não a impede de ter fontes de tamanhos diferentes.)

Dizia assim:

Quando não se consegue sequer ter energia para fazer coisas pequenas, o melhor é apontar para as grandes. As que são inultrapassáveis, as maiores de todas, as enormes. Que estejam ainda longe no tempo para ser possível acalentar um sonho exequível. Mas que sejam mesmo quase impossíveis.
Essas é que são as boas.

(Eu não ia escrever nada disto, mas saíu-me. Quer dizer que me sinto muito bem aqui. Obrigada.)

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