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junho 27, 2006

O Regresso da Blogosfera ou Vou Ali Já Venho

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Em Portugal cultiva-se a filosofia do eterno retorno, também conhecida pelo regresso eterno. É este nosso lado saudosista que sofre daquilo que já teve e que deixou de ter. Pessoalmente acho que a nossa situação geográfica é a grande culpada nesta questão: impedidos de progredir para dentro por causa dos malditos e persistentes castelhanos, fomos obrigados a fazermo-nos ao mar, com todas as consequências que daí adviram.
Ir para o mar, ir em direcção a uma linha do horizonte inexorável e misteriosa, sem a certeza de que voltaríamos, foi o combustível deste nosso mito do eterno retorno (com as devidas vénias e desculpas a Mircea Eliade, que inventou o termo noutras circunstâncias que um dia terei imenso prazer em escrever aqui). Dizia eu que ir para o mar, com a devida imponderabilidade do vazio e daquilo que desconhecemos, contribuiu para que o regresso fosse algo valorizado e esperado pelos portugueses. O caso mais paradigmático deste eterno regresso é D.Sebastião, cujo regresso num dia de nevoeiro sobreviveu à sua existência e continua válido até hoje. Digamos que este será para sempre o regresso que nós esperaremos. Mas há outros. Nós gostamos que hajam. O regresso de Cavaco Silva e de Mário Soares, por exemplo. Podemos não gostar das figurinhas mas aplaudimos com fervorosa estupidez o seu regresso, porque para os portugueses o regresso é uma espécie de recomeço, de eliminação sumária de um passado que é sempre penoso e para esquecer. O regresso é para nós um reinício onde nunca somos intervenientes, mas sempre espectadores – alguém há-de regressar para mudar as nossas vidas, para nos salvar de nós próprios.

[Humor Negro]

junho 19, 2006

Alka Seltzers Literários

digest
Acho piada aquelas edições digest reescritas por uns tipos que têm um imenso poder de síntese, e cuja função consiste em pegar em duas dúzias de páginas escritas e transformá-las numa única página que significa exactamente a mesma coisa. A existência destes indivíduos suscita-me dúvidas filosóficas sobre o papel dos autores originais da obra: se há indivíduos que conseguem dizer em meia dúzia de linhas aquilo que os tipos que escreveram originalmente disseram naqueles calhamaços monstruosos, tipo o «Ulisses» do James Joyce, é porque há ali imensa palha desnecessária que me faz perder tempo desnecessário. Tempo esse que poderia estar a utilizar para ler outras obras em versão digest. Pensem na quantidade de livros que já leram até hoje e multipliquem por 12 ou por 20 e vejam só o que têm andado a perder porque há gajos que não têm a capacidade de resumir a sua lógica de pensamento.
Eu gostaria de ver o que estes tipos que resumem fariam às coisas que a Margarida Rebelo Pinto escreve. Aquilo é tão fácil de digerir que os livros da senhora se traduziriam em apenas uma frase. Por exemplo:

Sei Lá – Gosto de gajos mas não faço ideia do que é uma relação estável.

Não há Coincidências
– Gosto de gajos mas não faço a mínima ideia do que é ter uma relação estável e excitante.

Alma de Pássaro – Gosto de gajos.

Artista de Circo
– Gosto de gajos do circo e com uma elasticidade fora do normal.

I’m in Love with a Popstar – Gosto de gajos desde que cantem.

Nazarenas e Matrioskas – Gosto de gajos e não tenho jeitinho nenhum para arranjar títulos para os meus livros.

Pessoas como Nós – Gosto de gajos normais (à falta de melhor).

Diário da Tua Ausência – Gosto de tudo o que mexa.

Estão a ver? Já leram oito obras da Margarida Rebelo Pinto em apenas 10 segundos. E agora podem dedicar os vossos próximos 5 minutos a ler todas as obras escritas nos últimos dez anos por tias encalhadas com a ilusão vertiginosa que são escritoras. Não haja dúvida que as versões digest são úteis à brava.


[Humor Negro]

junho 06, 2006

Férias Lusas

ferias lusas
Não há nada mais exasperante do que ir de férias para um sítio recheado de portugueses. Depois de 18 anos a levar com portugueses no Algarve prometi a mim mesmo passar as minhas férias, para o resto da minha vida, fora de Portugal. A maior parte das vezes consigo viajar para sítios sem tugas. Outras vezes não tenho essa sorte, e já sei a sorte que me espera:

No Avião para Lá

Para parecerem muito modernos e muito rodados na onda de viajar de avião, os portugueses comportam-se como se estivessem num autocarro de carreira em hora de ponta. Andam de um lado para o outro de pé. Encostam-se à cadeira de quem calhar. Sentam-se nos braços da cadeira ao seu lado. Gritam ruidosamente para manter uma conversa com a excursão de amigos e amigas que viajam com eles, sentados em pontos opostos do avião. E naqueles vôos de longo curso, onde o que eu só quero é dormir para não sentir a viagem passar, passam a noite excitadinhos que nem uma criança à espera do Pai Natal, e a beber que nem uns javardos. Gosto particularmente da fase da aterragem, onde todos batem palmas como se estivessem num circo.

No Pequeno Almoço do Hotel

Distinguir um português em férias antes de ele abrir a boca é um exercício penosamente elementar. Podemos distingui-los pelo belo calçãozinho de banho com padrão príncipe de gales, acompanhado pelas chanatas, ou pelo sapatinho de vela com peúga de cor variada, dependendo do seu grau de sofisticação social. Mas se porventura já aprenderam a vestir-se decentemente há uma coisa que não falha: a quantidade inacreditável de comida que, no buffet, conseguem transportar nos pratos. E a quantidade de vezes que repetem. Se não repetirem 3 vezes é porque estão com azia da viagem.

Na Praia
Aqui continua ser fácil porque se comportam como se estivessem na Caparica: berram que nem uns desalmados, levam um lanchinho proveniente do pequeno almoço, e estão sempre acompanhados por uma bola de futebol que insistem em chutar para cima dos outros (mais por falta de jeito do que intencionalmente). Os que não levam bola passam o dia a chafurdar dentro de água, a dois metros da areia, numa actividade que consideram tratar-se de snorkelling.

No Comércio Local

Não compram nada que não seja muito bem regateado. Não interessa nada se estão a regatear preços miseráveis. De calculadora na mão, estão dispostos a negociar 5 cêntimos para orgulhosamente acharem que não só não foram enganados, como enganaram o pelintra que estava a vender o pechisbeque para comer a sua refeição diária. Claro que neste processo a chinfrineira é mais que muita...

No Avião de Volta

Regressam normalmente decorados com os artigos locais: o chapéu de palha ou feito com folha de palmeira pelo barman do hotel; a camisinha às flores; a t-shirt alusiva tipo «Yo estube en Varadero»; O cabelinho entrançado à lá nativa; a tatuagem temporária no braço; todos com um bronzeado excessivo, próximo da insolação, meio inchados do sol e da bebida. O seu comportamento dentro avião é um remake do que fizeram à ida.

Felizmente tenho um agente de viagens que me compreende. Quando me vê chegar para comprar as minhas férias, diz sempre: «já sei onde é que não vai passar férias este ano».

[Humor Negro]

maio 31, 2006

Reality Ciao

reality shows
Há uns tempos atrás o Zé Maria, aquela alma simples do Big Brother, tentou suicidar-se, depois de ter estoirado o dinheiro que ganhou no concurso em projectos falhados.
Marco, o neanderthal do pontapé maravilha do Big Brother, foi detido pela polícia no ano passado, acusado por um camionista de agressão selvática e persistente numa fila de trânsito.
Há algumas semanas li que o Mário, o loiro burro do Big Brother, foi preso pela judiciária, acusado de liderar um gang responsável por assaltos à mão armada na zona do Porto.
A julgar pelos exemplos acima, os reality shows serão largamente responsáveis por toda uma geração de anormais desajustados e destrambelhados, com a mania das grandezas e do sucesso fácil. Não falo só dos anormais que por lá pululam, mas também dos anormais que diariamente enchem as audiências deste tipo de programas.
Parece-me óbvio que os reality shows dão cabo da vida pública dos seus participantes, que consequentemente passam a lidar muito mal com isso nas suas vidas privadas. Ora se assim é, porque não assumir as coisas frontalmente e criar programas que arrebentam com a vida dos gajos logo ali em directo, à vista de toda a gente, em vez dos abandonar à sua sorte no fim de cada programa? Seria infinitamente mais honesto do que acontece agora. E geraria muito mais audiência.
Foi a pensar nisto que elaborei algumas ideias passíveis de serem utilizadas pelo Piet Hein, free of charge, nos seus futuros lixos televisivos:

O Atol
Um grupo de labregos é colocado num atol de Mururoa. São formadas equipas de dois elementos e a cada indivíduo é dado um componente de uma bomba nuclear de potência desconhecida. Cada elemento da equipa é colocado num ponto do atol, bem distante do seu companheiro de equipa. O objectivo é encontrarem-se o mais rapidamente possível, juntando os componentes da bomba e accionando o dispositivo. Vence quem conseguir destruir o atol primeiro. Prémio de 100.000 euros para os primeiros, que será doado à TVI se os participantes não se apresentarem nos escritórios do Piet Hein duas horas depois de finalizada a prova.

A Tribo
Um grupo de quarentonas encalhadas é largado na selva ardente à mercê de uma tribo de somalis devidamente untadinhos e com a testosterona alterada quimicamente de modo a não pensarem noutra coisa que não seja a sodomia brutal e persistente.
Ao fim de três meses as quarentonas serão recolhidas e a vencedora será aquela que ostentar um caminhar mais esquisito.

A Catapulta
Um reality show com anões, cavalos pentapérnicos, e mulheres desnudas, que tem características próximas do triatlo olímpico.
Os anões são inicialmente catapultados para dentro de campos de minas, que terão que atravessar até chegar aos cavalos pentapérnicos. Os que sobreviverem à queda e às minas terão que cavalgar 20 km num campo de urtigas e espinhos, agarrados à quinta perna do cavalo. Os que conseguirem transpôr a segunda fase da prova serão de novo catapultados para o campo de minas. As mulheres desnudas na realidade não existem, e são apenas um motivo para dar cabo dos anões. O anão que sobreviver estará automaticamente apurado para «O Atol».

O Cartoon
Destinado a toda essa malta com talento para o desenho que anda por aí. Doze cartoonistas são fechados numa sala blindada com um fundamentalista islâmico que, embora ninguém saiba porque não se vê, está atestadinho de explosivos na zona rectal. Os cartoonistas têm que desenhar temas religiosos alusivos ao Ramadão. Quem conseguir fazer explodir o árabe ganha umas próteses biónicas (último modelo) para os bracinhos.

A Repartição
Reality show que simula o interior de uma repartição pública. A cada um dos quinze participantes é facultado: uma máquina de escrever Remington de 1916, trinta resmas de papel pautado, cinco resmas de papel químico, uma caixa de lexotans. Vence quem conseguir levar mais tempo a deferir um processo. O premiado será catapultado para o campo de minas dos anões. Os restantes irão servir de figurantes em «O Atol».

[Humor Negro]

maio 26, 2006

Check List Matrimonial

festa de casamento
Tenho um problema com as festas de casamento. Primeiro porque não percebo porque raio dois seres acham que o facto de terem decidido viver juntos «para o resto das suas vidas» constitui motivo de celebração, e depois por todos os rituais bacocos que envolvem a festa, e que fazem com que as festas de casamento se assemelhem às bolas de ténis: quem vê uma vê todas. E por isso mesmo, sempre que vou a um casamento é como se estivesse a ver pela enésima vez o mesmo filme, só mudando os locais de filmagem, e claro, as personagens.
Ao longo de anos como convidado de festas de casamento criei uma pequena check list virtual que uso para me entreter e passar o tempo em cada celebração matrimonial. Como o argumento é sempre igual de festa para festa, a check list é dolorosamente implacável a assinalar «os pontos altos» de cada uma.
Não pretendendo ser exaustivo (a minha lista é verdadeiramente longa e diversificada, ombreando com qualquer modelo de análise multivariada) vou partilhar convosco os items mais comuns:

Na Igreja

Para quem conseguiu escapar à gloriosa tarefa de ter que começar a festa a enfardar na casa de um dos noivos antes de o acompanhar no seu trajecto ao altar, a Igreja é o grande início da festa do casamento e apresenta per si um rico manancial de rituais:

- O Freakshow – continuo a achar esta parte a mais interessante porque em cada casamento há sempre uma bela molhada de seres esquisitos (amigos e familiares dos noivos) que nós nunca vimos antes e que dão um colorido peculiar à cerimónia, com os seus fatos a cheirar a naftalina (invariavelmente dois números acima ou abaixo da medida do seu utilizador); os sapatos encerados de modo a encandear toda a tripulação de um boeing que passe por ali perto; os vestidos mais inexplicáveis com decotes e minissaias generosas sustentadas por saltos agulha que dificultam o andar no chão empedrado da igreja. Na fase de freakshow os mamíferos presentes trocam olhares e cochichos, medindo-se timidamente uns aos outros, avaliando as suas respectivas figuras tristes.

- O Sermão e as Leituras – onde por breves momentos toda a gente parece ter o dom da leitura, recitando aqueles repetitivos «discursos de São Paulo aos etruscos», ouvindo-se aqui e ali um choro de criança a ser levada rapidamente para fora da igreja por um dos seus sádicos pais. Se tivermos sorte, o que é raro, o padre é breve e contido e poupa-nos meia hora de seca a falar da incerteza dos dias de hoje, da crise das instituíções e da própria família, e da escassez de crentes praticantes abaixo dos 65 anos.

- O Arroz – o discurso do padre ditará a violência com que se atirará o arroz aos noivos. Se o padre nos deu uma seca, o mais provável é que pelo menos um dos conjuges nunca consiga recuperar totalmente de uma perfuração da retina.

- O Cortejo Automóvel – já vi carrinhas funerárias deslocarem-se mais depressa que um cortejo automóvel num casamento, o que torna a chegada ao Copo D’Água um verdadeiro suplício, principalmente durante a época de Verão. De salientar aqui dois aspectos: os carros estão sempre imaculados e reluzentes; e um grupinho de labregos irá invariavelmente perder-se do cortejo chegando muito depois dos petit fours.

Vou omitir propositadamente a parte das fotografias e das filmagens, porque geralmente não têm grande interesse na altura (embora saibamos que vamos ter de levar com elas mais tarde, quando os noivos chegarem da Lua de Mel).

No Copo D’Água
É considerada a segunda parte do filme, e aquela que apresenta variantes mais ricas. Digamos que a verdadeira festa começa realmente aqui.

- Os Petit Fours – ao chegarmos ao local do Copo D’Água somos presenteados com petit fours e aperitivos vários. Começa assim a verdadeira maratona de bebida e comezaina, havendo alguns convivas que ficarão alegremente etilizados nesta fase em estágio para a verdadeira bebedeira que se desenrolará a seguir, em todo o seu esplendor. Nesta fase o nível de álcool faz com que os convivas comecem a socializar entre si, perdendo alguma inibição inicial.

- O Arremesso do Bouquet – um momento crítico para as encalhadas de serviço a qualquer casamento. Já quentinhas com os aperitivos, este ritual assume um carácter de «vida ou morte» para cada uma das participantes, podendo originar traumatismos graves dependendo do grau de desespero das intervenientes.

- A Refeição Principal – aparte da velocidade com que a comida e a bebida desaparecem nesta fase, pouco há salientar, tirando talvez o ritual do bater em uníssono com um talher no copo, na tentativa de que os noivos se beijem. Existem variantes deste ritual, muito mais interessantes aliás, onde os convivas exigem que o pai da noiva beije violentamente a mãe do noivo (a maior parte das vezes sem qualquer sucesso aparente).

- O Charuto – como fumador habitual de habanos divirto-me a observar os mamíferos do sexo masculino a fumar o tradicional charuto depois da refeição principal. É impressionante a figura urso que se pode fazer a fingir que se sabe fumar charuto. Gosto particularmente do free style de espetar um palito pelo charuto adentro de modo a segurá-lo na boca trincando apenas o palito. São uns artistas.

- O Bailarico – na minha modesta opinião, o ponto mais alto da festa matrimonial. Nesta altura eles e elas perderam a compostura, desapertaram as gravatas, subiram as mangas e as saias, baixaram os decotes e dançam (muitas vezes descalças) como se não houvesse amanhã, fazendo de quando em vez um pequeno comboio de bêbados que circula por entre as mesas do recinto. Valentes trambolhões são coisa normal nesta fase, havendo variantes mais excitantes que envolvem cenas de desenfreada pancadaria entre maridos ciumentos na defesa das suas etilizadas e ziguezagueantes esposas, apalpadas sem dó nem piedade por indivíduos que ultrapassaram, em muito, os limites legais de consumo de substâncias entorpecentes.

- O Cortar do Bolo – é normalmente arrastado até ao último minuto possível por se saber que, depois dele, mais de metade dos convivas baza alarvemente dali para fora. Eu incluído (antes de dar a segunda dentada naquela fatia gigantesca e sensaborona já estou ao volante do carro para me pirar).

- A Ceia e o Pós Ceia – confesso a minha total falta de experiência nesta fase. Mas segundo me dizem é aqui que se inicia o próximo casamento, dado que são normalmente os encalhados que resistem até à Ceia na tentativa de desencalharem de uma vez por todas. A bebedeira normalmente baixa-lhes a fasquia dos critérios o que lhes abre uma possibilidade, mesmo que remota, de encontrarem (no mesmo estado etilizado) a «pessoa do resto das suas vidas».

[Humor Negro]

maio 17, 2006

Inscrevam-se aqui!!

seita
A seita está para a religião como a loja de bairro está para o hipermercado: as primeiras adequam a sua oferta ao tipo de bairro onde se inserem, as segundas vendem indiscriminadamente a quem quiser comprar.
Criar uma seita não é difícil, basta conhecer relativamente bem os papalvos que queremos evangelizar, adequando o discurso aos seus medos, às suas ansiedades e às suas necessidades. E depois é como fazer sabonetes – ou apostamos no básico e temos o sabão macaco que dá para tomar banho e lavar a roupa, ou vamos para uma coisinha mais sofisticada acrescentando aloevera ou ginseng que dão a ilusão que, para além de lavar, fazem mais qualquer coisinha.
Uma condição sine qua non de qualquer seita bem sucedida é a figura do seu líder espiritual – mais uma vez recorro à analogia da loja de bairro e do hiper: quantos de vós conhecem pessoalmente o gerente do hipermercado onde fazem compras? E quantos conhecem o dono da vossa loja de bairro? O hipermercado passa muito bem obrigado sem que vocês lhe conheçam o gerente, a loja de bairro não. O dono da mercearia confunde-se com a mercearia, é a sua alma, tal como o líder espiritual de uma qualquer seita.
Por isso quando se limpa o sebo a um desses líderes (muitas vezes eles limpam o sebo a si próprios, fartos da fantochada que criaram) acaba a seita.
E depois temos os seguidores – uma seita com um líder espiritual e sem seguidores é um terrível aborrecimento (garanto-vos eu que sou o líder espiritual de uma seita alucinada, mas sem ninguém que me siga). Para se ser seguidor de uma seita não são necessárias grandes habilitações: basta querer acreditar em qualquer coisa. Convém ser uma coisa assim distante e inatingível tipo: estar à espera das naves venusianas do comandante Ashtar que vêm buscar todos aqueles que acreditam; ou esperar pelo Cometa para lhe saltar para a sua cauda e zarpar rumo à outra ponta da galáxia; ou ainda aguardar de caçadeira na mão (numa onda mais Koreshiana) que me apareçam um dia uns gajos com as letras FBI nas costas.
Acreditar em coisas tangíveis como sentir na nuca a respiração de Hale Berry num dia nublado não são suficientemente motivadoras (vá-se lá saber porquê) para granjear um número considerável de seguidores.
Uma coisa que contribui para criar um espírito de corpo numa seita é o vestuário: pode ser mais ou menos elaborado dependendo do grau de loucura dos participantes, mas convém que seja uniforme – tudo de tanga laranja e capuz negro por exemplo; ou vestes compridas mais clássicas com padrões estranhos. O que interessa mesmo é que todos se vistam de igual, tipo salesianos.
Finalmente, a parte mais importante das seitas: o financiamento. Uma seita que não tenha apoios financeiros não é uma seita, é um grupo de escuteiros com distúrbios de personalidade (um silogismo, portanto). O apoio financeiro de uma seita não é pêra doce, e depende do grau de exigência do seu líder espiritual. Normalmente o jacto particular e o Ferrari Testarrossa fazem parte do cerimonial, mas outros fringe benefits podem ser acrescentados dependendo da quantitade e qualidade dos seguidores. Neste aspecto as seitas aprenderam com a secular experiência da Igreja Cristã, hoje muito mais discreta mas igualmente eficaz na arte de sacar o seu indiscriminadamente, sem recibos ou quaisquer deduções à colecta.
Para todos os que acham que a política já não tem futuro, sugiro uma pequena reengenharia na actividade profissional: façam a vossa seita. Tax Free.


[Humor Negro]

maio 10, 2006

Pedreiros do Millennium

macons
A malta receia aquilo que desconhece. Quanto mais secretismo e mistério se promover em torno de qualquer coisa, mais respeitinho se tem por essa coisa. Foi com base nesta premissa básica da natureza humana que se criaram as lojas maçónicas. Sempre envoltas num mistério cabalístico, as lojas maçónicas e os seus incógnitos membros são alvo das mais variadas especulações: conspiração mundial para colocar os seus membros nos lugares-chave do poder político e económico; tráfico de influências; festas pagãs envolvendo virgens bêbedas e desnudas; práticas impronunciáveis com animais de pequeno porte; embalamento de frutas escamosas sem recurso ao vácuo; e outro tipo de actividades que, na realidade, nada estão relacionadas com a razão de ser maçon (ou pedreiro-livre, se quiserem).
A verdadeira razão da maçonaria é algo de muito mais simples, embrulhada, por uma questão de marketing e credibilidade, num conjunto de rituais e vestimentas ridículas, com o objectivo de intimidar o mais incrédulo. Na realidade o objectivo do maçon é ter uma desculpa para deixar a mulher em casa e ir passar umas horas descontraídas com os amigos, em amena (e por vezes, alarve) cavaqueira. Algumas lojas admitem mulheres, mas nunca as dos próprios sócios (porque será?), embora a maioria das lojas se constituam seguindo escrupulosamente os estatutos do Clube do Bolinha.
Detentores de uma imaginação prodigiosa, os maçons estão na base do progresso social e são responsáveis por uma série infindável de invenções que tiveram como único objectivo fazer com que as suas mulheres não os controlem, nem os chateiem. Alguns exemplos:
No início do século XX inventaram o Country Club – um sítio de acesso exclusivo a indivíduos do sexo masculino onde podiam passar o fim de semana a comer, a beber e a jogar que nem uns javardos.
Anos mais tarde inventaram o Golfe. Na altura jogar golfe consistia apenas em enfiar a bola num único buraco. Como aquilo durava muito pouco tempo inventaram o green com 18 buracos – podiam estar uma tarde inteira a jogar uma única partida entre amigos e sem as mulheres.
Nos anos 30 inventaram o Chá das Cinco. Elas ficavam entretidinhas a preparar e a fazer o chá para as amigas e eles bazavam para se divertirem que nem uns perdidos.
Como o Chá das Cinco tinha uma duração muito reduzida, pensaram numa maneira de o alargar. E assim, nos anos 40 fizeram um upgrade inventando as Reuniões de Tupperware que tinham lugar antes do Chá das Cinco.
Nos anos 50 inventaram os Salões de Cabeleireiro. Nos anos 60 foram mais longe e inventaram o Movimento de Libertação das Mulheres (enquanto elas participavam nas reuniões e manifestações eles iam à sua vidinha fácil).
Nos anos 70 inventaram os cartões de crédito. Lá iam elas todas satisfeitas às compras estoirar o plafond dos cartões.
Nos anos 80 decidiram circunscrevê-las num determinado espaço, para melhor as controlar, e inventaram os Centros Comerciais.
Nos anos 90 inventaram a Internet e as Compras Online (que reduziram drasticamente a taxa de infidelidade das décadas anteriores porque elas já não precisavam de saír para ir às compras).
Na actual década inventaram o Investimento no Brasil, e lá vão eles em grupo «fazer negócio para a sua Empresa Brasileira» enquanto elas ficam por cá a tratar da casa e dos filhos.
Naturalmente que têm que ser secretistas e misteriosos. Estariam completamente lixados se não o fossem. Deixem lá os gajinhos a curtir em paz...



[Humor Negro]

maio 05, 2006

Eu cá é mais bolos

croissant
A razão do insucesso de qualquer negócio em Portugal está relacionado com aquilo que costumo designar pelo «síndrome do croissant», uma derivada da famosa expressão «onde mija um português, mijam logo dois ou três».
O «síndrome do croissant» tem o seu início e o seu fim em meados dos anos 80, no século passado, altura em que muitos dos leitores deste blog se preparavam diligentemente para nascer.
Antes dos anos 80 não existiam croissants, imaginem vocês. As pastelarias exibiam orgulhosas duchéses, coriáceas bolas de berlim, empertigados ecláires, esbeltos pastéis de nata, abnegados jesuítas, e muitos outros docinhos que apaziguavam a gulodice bovina de muita gente. A palavra snack ainda não fazia parte da vida dos mamíferos daquele tempo.
Então, surgido do nada, ou provavelmente surgido do empreendorismo de um emigrante da bidon ville (que é praticamente a mesma coisa que nada) surge a primeira croissanterie - assim mesmo, em estrangeiro para parecer mais fino. Ávidos por tudo aquilo que vinha do estrangeiro, na boa tradição do provincianismo nacional, os portugueses acorreram em massa. E o sucesso da primeira croissanteria foi tão grande que, num curto espaço de tempo, o país se transformou numa imensa croissanterie. Era impossível descobrir uma pastelaria. Porta sim porta sim, as croissanterias espalharam-se como um ébola desvairado, por todo o país, ameaçando a sobrevivência do queque e do mil folhas. Cidades houve em que surgiu a «rua das croissanterias». Os portugueses atafulhavam-se de croissants como se não houvesse amanhã.
E de repente, cerca de 5 anos depois da croissanteria original, acabaram tão rapidamente como tinham começado. Tipo dinossauros. A razão: não havia mercado para tanta oferta - estava descoberto o «síndrome do croissant».
Curiosamente, os pequenos empresários portugueses não aprenderam nada e, hoje em dia, o país apresenta um número absurdo de falências que está directamente relacionado com este fenómeno.
Em Portugal, a maneira mais rápida de atingir a falência é ter uma boa ideia lucrativa, que só vai ser lucrativa nos primeiros meses porque será selvaticamente copiada até à exaustão: videoclubes; lojas de posters; ginásios; casas de frangos; lojas de artesanato; restaurantes; cibercafés; etc.
Conclusão: tudo tem de dar lucro no muito curto prazo, um princípio que não é nada saudável para o futuro económico, quer do negócio, quer do país

[Humor Negro]

maio 01, 2006

Globalizacoiso

estreladeradio

Video killed the radio star. Sempre que me falam em globalização o meu cérebro vagueia invariavelmente por esta música simpática dos velhotes Buggles. Goste-se ou não a globalização matou, a dada altura, a maior parte do que era feito localmente. Este não é um post anti-globalização, até porque pessoalmente acho que esta nos tornou mais conscientes do mundo à nossa volta – por vezes demasiado conscientes para o meu gosto. Este é um post com o mesmo travozinho saudosista e atravessado pela mesma alegria adolescente e inconsciente da música original. É um post «que se lixe». Que se lixe já não termos os iogurtes Longa Vida; que se lixe a Pasta Medicinal Couto; que se lixe a Laranjina C; que se lixem programas de rádio que nos faziam acordar cedo como o Pão com Manteiga (de um rapazinho que hoje está indiciado por pedofilia); que se lixem os Rajás, os chocolates Regina e as Bombokas; que se lixem os Pilote, os Cavaleiros Andantes, e os Tintins coleccionáveis; que se lixem o ZX Spectrum e o Atari; que se lixem os Sanjo (esbirros nacionais dos All Star); que se lixem os pirulitos e as pastilhas Gorila. Que se lixem o Subbuteo, e o Ludo, e a sueca.
E viva a globalização! Normalizada, instantânea (sem juntar água), e em directo. Vivam as frutas gigantes e brilhantes a saber ao mesmo; viva a fast food que nos garante que tudo sabe igual em locais diferentes; viva a roupinha para betos, para dreads, para grunges, para góticos, e para surfistas; vivam os bifes de vaca lúcida e os frangos sem febre. E acima de tudo vivam os blogs, a expressão máxima e positiva daquilo que é a globalização – e que nos mostram diariamente que, apesar de tudo, encerramos em cada um de nós um imenso universo nunca globalizável.
Passem um grande e globalizante dia.

[Humor Negro]

abril 30, 2006

Tá Grilado, Bicho?

grilo falante
Da série «histórias mal contadas» temos o Pinóquio: a história de um velho pedófilo de nome Gepeto que, numa altura em que ainda não existiam bonecos insufláveis com orifícios em pontos-chave, decide fazer um menino de pau para dar largas à sua perversão. Não vamos aqui discutir a matéria-prima escolhida pelo velho, podia ter escolhido silicone, esponja ou outro material, mas escolheu madeira e o gajo é que sabe, e isso agora não interessa nada.
Um belo dia, sem mais nem porquê, o menino de pau feito ganhou consciência. Desatou a falar que nem uma criança normal, e a fazer as barbaridades que as crianças normais fazem, com uma particularidade curiosa: sempre que dizia mentiras crescia-lhe o nariz. Até aqui não há nada de novo, tirando aquela referência semi-fálica do nariz, que também não interessa nada para este post.
O que realmente interessa aqui é a personagem que se torna amiga do menino de pau feito: um grilo. Um grilo falante capaz de enervar a criatura mais plácida. Um insecto que partia constantemente a cabeça do menino de pau feito, dizendo-lhe o que devia e o que não devia fazer. Uma espécie de Marques Mendes a chatear a bancada socialista por dá cá aquela palha. Todos nós temos este maldito grilo a chatear-nos diariamente. Mas há alguns de nós que dão uma utilização criativa ao grilo – é o caso de Ernesto Guevara que tinha um grilo que lhe dizia para ir dar uma volta pela América Latina; é o caso de Richard Branson, da Virgin, que há anos que tem um grilo a mandar-lhe dar uma volta ao mundo de balão; é o meu caso, que a dada altura tinha um grilo a mandar-me despejar num blog todos os disparates que me vêm diariamente à cabeça.
O que é importante reter aqui é que nem todos os grilos são de qualidade. Há grilos que são perfeitos anormais. Há grilos que não podem, nem devem, ser levados a sério. Mas na maior parte dos casos, os grilos dão-nos boas dicas. Há grilos verdadeiramente geniais. Ouçam o vosso grilo.


[Humor Negro]

abril 28, 2006

A Maçã de Eva

adaoeeva
Se há por aí história mal contada é aquela de Adão e Eva no paraíso. Senão vejamos: Deus cria o Homem (entre outras coisas) e manda-o para o paraíso. Isto já de si é suspeito. Porque não o mandou para outro sítio qualquer? Porque não o mandou à merda? Nunca saberemos, mas o que é certo é que o Homem lá foi diligentemente para aquilo que Deus convencionou por paraíso. Na realidade era um pardieiro vazio, sem interesse nenhum e completamente despovoado. Não fossem umas arvorezinhas aqui e ali e assemelhar-se-ia ao Alentejo profundo. Diz a história que Adão, farto de contar as árvores, que nem eram tantas como isso, meteu um requerimento a Deus para lhe arranjar companhia. Distraidamente Deus mandou-lhe uma ovelha e rapidamente descobriu o significado da contranatura. Decidiu então fazer um truque com uma costela de Adão, criando dali uma companheira para o entediado mamífero. Chamou-lhe de Eva.
Ainda hoje a ciência tenta perceber que conhecimentos de genética o gajo tinha para fazer um truque daqueles.
A questão das roupas é insidiosa… se os gajos estão no paraíso porque diabo têm que usar parras a tapar-lhes a genitália? Armani e Prada seriam mais plausíveis, bolas! Afinal de contas que paraíso era aquele??
Depois vem outra parte incongruente: aquela em que Deus, num lampejo de autoridade tipo «quem manda aqui sou eu e vou inventar uma merda para vos deixar a matutar» decide embirrar com as maçãs e proibir Adão e Eva de as comer. Qual é o problema das laranjas? E das papaias? Porque não proibir as bananas? Ou toda a gama de frutos secos? É só incongruências…
Chegamos então à parte da cobra que falava. Tudo bem. Eu até ter ouvido as declarações de Fátima Felgueiras, achava que as cobras não falavam, portanto isto até faz algum sentido no meio desta trapalhada toda. Mas a questão é que a cobra de Adão e Eva demonstra uma obsessão voyeurística qualquer por maçãs. Gosta de as ver serem comidas. Há gostos para tudo…
Finalmente os gajos comem a maçã e Deus aparece para os expulsar do paraíso e não se fala mais nisso. Porquê? A história acaba aqui porquê? E a vida porca que eles levaram depois, com a obsessão insidiosa que Adão desenvolveu por ovelhas? Nem Sócrates contava tão mal uma história destas…

[Humor Negro]

abril 13, 2006

O oryctolagus cuniculus da época pascal

Oryctolagus cuniculus
Sempre que chega o Domingo de Páscoa lembro-me daquela história mal contada do coelhinho de Páscoa e da sua estranha ligação aos ovos de Páscoa. O que leva um coelho a distribuir ovos pintados? E onde é que o coelho arranja os ovos? E quem os pinta? Tudo mistérios insondáveis…
A história deste roedor está cheia de lacunas por preencher, o que sugere que deverá haver alguma javardice oculta nisto tudo. Na realidade o coelho é um libertino doidivanas, com um serissimo desvio sexual, que mantém uma relação poligâmica e contranatura com algumas aves. As coelhas não lhe despertam qualquer sentimento libidinoso, e muito menos monogâmico. O coelho enveredou por esta vida porca sem medir as consequências, e quando percebeu que pela lei da natureza nenhum animal estava autorizado a procriar fora da sua espécie, arranjou um esquema que desviasse as atenções alheias da sua vida de alegre e frenético concubinato.
Decidiu assim distribuir gratuitamente as provas da sua virilidade, não sem antes lhes dar um aspecto decorativo e insuspeito. No início começou a distribuir os ovos na época de carnaval, mas não aguentando ver a sua prole esborrachada nas paredes durante as batalhas de foliões, decidiu avançar para a época festiva seguinte, tendo vir parar à Páscoa. Há vidas muito tristes.


[Humor Negro]

abril 06, 2006

A Sustentável Improbabilidade do Ser

improbabilidades
Faz as contas comigo. Se aos teus pais não lhes tivesse dado para a brincadeira naquela noite tu não estarias neste momento a ler este texto. E se os pais deles não se tivessem enrolado naquelas precisas noites, também aqui não estarias. Aliás, se os avós e os bisavós, e todos os outros antes, não o tivessem feito, era pouco provável que estivesses a tentar seguir o meu raciocínio.
Para tu estares aqui a ler o post houve muita gente envolvida. Recua por exemplo 8 gerações e já tens 250 pessoas a enrolar-se para aqui chegares. Se continuares a regredir até ao tempo de Shakespeare vai ter 16.384 antepassados a trocar fluídos em teu favor. Há 20 gerações, o número de pessoas que procriaram em teu proveito ascende a 1.048.576. Cinco gerações antes disso houve pelo menos 33.554.432 homens e mulheres de cujas inspiradas uniões a tua existência depende.
Se recuarmos ao tempo dos lusitanos de Viriato, há 64 gerações, este número de cúmplices aumenta para um milhão de trilião. E aqui é que está o busilis da coisa: um milhão de trilião é um número mil vezes superior ao número de todas as pessoas que alguma vez habitaram este pequeno planeta.
Significa isto que eu fiz mal as contas? Não. As contas estão feitas para linhagens puras, ou seja, considerando trocas bem sucedidas de fluídos de pessoas de familias diferentes. Assim sendo, sabes o que tudo isto significa?
Que para tu hoje chegares aqui houve incestos para caraças!!

(inspirado por Bill Bryson e a sua «Breve História de Quase Tudo»)

[Humor Negro]

abril 04, 2006

Alguém trouxe as alianças?

starwars
Sou um fã da primeira trilogia do Star Wars e acho que a paneleirice dos efeitos especiais de última geração que tomaram conta da segunda trilogia, tornaram o produto final mais pobre. Ainda assim divirto-me com os seis episódios. Não haja dúvida que aquilo é mesmo ficção científica, mas não pelo facto de retratar um possível futuro e envolver naves espaciais, galáxias distantes, e seres esquisitos à porrada com andróides. Aquilo é ficção porque supostamente retrata uma aliança humana que, sabemos hoje, seria impossível de obter.
Imaginem que o exército revoltoso da Aliança era formado pelos 25 países da união europeia, e conseguem ter uma perspectiva daquilo que provavelmente aconteceria.
Os franceses recusar-se-iam a combater pela Aliança até que esta adoptasse o francês como língua oficial. Os ingleses formariam um grupinho à parte e nunca se perceberia se faziam parte da Aliança ou não. Os alemães fariam campos de extermínio de droids e siths e ficariam assim entretidos. Os holandeses evitariam andar à porrada e praticariam uma política de tolerância com as forças Imperiais, procurando retirar dividendos daquilo a que chamariam uma “parceria comercial sem fins políticos”. Os espanhóis atiravam-se de peito feito a todas as naves imperiais e extinguir-se-iam logo de seguida. Os italianos criariam uma unidade especial de combate (os carabinieri rabetini) especializada em atacar o Império pela rectaguarda, mas só depois de terem recebido as "luvas" de combate. Os dinamarqueses andariam felizes como a merda a conduzir as suas naves todos nús, promovendo alegres orgias inter-estelares. Os gregos criariam a «Ala dos Namorados», uma força gay de intervenção, distinguindo-se por usar sabres de queijo feta com uma mestria capaz de engordurar qualquer soldado do Império. Os belgas especializar-se-iam em desbastar as crianças Sith. Os polacos, lituanos, checos e todas as nações do leste europeu, combateriam valentemente a qualquer preço, desde que não os mandassem embora da Aliança. Os portugueses, esses rapazes do Quinto Império, nunca teriam qualquer intervenção no conflito. A bordo da sua única nave, um chaço comprado a prestações e em segunda mão pelo ministério da defesa, chegariam sempre tarde a qualquer batalha interestelar, conquistando a alcunha de “o cú da Aliança”. Pequeninos e ruidosos, sempre em autocomiseração, percorreriam galáxias em direcção a lado nenhum. O costume…
May the force be with you.


[Humor Negro]

março 29, 2006

Eh toiro lindo!

tourada
Quando analisada e descrita sob uma perspectiva turística, a tourada é considerada uma afirmação de virilidade e supremacia física do homem face à besta. Para mim a tourada é a prova cabal que a estupidez e a bestialidade humanas não só não têm limites, como gostam vaidosamente de exibir essa evidência.
Não sou nenhum fundamentalista dos direitos dos animais: gosto do belo bife e da suculenta bifana, e não entro em depressão quando mando abaixo um fondue de carne, mas decididamente não gosto de tourada.
Somos muito lestos a julgar a crueldade humana quando ela é exercida sobre humanos. Montamos verdadeiros espectáculos mediáticos para difundir a sua punição exemplar: aquele que normalmente me vem à cabeça é o julgamento dos nazis em Nüremberg, mas há muitos outros “nürembergers” por aí. No entanto desculpabilizamo-nos à brava quando a nossa crueldade é glorificada, espectacularizada, e aplicada nos animais. Até parece que o facto de termos um cérebro mais desenvolvido nos dá o direito de acharmos que tudo isto nos pertence. A tourada é só um exemplo deste abuso de inquilino. Um exemplo circunscrito a Portugal e Espanha e a mais umas quantas novelas sul-americanas (estou a excluir a tourada com velcro no Norte da Califórnia, porque isso já nem se pode considerar tourada).
Sinto uma compulsão irreprimível de pontapear repetidamente as gengivas de quem me diz que a tourada portuguesa é mais “humana” que a espanhola porque (alegadamente) não matamos o touro. E quando surge a recorrente polémica bacoca dos touros de morte em Barrancos, só me apetece tornar S. Bento numa Pamplona, e fazer uma largada de touros no parlamento. Mais “humana”?? A tourada portuguesa é uma tourada apaneleirada!
Em Espanha os cornos dos touros não são protegidos; se acertarem no toureiro perfuram-no (e muito bem!). Em Portugal os touros são “embolados”, protegem-se os cornos para não ferirem ninguém. Mas que paneleirice é esta? Então não queriam provar a virilidade?
Em Espanha matam-se os touros na arena. Em Portugal não: depois de o sangrarem cobardemente com ferros e bandarilhas, salgam-lhes as feridas (alguém já uma vez colocou sal numa ferida? Experimentem...), e abatem-nos fora dos olhares alheios. E depois vêm dizer-me que é mais “humano” e ficam todos histéricos com os touros de morte de Barrancos...
Eu acho que a manter-se a estupidez da tradição tauromáquica se devia dar uma oportunidade ao touro. Em vez de fazerem as “pegas de caras” quando o touro já perdeu as suas forças, dilacerado e sangrado por aqueles bandalhos rabetas a cavalo, devia fazer-se a “pega” logo no início do espectáculo, quando o touro está fresquinho e vivaço, e ninguém o segura. E devia “desembolar-se” o touro, para a coisa ser a sério. Desconfio que a taxa de mortalidade dos participantes seria tão alta que rapidamente se decretaria o fim da tradição.
O primeiro mamífero que eu colocaria à frente do touro seria a Fátima Lopes, essa javardolas que gosta de animais peludos à boa maneira de Hannibal Lecter. O touro iria certamente ter muito gosto em toureá-la em profundidade, qual somali desenfreado, e sem mãos – só com os chifres. OLÉ!

[Humor Negro]

março 28, 2006

Reengenharia Celestial

limbo (I)
O recém chegado Papa Bento XVI convocou, no início do ano, uma comissão de trinta teólogos com o objectivo de acabar com o Limbo. Para quem está menos informado sobre a arquitectura do edificio celeste, o Limbo é aquele andar entre o Céu e o Inferno, para onde vão as almas de todas crianças, bébés e fetos que morrem sem que tenham sido baptizados. O Limbo, que existia desde o século IV, altura em que São Gregório, o Teólogo, decidiu construir uma mezzanine no Inferno, passou a ser levado a sério depois de umas obras de restauro levadas a cabo por São Tomás de Aquino no século XIII, altura em que ganhou um estatuto de assoalhada (muito embora o seu pé direito fosse muito reduzido, dado que foi espaço ganho ao inferno, nunca ninguém se preocupou muito com isso porque as crianças nunca atingiam alturas acima do metro e meio). No início do século passado, o Papa Pio X garantiu a pés juntos que o Limbo existia e que as almas das crianças não baptizadas estavam lá – tendo apresentado na altura vários dossiers com os nomes e idades dos residentes.
A existência do Limbo nunca foi pacífica, dado que era considerada um regime de apartheid celestial: uma criança índia que nascesse e morresse no meio da selva sem nunca ter ouvido a Palavra do Senhor (muitos consideram que essa palavra é «rabanete», embora ninguém esteja muito certo disso, havendo uma escola mais radical que afirma que a palavra é «zingarelho») nunca teria possibilidade de chegar ao Céu, e o mais que podia era candidatar-se a um lugar no Limbo, simplesmente porque o canal de distribuíção da Igreja não fazia entregas naquela zona da sua selva. Uma escandaleira discriminatória, como bem se vê.
Foi exactamente este princípio de apartheid que levou o Papa Bento XVI a rever a existência do Limbo e a iniciar a sua extinção, o que irá tornar as coisas mais complicadas doravante uma vez que, sem o Limbo, os católicos e os membros de uma série de outras religiões irão concorrer em pé de igualdade por vagas nos mesmo lugares – Céu, Inferno e Purgatório. E sabe Deus como estes dois últimos estão lotados...


[Humor Negro]

março 26, 2006

De pais para filhos

pedagogica
Aqui fica uma boa maneira de entreter o vosso filho de quatro anos quando o metem na cama e, ao mesmo tempo, de lhe estimular a imaginação:
«Vim desejar-te boa noite e ajeitar-te os lençóis, Joãozinho. Tiveste um dia em cheio, por isso, trata de dormir bem. E não te esqueças de ter cuidado com o Papão. Lembras-te do que o pai te disse sobre o Papão? De como mata rapazinhos? O que achas Joãozinho, achas que o Papão está aqui escondido no teu quarto? Será que está no armário? Será que vai saltar lá de dentro e matar-te mal eu me vá embora? Pode ser que sim. Nunca se sabe.
Talvez esteja debaixo da cama. Também gosta de se esconder lá. Se calhar vai abrir um buraco no colchão e matar-te. Não deixes que ele te mate Joãozinho. Sabes o que ele faz? Espeta um tubo de metal afiado pelo teu nariz e chupa-te os miolos. E isso dói muito.
Agora, vou apagar a luz e deixar-te sozinho no escuro. E não quero ouvir barulho. Se ouvir algum barulho vindo deste quarto, venho cá e bato-te. Tenta dormir bem. A propósito, o pai viu um monstro a passear no corredor ontem à noite. Tinha um papel na mão com o teu nome escrito. Boa noite.»

Escrito por George Carlin

[Humor Negro]

março 17, 2006

Pronto... já me entalaram!

entalado
Cerco de Lisboa. Ano de 1147.
Mal sabia Martim Moniz, a correr alarvemente para a fresta de uma das portas do Castelo de São Jorge (hoje designada por Porta de Martim Moniz), que estava a iniciar uma tradição. Ao morrer entalado na porta do castelo que queria tomar, permitindo assim que os seus companheiros penetrassem nas defesas inimigas, Martim Moniz deu origem a uma das mais antigas tradições nacionais: a tradição do entalado.
Desde esse momento, gerações e gerações de indivíduos entalaram-se alegremente para que outros pudessem safar-se à grande e à portuguesa, neste jardim à beira-mar adubado.
Desde então pouco mudou, à excepção de uma pequena nuance: são cada vez mais os entalados – pouco menos de 10 milhões, para ser mais preciso.

[Humor Negro]

março 14, 2006

Jizazz Reloaded

palavra do senhor
Quando Jesus fez a sua série de workshops com os 12 apóstolos deu-lhes instruções para que, após a sua morte por crucificação e empalamento, corressem o mundo e difundissem a Palavra do Senhor. Azar dos azares, Jesus nunca conseguiu dar o último módulo do workshop dedicado a «Coisas Que Devemos Dizer Para Arranjar Mais Sócios». Falou-lhes dos Milagres, falou-lhes do Céu & Inferno, falou-lhes na Vida Eterna mas, quando ia falar na Palavra do Senhor, um destacamento de romanos entrou-lhe pelo auditório adentro (o Judas havia-se chibado por não estar de acordo com as propinas do workshop) e levaram-no, e crucificaram-no, e empalaram-no. E finito. O tipo morreu sem dizer concretamente que Palavra era aquela.
Os apóstolos ainda tentaram fazer um brainstorming, com os conhecimentos adquiridos até à data, de modo a conseguirem chegar a algo que se assemelhasse ao que eles achavam que seria a Palavra do Senhor, mas tirando aquela cena da ressuscitação (onde todos estavam de acordo que era uma história do caraças e que merecia ser contada), não conseguiram chegar a uma conclusão sobre qual seria a Palavra do Senhor. E assim cada um deles foi à sua vida escrever e pregar sobre a sua visão de Deus e de Jesus, e cada um deles achou que sabia qual era a Palavra do Senhor.
Pedro, João e Tiago (o Maior) achavam que a Palavra do Senhor era «rabanete». Chegaram a esta conclusão depois de terem proferido uma série de outras palavras. Na altura em que proferiram «rabanete» aconteceram umas coisas esquisitas: a terra tremeu, a garrafa de vinho caiu de pé, e os cães começaram a uivar. E a partir daí, desconhecedores da escala de Richter, acharam que tinham descoberto a Palavra.
Filipe, Bartolomeu e Tomé haviam decidido que a Palavra era «Oréops!», mas só porque gostavam da sua sonoridade, dado que não há qualquer registo que algum fenómeno natural tenha ocorrido quando esta foi inicialmente pronunciada. Tomé era aquele que a usava mais, principalmente quando treinava o seu triplo salto encarpado de costas, nas margens do Mar Morto.
Tiago (o Menor), Mateus e Judas Tadeu, eram apologistas fervorosos da Palavra «Porra», a última palavra que ouviram da boca de Jesus. Achavam que não era uma simples interjeição nascida da sua inconfortável posição na cruz. Acreditavam piamente que se aquela foi a última palavra de Jesus, é porque aquilo devia ter um segundo sentido qualquer. Um sentido celestial.
Finalmente, os dois apóstolos mais radicais, André e Simão tinham «zingarelho» como a verdadeira Palavra do Senhor. Tinham-na ouvido da boca de Maria Madalena quando pela primeira vez recorreram aos seus serviços. Ela apontou para as tripas de porco e disse-lhes: «ponham lá os zingarelhos, que isto não é da Joana». Depois dos zingarelhos postos Maria Madalena deu-lhes uma experiência celestial que eles nunca mais esqueceriam. E desde aí a Palavra do Senhor passou a ser um grande «zingarelho». Bem... no caso de Simão nem era tão grande como isso.

[Humor Negro]

março 13, 2006

Escuta:

escuteiros
Crianças vestidas de idiotas lideradas por idiotas vestidos de crianças. Se há organização juvenil que me irrita de sobremaneira são os escuteiros (eles gostam que lhe chamemos de escoteiros), todos fardadinhos de meiazinhas pelo joelho, cantando a marchar em direcção a um qualquer bosque onde irão exercer os seus rituais de plástico, inventados por um gajo que para além de pedófilo, gostava de se automutilar na genitália usando o seu canivete de mato. Sim, Baden Powell tinha problemas. O que eu não percebo é porque ao fim destes anos todos, estas criaturas continuam a povoar o planeta, divididos por agrupamentos, grupos, alcateias e clãs.
Os escuteiros fazem-me lembrar aquelas tribos perdidas do Amazonas, que continuam a fazer a sua vidinha alheadas daquilo que se passa à sua volta, com uma agravante: os gajos não estão no Amazonas. E é uma pena.
Os idiotas vestidos de crianças ainda os percebo: o mundo dos adultos é muito feio e os gajos recusam-se a crescer, quais Peter Pans com atraso mental e problemas de integração. Para eles nada é melhor que usar o belo do calçanito e uivar à lua até à idade da reforma. Há quem use drogas, estes preferem os calções. Mal por mal, os calções são mais baratos.
Quem eu não percebo mesmo são as crianças. O que leva um jovem mamífero a usar um calção ou uma saia plissada e a desbravar mato como se não houvesse amanhã? Quão motivador pode ser saír em grupo para observar a nidificação das garças reais? Que excitante poderá ser acender uma fogueira usando duas pedras e um isqueiro?
Será que existe um tratamento de electrochoques que lhes resolva isto?
Enquanto não vislumbro uma resposta concreta para este fenómeno vou continuar a achar que tudo isto é um grande equívoco: que na realidade os escuteiros são uma fachada para deboches dionísicos no mato – tudo direitinho e compostinho até à zona mais cerrada do bosque, e a partir daí ninguém é de ninguém, tudo nú, mais cavalos e anões. Baden Powell style, somalis não incluídos.


[Humor Negro]

março 10, 2006

Incha Alá!

muhammad cartoons
Desde que os dinamarqueses fizeram umas caricaturas de Maomé que os muçulmanos andam armados em alarves a destruír embaixadas por todo o mundo árabe. Na Turquia, esse país a resvalar perigosamente para a União Europeia, mataram um padre à conta de uma dúzia de rabiscos nórdicos. Para um ocidental parece um bocadinho excessivo, este protesto muçulmano...
Isto leva-me a pensar na violência latente do mundo árabe, no apedrejamento de mulheres, nas execuções públicas, nas chibatadas também elas públicas. Não acho normal esta violência e não concordo que esta tenha origem na religião, ou no Corão, se quiserem. O Corão pode ser culpado de muita coisa, mas não o é da violência compulsiva do fundamentalismo islâmico. Na minha opinião o problema disto tudo é da poligamia.
Já viram bem o que aqueles gajos sofrem diariamente? Façam as contas comigo: aquela malta tem mais de uma mulher, na pior (ou melhor) das hipóteses têm duas mulheres. O mais vulgar é terem umas cinco ou seis. Estão a imaginar o que é aturar 6 mamíferos diariamente? 6 gajas a chatear-vos a cabeça diariamente, cada uma com o seu lote de filhos babosos e choramingões, e com as suas crises de TPM a PARTIR-VOS CIRURGICAMENTE A CAROLA numa base diária? Imaginem o que vocês passam diariamente e agora multipliquem por seis, ou por sete, ou por vinte! Conseguem imaginar o estado de nervos em que vocês viveriam? Qual era a maneira que vocês teriam de lidar com esta questão? É claro que tinham que saír de casa e extravasar: punham bombas à volta da cintura e iam ao centro comercial mais próximo; iam dar porrada nos vizinhos israelitas; e em dias mais complicados É CLARO QUE SE CHATEAVAM COM A MERDA DOS CARTOONS!! Até se chateavam com a falta dos cartoons, se fosse caso disso.
Portanto antes de criticarem gratuitamente estes protestos anti-cartoon pensem no que estes desgraçados penam diariamente. Ponham-se nos sapatos deles. E depois digam-me se também não iam arrear na malta do consulado mais próximo.

[Humor Negro]

março 08, 2006

A arte de desenvelopar em toda a sela

envelope
Nos tempos da outra senhora estava toda a gente proibida de abrir o envelope. Dava direito a prisão e tudo. Não significa isto que eles permanecessem fechados, e que a malta acatava a proibição. Não. Os envelopes continuavam a abrir-se em segredo, à porta fechada, e embora houvesse zunzuns que fulano tinha aberto o envelope, não passavam disso mesmo. Zunzuns.
Depois houve a revolução e as coisas mudaram gradualmente. Aqui e ali foram-se abrindo uns envelopes, timidamente. Apesar da liberdade, a malta não estava ainda muito habituada a abrir o envelope assim abertamente, de chofre. E muita gente deixou o envelope por abrir. Ficou lá por casa, arrumado algures entre os livros, na vã tentativa de se esquecerem dele, para não caírem na tentação de o abrir. E o tempo foi passando.
O país, antes fechado em si próprio e desconhecedor do mundo à sua volta, começou a olhar para fora e a ver que lá fora já muita gente tinha aberto o envelope, e que apesar disso tinham uma vida normal. E aí começaram a perder a timidez e desataram a abrir o envelope como se não houvesse amanhã. De repente toda a gente tinha um amigo que abriu o envelope. Um vizinho que abriu o envelope. Um colega de trabalho que abriu o envelope. De repente abrir o envelope dava direito a desfile, com o envelope aberto bem alto, na mão. Abrir o envelope passou a ser um acto normal, até que um dia quiseram torná-lo moda e invadiram as televisões de programas com malta que acenava, histérica, o seu envelope aberto para toda gente ver. E desde esse dia abrir o envelope passou a ser uma caricatura. Consentida. Mas uma caricatura. E muito envelope continuou por abrir.

[Humor Negro]

março 07, 2006

Para camionetes com uma caixa mais modesta

noçao
Episódio I
Afonso de Albuquerque, depois de ter destruído vários portos tributários do Rei de Ormuz decidiu, ao comando de seis naus com cerca de 400 homens a bordo, entrar na baía de Ormuz tendo ficado cercado por 250 navios de guerra inimigos a que se juntava um exército em terra de cerca de 20.000 homens. Quando o Rei mandou um emissário a bordo para saber quais as suas intenções, Afonso de Albuquerque enviou-lhe uma curta mensagem: «Renda-se!»

Episódio II
Uma caravela portuguesa levava ostensivamente a bandeira das quinas no seu mastro mais alto ao entrar na baía de Cádiz, onde se encontrava a esquadra do Rei de Espanha, naquele tempo conhecida por «Invencível Armada». Interpelado pelos espanhóis para baixarem o seu estandarte à entrada do porto, abriu fogo à esquadra inteira, causando-lhe danos significativos e, após ter passado em combate por toda a fileira de navios de guerra espanhóis, acabou por saír incólume do porto de Cádiz, fugindo para Portugal.

Episódio III
No verão de 1574 D. Sebastião decidiu, sem prevenir ninguém, fazer uma investida a África deixando a corte em pânico sem saber onde estava o seu Rei. Quando desembarcou com meia dúzia de fidalgos alucinados em Ceuta os árabes retiraram pensando que aquele era um grupo avançado de uma força maior. Sem ninguém para combater, D. Sebastião ruma a Tânger onde lhe acontece o mesmo. Frustrado, volta para casa sem ter conseguido andar à porrada.

A nossa história está recheada destes episódios que demonstram que, ao longo dos tempos, o povo português nunca teve grande noção do que andava por aí a fazer. Podemos romanticamente acreditar que tudo isto não era mais que coragem, bravura, e temeridade. Mas a realidade é que desde os primórdios que somos uma cambada de inconscientes sempre de peito feito, para o que der e vier. Por isso, quando vejo na televisão que os portugueses se estão nas tintas para a gripe das aves, e para as vacas loucas, e para os nitrofuranos, lembro-me invariavelmente da nossa ancestral e encantadora falta de noção.

Vem-me sempre à cabeça a resposta do capitão António da Silveira, cercado pelos turcos em Diu:
«Fiquem sabendo que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros e têm por capitão António da Silveira, que tem um par de tomates mais fortes que as balas dos vossos canhões e que todos os portugueses aqui têm tomates e não temem quem não os tenha!».
Delicioso. Que falta de noção num excesso de nação.

Foto de Fotoben

[Humor Negro]

março 06, 2006

De tara completamente perdida

tara perdida
Os filósofos chamam-lhes de cortes epistemológicos. A maltosa do dia a dia é mais despudorada, ou eufemística se quiserem, e intitulam-no de «a puta da realidade».
A verdade é que há alturas em que as coisas não voltam a ser o que eram. A tara perdida é uma delas. A partir do momento que uma alma iluminada decidiu criar a tara perdida, Portugal nunca mais voltou a ser o mesmo. Até aquele momento tínhamos a nossa tara: podia até ser uma tara inconsequente, pequenina, insignificante, rídicula. Mas era a nossa tara. A tara que fez com que um pastor andasse à calhauzada com romanos nos Montes Hermínios; a tara que fez com que um gajo mandasse um par de lambadas na mãe e desatasse a fundar que nem um desalmado; a tara que fez com que meia dúzia de gajos numa casquinha se fizesse ao mar para dar novos mundos ao mundo; a tara que fez com que um puto maluco comprometesse à grande os destinos da nação; a mesma tara que fez com que uma gaja arreasse à grande e à portuguesa com uma pá num grupelho de labregos castelhanos; a tara que fez com que a língua portuguesa fosse muito maior que o território nacional; e que um grupo de chavalos capitães decidisse tomar o país de G3 carregadas de cravos vermelhos.
Depois da introdução da tara perdida não voltámos a ser os mesmos. Perdemos a tusa, dizem uns. Perdemos a noção dizem outros. Perdemos aquela dose de loucura que sempre fez com que nós, desde sempre um pequeno país no ponto mais ocidental da Europa, achássemos que éramos muito (mas muito mesmo) maiores que os nossos mais selvagens sonhos.
Hoje, com a tara perdida algures por aí e sem esperanças de alguma vez a reencontrarmos, somos a exacta imagem do nosso Primeiro Ministro: um gajo de voz esganiçada e de atitudes titubeantes, que mente todos dias ao país e a si próprio, sem tara nem objectivos.
Alguém procure a tara s.f.f.

[Humor Negro]

março 01, 2006

A Lei da Compensação

compensacao
O efeito borboleta é uma teoria romântica mas interessante. Afirma que o bater de asas de uma borboleta num ponto do planeta causa um tsunami no outro lado do planeta. Causa e consequência.
As religiões ocidentais também abordam esta questão com frequência, postulando que toda a acção tem uma consequência, benéfica ou não, dependendo da natureza ética dessa acção. Isto significa que se fôrmos mauzinhos em determinada circunstância, acabamos por receber de volta a paga da nossa maldade. Os anglo-saxónicos expressam isto de uma forma muito simples, na frase “what goes around comes around” – uma espécie de boomerang ético, passível de nos acertar em cheio na tromba quando nos portamos bem, ou quando nos portamos mal. A sabedoria popular também contém uma expressão que se aplica: “cá se fazem cá se pagam” (uma derivada simplista da visão cristã do sistema de admissão das alminhas no céu ou no inferno).
Eu não gosto da designação “efeito borboleta”: remete-me sempre para um universo de paneleiragem inconsequente, fruto de estados de alcoolémia em bares de reputação totalmente duvidosa. Prefiro chamá-la de Lei da Compensação.
Portugal é terreno fértil para a Lei da Compensação. Senão vejamos:
- O Governo é incompetente e mentiroso e em compensação nós pagamos mais impostos.
- Os funcionários públicos são umas aventesmas catatónicas e em compensação os privados têm que trabalhar a dobrar.
- Os portugueses têm o défice mais alto da Europa mas em compensação ninguém tem umas praias melhores que as nossas.
- A produtividade das empresas portuguesas é algo que inspirava um episódio da twilight zone mas em compensação os empresários portugueses gostam de bujardar formas de aumentar a produtividade do país.
- O desemprego vai continuar a aumentar nos próximos dois anos mas em compensação mais gente terá tempo livre para usufruir do tempo solarengo que nos caracteriza.
Perante tanta compensação é de estranhar que sejamos um dos povos mais descompensados do mundo, a julgar pela quantidade de anti-depressivos que mandamos para o bucho diariamente.

[Humor Negro]

fevereiro 27, 2006

Não façam caso.

caso
Há palavras lixadas no vocabulário nacional. Daquelas que têm tantos sentidos que deixam um estrangeiro esquizofrénico e só são entendidas em contexto pelos nacionais porque na realidade a esquizofrenia faz parte da nossa portugalidade. «Caso» é uma dessas palavras. A aplicação desta palavra em contextos diversos assume significados múltiplos que só os portugueses conseguem descodificar.
«Ter um caso», por exemplo, implica necessariamente a presença de alguém que partilha esse caso connosco. Para se ter um caso, tem que se ter um caso com alguém. Nunca se pode ter um caso sózinho, ou na pior das hipóteses pode-se, mas teremos simultaneamente de «ser um caso clínico».
Quando dizemos «um caso sério» já não estamos a falar de relações fortuitas entre pessoas, porque «ter um caso» é algo que, supostamente, não é sério. Se fosse sério não seria um caso. Seria uma relação. Isto significará portanto que qualquer relação é «um caso sério».
«Não fazer caso» é algo que fazemos sózinhos sem que nos acusem de padecer de qualquer desarranjo mental desviante. Mas é algo que não podemos fazer numa relação sob pena de nos acusarem de falta de atenção. Se tiverem uma relação, sigam este conselho: façam muito caso, mas daquele sério ok? Porque se fôr do outro não terão essa relação por muito tempo. Adiante…
«Estar a trabalhar num caso» não significa estar a arrastar a asa a alguém. Implica desenvolver um profissão normalmente ligada à área jurídica, ou de investigação policial. Se ter um caso é algo que se desenvolve como exercício de lazer, trabalhar num caso implica uma especialização profissional.
O caso também pode ser entendido como causa para um determinado efeito. E aí chama-se «caso para isso». Por exemplo, um homem descobre que a sua mulher teve «um caso« com o padeiro, fica muito enervado, acha que aquilo é um «caso sério» e fica prontinho para arrear um camaçal de porrada naquele cabrão enfarinhado. É nessa altura que um amigo lhe diz «Oh pá, não é caso para para estares tão enervado, deixa lá as coisas connosco que a gente esta noite rebenta-lhe com a padaria toda». Se o cornudo «não fizer caso», alguém no dia seguinte vai «trabalhar no caso» da padaria que implodiu no centro da cidade. E explicar isto tudo a um estrangeiro?

[Humor Negro]

fevereiro 23, 2006

Tooooodos lá dentro. No país da querida.

Labrego Nacional
País de longa tradição no desenvolvimento do labrego nacional, Portugal chegou a um ponto de saturação do número de labregos per capita. Dados recentes do INE apontam para que a população labrega seja neste momento muito superior à portuguesa. «Começamos a ter dificuldade em separar os portugueses dos labregos, uma vez que os primeiros parecem ter sido perfeitamente aculturados pelos segundos» afirma o responsável máximo por esta instituíção.
O Governo já admitiu ser maioritariamente constituído por labregos de 2ªgeração, não prevendo que a situação se altere nos próximos 4 anos, o que coloca Portugal no primeiro país europeu a ter uma maioria de população labrega, governada por labregos.
O impacto do nacional labreguismo já começou a sentir-se na economia nacional – é característica do labrego a completa ausência de noção de gestão, o despesismo descontrolado e tendencioso, uma compulsiva tendência de prometer uma coisa, fazendo exactamente o contrário, e a fuga a toda e qualquer espécie de imposto.
Especialistas internacionais no fenómeno expansionista do labrego, afirmam que o processo é irreversível e que dentro de poucos anos Portugal não terá portugueses. Sugerem ainda que se comece a mudar nome do país para Labregal.
O número de escolas para labregos tem aumentado exponencialmente nos últimos 10 anos, com todos os inconvenientes que estas acarretam: taxas de insucesso escolar perto dos 100%, não pagamento de propinas, e uma tendência compulsiva de arrastões diários num raio de 2km em torno de cada escola.
O número de empresas labregas também aumentado, mas aqui a situação é menos grave porque, como se sabe, a duração de vida de uma empresa labrega é de um ano, exactamente o tempo que levam a esgotar-se os fundos europeus de incentivo à criação de empresas.
Estima-se um novo fluxo de emigração nacional com características muito diferentes das que assistimos na década de 60 do século XX: a mão-de-obra especializada e sem paciência para os labregos nacionais começa calmamente a abandonar o país.
Os labregos andam tão preocupados (fizeram contas e descobriram que os que ficam são todos uns labregos tesos) que lançaram esta semana o programa social “Adopte um Português”. Quem quiser ficar e ser adoptado por um labrego basta inscrever-se no centro de segurança social da sua zona de residência.
Cantem comigo o novo hino nacional: «Labregos do mar…»

[Humor Negro]

fevereiro 21, 2006

Num aviário perto de si...

aviario
Primeiro tinha sido o Ceausescu, esse pelintra fascista de primeira; e depois o Yonutz, um javardolas que um dia lhe apareceu lá à porta com uma mão atrás e outra à frente a pedir emprego no aviário, e dois meses mais tarde saíu de lá com as duas mãos na sua mulher. Alberto não gramava romenos e agora ouvia aquelas histórias das gripes nos aviários da Roménia... Decidiu fazer uma inspecção aos seus animais.
As vacas não tinham gripe. Estavam um bocado excitadas com qualquer coisa que Alberto não conseguiu identificar, reviravam os olhos, babavam-se copiosamente e saltavam que nem coelhos, mas aquilo não era gripe em lado nenhum do mundo.
As cabras também não tinham nenhuns sintomas de gripe, embora Alberto tenha estranhado a sua falta de pelagem a fazer lembrar os chiuauas. As ovelhas apresentavam uma pelagem azulada com fiapos de laranja e, em vez de balir, grasnavam. Mas nada de gripe. Os coelhos andavam esquisitos, pendurados de cabeça para baixo na antena de televisão, tipo morcegos. Ainda agarrou num e espetou-lhe um termómetro no rabo mas nada, estava impecável tirando aquele olhar vítreo. O burro espirrava insistentemente, mas Alberto sabia que aquilo não era gripe: o animal sempre tivera alergia aos fenos. Um pouco antes de chegar ao aviário Alberto deu uma vista de olhos nos patos. Tirando o facto de andarem todos a nadar de costas no lago e a grasnar algo que fazia lembrar um fado antigo do Vitor Espadinha, não detectou nada que se parecesse com gripe.
Finalmente chegou ao aviário. Estava estranhamente silencioso. Alberto aproximou-se pé ante pé e esgueirou-se numa portinhola: as galinhas percorriam todo o aviário em fila indiana e dançavam a conga em surdina; o galo estava deitado e regalado com 6 frangas e não tinha mãos a medir. Os pintos faziam mosh para cima dos ovos.
Nada de gripe, pensou Alberto, tudo normal.

[Humor Negro]

fevereiro 20, 2006

O Eterno Retorno ou Quem vai vai quem está está.

reencarnacao
H e D viveram um tórrido romance de amor. Eram almas gêmeas, diziam eles. Apaixonaram-se aos dois anos de idade, algures em 1423, casaram aos cinco, tiveram aos doze o primeiro de 38 filhos, morreram trisavós jurando amor eterno. H reencarnou numa foca no Ártico enquanto D, anos mais tarde, reencarnou num gnu em África. Depois H reencarnou num Panda na Ásia e D reencarnava num esturjão, algures no mar Ártico. O reencontro pareceu impossível durante gerações: H foi um crisântemo, um gladíolo, um rinoceronte com asma, uma avestruz com artrose, um golfinho com caspa, enquanto D foi uma galinha da Índia, uma vaca sagrada, um pinheiro bravo, e um jumento com gonorreia.
Um belo dia reencarnaram num homem e numa mulher. E reencontraram-se. Tinham ambos 20 anos. Voltaram a apaixonar-se perdidamente. Casaram. H tornou-se funcionário público e desatou a beber que nem um alce em época de cio. D trabalhava num escritório de contabilidade. Nunca tiveram filhos. H está preso por violência doméstica. D está com o braço esquerdo paralisado para o resto da vida. É lixada a reencarnação...


[Humor Negro]

fevereiro 17, 2006

Feng Shit

yinyang
Depois de ter sido verdadeiramente massacrado por um amigo arquitecto, que insistiu que eu me devia imbuír do espírito de Feng Shui para criar energias positivas numa vida que não me andava a correr lá muito bem, decidi fazer algumas alterações na minha casa, seguindo rigorosamente os seus ensinamentos:
Na entrada pendurei um Ba Gua raso. Não fica lá grande coisa e dá um ar folclórico à entrada mas é suposto ser um catalizador de excelentes energias. Disso e do couro cabeludo que lá deixei por ter pendurado aquela merda muito baixo.

Na maçaneta da porta de entrada pendurei 3 moedas chinesas numa fita vermelha, para atraír “dinheiro auspicioso”. Passam a vida a roubar-me as moedas, e eu passei a ser o melhor cliente da loja dos chinocas na esquina do meu prédio.

Comprei dois cães Fu em porcelana que coloquei do lado de fora da porta, um de cada lado, para guardar a casa. Os vizinhos gostam de lhes mandar uns violentos pontapés.

Instalei um pequeno lago artificial na varanda da casa, onde coloquei 8 peixinhos dourados e um peixinho preto. Era suposto o peixinho preto atraír tudo o que é negativo e indesejável, mas o sacana do peixe desatou a comer os peixes dourados e eu gasto uma fortuna a substituí-los todas as semanas. O peixe preto está tão bem alimentado que a varanda já começou a dar de si.

Nas traseiras da casa, na ponta do lado esquerdo, mandei construír uma cascata ruidosa. A cascata é suposto fazer correr mais dinheiro. E aparentemente funciona: com as indemnizações que os vizinhos me pediram a minha conta bancária parece mesmo um rio a escoar.

Dispus plantas de flor vermelha ao longo do corredor, em grupos de 3, até à porta de entrada. Já escorreguei várias vezes na merda das folhas e na última das quedas deixei de poder virar o pescoço para a direita. O ortopedista diz que é permanente.

Apontei uma luz no lado de fora para a minha porta de entrada de modo a estar iluminada durante a noite. Desde então passo a vida a explicar aos bêbados locais que a minha casa não é um bar de alterne.

Atestei todas as divisões da minha casa com plantas de folhagem verde em formas de moedas. Ainda estou para perceber que porra de efeito é que faz a forma da merda das flores.

Para criar um constante fluxo de energia mudo a minha mobília de sítio todos os dois meses. Um processo cansativo, e que requer muita energia para levar em ombros aquela porcaria toda. À conta disto, os vizinhos do andar de baixo fazem manifestações violentas à porta de minha casa e destroem-me sistematicamente os cães Fu.

Frequentemente limpo os meus armários da roupa, que ofereço à minha empregada ou a instituíções de beneficência. Segundo o Feng Shui manter roupa usada no armário interfere nas energias, tipo “bate na válvula e volta pra trás”. Estou a ficar sem grandes opções de escolha, vou ter de ir aos saldos brevemente.

Deixei de ouvir os Da Weasel e agora só ouço música com sons de floresta, de mar, ou de chuva a caír. Junto-lhe uns pauzinhos de insenso para dar um cheiro relaxante ao ambiente. A polícia já me entrou pela casa adentro algumas vezes julgando tratar-se da sede de uma seita Koreshiana. Pouco falta…

Pintei a minha caixa de correio com flores de cores garridas. Ficou foleiro à brava, mas assim não corro o risco de receber más notícias.

Retirei o espelho do tecto do meu quarto (mas mantive a cama redonda) e acrescentei espelhos em todas as divisões pequenas da casa, para criar uma maior sensação de espaço: confesso que ainda não me habituei a ver-me ao espelho enquanto estou sentado na pia.

Era suposto eu estar em paz e em perfeita harmonia com o que me rodeia, atravessado por uma onda de energia inexplicavelmente tranquilizante, mas não! Estou uma pilha de nervos, a minha casa parece ter sido decorada pelos chineses contorcionistas do Circo Chen, os vizinhos dão-me cabo da cabeça, o peixe negro já parece uma toninha, e a minha vontade é de contratar uma tribo somali feng shungueira que dê um andar diferente ao meu amigo arquitecto. Raizupartam!

[Humor Negro]

fevereiro 15, 2006

Post Atrasado

Atraso
Desde que nasci que ouço que o país está vinte anos atrasado em relação à Europa. Embora esta informação seja muito relativa (quem me diz a mim que não são os gajos que estão vinte anos adiantados?) a verdade é que o atraso faz parte da nossa portugalidade. Um tipo que chega a horas a qualquer sítio em Portugal ou é estrangeiro, ou atrasado mental (lá está, atrasado). A regra dos vinte minutos de atraso é escrupulosamente cumprida em qualquer reunião portuguesa – e não vale a pena chegar a horas, porque quem a agendou irá seguramente chegar atrasado vinte minutos.
Uma obra em Portugal só é considerada uma obra quando apresenta um atraso vergonhoso – senão fôr vergonhoso, é considerada uma obrinha, uma obreca, ou um bico d’obra. Outra coisa que tende também a atrasar em Portugal é o pagamento de qualquer coisa: salários em atraso é normal, prestações em atraso também, impostos em atraso idem.
Mas nisto do pagar atrasado, é o Estado português – essa abstracção incómoda – que bate todos os recordes: num jornal económico lia-se recentemente que os organismos do Estado pagavam, em média, 183 dias depois de terem recebido qualquer serviço. Eu por exemplo há 1.460 dias que espero (entre cartas insultuosas) que o Estado português me devolva o IRS que cobrou indevidamente.
O atraso estende-se a todos os sectores da sociedade nacional, e é algo perfeita e bovinamente natural para o vulgar cidadão: no ensino os estudantes deixam disciplinas em atraso, nos transportes o atraso faz parte do horário, as obras públicas vivem em permanente atraso, os processos atrasam-se uma eternidade nos tribunais, a polícia chega sempre atrasada ao local do crime, até a paciência dos portugueses está em atraso – se não estivesse já tinha havido merda da grossa.
Mas a grande e derradeira prova que o país está mesmo vinte anos atrasado é-nos dada pelos atrasados mentais da política nacional e pelas últimas eleições presidenciais – onde os intervenientes relevantes foram repescados de uma realidade política que existiu há vinte e cinco anos atrás. Desde então parece que não aconteceu nada… só atraso.


[Humor Negro]

fevereiro 12, 2006

Gera Coisos

geracional
A única coisa que a geração de 50 queria era esquecer-se da guerra e construir aquilo que tinha sido destruído pelos alucinados da geração anterior. E a coisa parecia simples e exequível.

Mais despreocupada, a geração de 60, queria fumar umas ganzas, fornicar que nem martas e pôr em questão a autoridade e o sistema: as doses de LSD baralhavam-lhes a ordem de prioridades a ponto de eles não saberem se também queriam fornicar a autoridade, fumar as martas, e pôr em questão o sexo.

A geração de 70 nunca percebeu em que década é que estava: descambaram nuns baralhados crónicos que ainda hoje se tentam encontrar e deixam toda a gente perdida (vejam-se os exemplos de Sócrates, Santana, Portas e Louçã).

A geração de 80 deixou-se dessas merdas dos estupefacientes alucinogéneos, adoptou os de via nasal, esticou o cabelo com gel, segurou as calças com suspensórios e achou que ia dar um rumo a isto tudo, até que se lixou no crash bolsista de 87. Desapareceram de fininho que nem dinossauros.

A geração de 90 criticou as gerações anteriores, mas não fez absolutamente nada que a marcasse como geração: foram uma espécie de híbridos atávicos a quem só faltava falar.

A geração de 00 sofre de um estigma de si próprio: que contribuição é que alguém caracterizado por um duplo zero pode dar à sociedade? Não faço a mínima ideia... nem eles.

As minhas esperanças estão com a geração de 10. Estes têm todas as condições para 10pertar, 10envolver, 10cobrir, 10vendar tudo aquilo que os imbecilóides das 4 gerações anteriores não conseguiram. Haja fé.

[Humor Negro]

Matraquilhos do Mar, Nobre Povo

matraquilhos
Os países têm em geral um ícone pelo qual são conhecidos internacionalmente, que acaba por ser o seu logotipo virtual: os espanhóis têm os touros (confesso que não percebo esta sua adoração por cornos), os ingleses têm o Big Ben, os franceses têm a Torre Eiffel, os brasileiros têm o carnaval e as bundinhas, os irlandeses têm a harpa, os escoceses o whisky e o monstro fictício do Loch Ness, os holandeses têm os moínhos, e assim por diante. E os portugueses, qual é o deles?
Sempre que penso no ícone dos portugueses lembro-me inevitavelmente dos matraquilhos. Acho que não há coisinha que traduza melhor a nossa portugalidade que um tabuleiro de matraquilhos: pequeninos e desajeitados, sempre tensos (reparem que os bonecos estão sempre em sentido), prontos a serem manipulados por outros, impedidos de se mexerem muito por uma barra de ferro que os atravessa a meio, sempre com o mesmo modo de actuar (para trás e para a frente), uns contra os outros a pontapear uma ridícula e velha bola de madeira, só funcionando quando se mete a moeda, e sem qualquer utilidade que não seja para alguém se divertir.
O matraquilho é Portugal em todo o seu esplendor. Sempre agarrado a uma caixa, e à espera da próxima moeda. Eleve-se a coisa a ícone nacional. Nós merecemos.

[Humor Negro]

fevereiro 11, 2006

Géneros

genero
Genericamente acho que se dá demasiado importância ao género. Divide-se o mundo em dois géneros e uma maçã, e atribui-se a cada um as suas virtudes e os seus defeitos, tentando infrutiferamente vislumbrar um sentido nas acções do «género oposto».
A própria designação «género oposto» é insidiosa, e remete para uma linha fronteiriça que não está lá, sugerindo que um género deverá sempre marrar contra o outro, o que normalmente acontece.
Mas o oligopólio dos dois géneros é algo tão irritantemente artificial como a linha do horizonte: já alguém alguma vez segurou a linha do horizonte firmemente, com ambas as mãos? Eu já, mas a vodka era de má qualidade e o barco balançava muito.
Pessoalmente acho que andamos todos a fazer género quando insistimos neste tratado de tordesilhas sexual, dividindo o mundo ao meio, metade para ti metade para mim, e depois passamos a vida empoleirados na cerca a tentar perceber o que está do outro lado e a tentar provar, ou comprovar, as diferenças que nos tornam o outro género. O sexismo é uma perda de tempo tão estúpida e vã quanto o racismo que, decididamente, não faz o meu género.
Por estas e por outras é que, quando o John Gray escreveu Os homens são Marte e as mulheres são de Vénus tive uma vontade irreprimível de lhe mandar lá a casa uma tribo de somalis de Plutão, devidamente untadinhos, com o intuito de lhe mostrar o quão retráctil pode ser uma próstata. Contive-me, claro.

[Humor Negro]

fevereiro 06, 2006

A Cabala (sem espinhas)

Sempre que viajo até ao Algarve ou Alentejo não consigo deixar de reparar num cartaz publicitário da Prevenção Rodoviária Portuguesa, e no sentido obscuro que este encerra. Este cartaz faz parte de uma conspiração estatal para solucionar o problema da segurança social portuguesa. É certo que quem olhe distraidamente para ele verá apenas um simples cartaz, destinado a sensibilizar os automobilistas lusitanos; mas uma segunda leitura, com uma ajudinha semiótica, revela-nos algo verdadeiramente tenebroso: a conspiração do Estado.
O cartaz é muito simples numa perspectiva iconográfica: tem um fundo amarelo, e mostra um desenho a preto, de um automóvel a atropelar violentamente um peão, que é cuspido pelo ar, a rodopiar. Até aqui tudo bem, se não fosse assinado pela frase «É melhor parar por aqui»!
Quer isto dizer que qualquer um de nós pode atropelar um peão, desde de que nos fiquemos por ali. Atropelar um gajo está bem, mas o melhor é não nos excitarmos muito e atropelar mais outro, porque nesse caso já não temos o aval da PRP.
Conseguem perceber o verdadeiro alcance deste incentivo? Qual a sua ligação com as políticas de reforma do sistema de segurança social? Passo a explicar: Em Portugal circulam cerca de cinco milhões e meio de veículos motorizados. O país tem dez milhões de habitantes. A maioria dos condutores de veículos motorizados pertence à população activa. Se os condutores seguirem o conselho da PRP e atropelarem violentamente não mais do que um peão, a população nacional passará para metade num ápice. Et voilá, sistema reformado. Estes gajos do Estado são maquiavélicos à brava!

[Humor Negro]

janeiro 31, 2006

O Terceiro F

futebol

A fechar a nossa trilogia nacional dos F's vem o Futebol, que actualmente é o F mais activo do país (se excluirmos o "foda-se pra isto" que gritamos diariamente quando lemos os jornais ou ligamos a TVI).
A culpa deste F ter um peso indiscritivelmente gigantesco na vida deste país é do tal ditador inteligente e pouco virtuoso referido no post anterior e de um rapaz menos inteligente mas mais virtuoso chamado Eusébio. Estes dois gajos fizeram o país inteiro acreditar que era alguma coisa de jeito, algures em 1966. É claro que nada aconteceu e o país mergulhou mais uma vez numa p