Deixai casar as raparigas em paz, pá!
Como muito bem diz a Susana, em comentário mais abaixo, 'para que querem elas casar? Nem sabem no que se vão meter', mas isso já sou eu a pensar. Como dizia uma amiga jurista, há uns anos, eu jamais em tempo algum assinarei um contrato a comprometer-me a cumprir amor e fidelidade e deveres conjugais, isso é cá comigo e não concebo isso em termos contratuais. (Uns anos mais tarde, casou-se, portanto depreendo que, ou mudou de opinião, ou casou-se a mulher, mantendo-se solteira a jurista, sendo que uma e outra são a mesma pessoa, mas não deve haver nada na Constituição que proíba as pessoas de pensarem uma coisa e fazerem outra, senão íamos todos dentro.)
Eu vou lendo argumentos a favor e contra, já não são de hoje, esta porra é como a lei do aborto: ninguém quer saber ou toda a gente tem uma opinião mas alterar o que está estabelecido, tá quéto. Ninguém os faz, ninguém os faz, mas o que é certo é que aparecem feitos, como os outros. O que a mim me parece (neste caso do casamento, matrimónio ou seja o que lhe quiserem chamar, entre homossexuais e não no caso do aborto em que outros valores se levantam) é que cada um deveria poder fazer aquilo que achasse melhor e ninguém tem nada com isso. Se há homossexuais conservadores que querem legitimar as suas relações através de contrato, pois muito bem, que lhes seja permitido fazer, porque não? Se puderem casar talvez passem a sentir-se menos ostracizados pela sociedade. Também há heterossexuais radicais que jamais em tempo algum nem mortos se apanhariam a assinar uma porra de um papel que só lhes daria dores de cabeça quando a coisa desse para o torto e já sem papel é o diabo e mais três tostões de maçadas.
Só para debitar algumas das minhas opiniões sobre a discussão: o argumento do casamento e da procriação, francamente, rapaziada, não estava na altura de repensar a coisa: então e quem não quer ou não pode ter filhos, não casa? Lá vem mais um papelinho com selo branco atestando que ambos os nubentes estão de saúde, são férteis e estão dispostos a colocar no mundo mais uns tantos potenciais contribuintes e tal. Isso é demagogia pura. O casamento ou o matrimónio (pelos vistos já vi que há diferenças mas este a que me refiro) é um contrato. Dá direitos e deveres e coisas práticas como acesso a heranças se assim for estabelecido e adopção de filhos, pois claro. Embora no caso de casamento entre lésbicas não se veja que haja algum problema, sendo as senhoras férteis e tendo vontade de terem os seus próprios filhos, como aliás creio que é o caso das duas senhoras que quiseram casar uma com a outra ontem.
Mas no fundo, no fundo, a questão é a seguinte: toda a gente tem que se imiscuir na vida dos outros. É da praxe tuga e muita gente acha que o que pensa é que está certo e não quer que o que está estabelecido seja alterado, por uma questão moral Ok, aceito. Mas então não me venham com argumentos que até parecem xptos: digam assim, a gente não quer que eles se casem porque achamos mal. Assuma-se a porra do trauma em relação aos homossexuais que assumiram a posição deles. Se há tomates para assumir que se ama e se quer partilhar a vida com uma pessoa do mesmo sexo, os heterossexuais que assumam que não aceitam porque lhes parece MAL. Não é preciso aceitar isso para o público: não. Privadamente, cada um com a sua consciência. Pensar, sou assim, e depois pensar porque é que sou assim, porque é que penso assim e depois dar o passo seguinte: ok, sou assim mas não sou eu quem vai casar. São outras pessoas. Que raio tenho eu a ver com isso? Com o amor entre outras pessoas? Nada, não é? Então deixai-as casar, caneco.
Só aceitando para nós mesmos os nossos preconceitos é que conseguimos avançar para algum lado.
Eu, como já disse no princípio do texto: a mim tanto me faz. Não é um contrato que me altera a vontade de partilhar a vida com alguém. Não é um contrato que me obriga ou deixa de obrigar a todas as coisas ímplicitas e explícitas naquilo que diz a lei. Mas isso sou eu, radical e anarca em relação a certas instituições. Agora os outros, façam como melhor entenderem. Não tenho nada com isso e nem me sinto no direito de achar que tenho alguma coisa a estabelecer quanto à forma como as outras pessoas querem viver os amores delas.

