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junho 15, 2006

Dias lentos...

Lentos como sombras, os dias escorrem. Teimam em contrariar a mudança e sucedem-se iguais, oscilando entre o matraquear de teclas e os silêncios que me entram em casa por portas e janelas entreabertas. Escorrem cinzentos, dias cor de chumbo, silenciosos e abafados como a chuva envergonhada de hoje.
Tragam-me tempestades, raios e trovões, dias azul eléctrico, noites púrpura, madrugadas súbitas e inesperadas.
Tragam-me velocidade, embriaguez, incertezas, quedas, tragédias, desgostos de amor.
Deixem-me suspensa numa vertigem de abismo, ou quebrada no meio do chão.
Façam-me rir ou chorar como um palhaço.
Tudo menos esta exaustão de tédio.

fevereiro 07, 2006

Enviada especial

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2006, algures na Europa.
Estou de partida para Copenhaga em missão paralela.
É só para avisar a Direcção que se quiserem uma grande reportagem directamente do palco das ocorrências, é favor depositarem os honorários especias naquela continha na Suiça de que vos enviei o IBAN há uns tempos.
Quanto às despesas correntes, mando-vos as facturas depois, pelo correio do costume.
Até breve.

janeiro 25, 2006

Dissolução (fim - já era tempo, ha?)

Ao princípio era diferente – já te disse que o Culto mudou. Ao princípio deixava a cada um a tarefa de descobrir a sua verdadeira natureza, através de várias sessões. A minha casa parecia um centro de psicanálise, as horas do dia não me chegavam, e os resultados eram muito mais lentos. Foi então que criei o Ricto da Dissolução – já sabes como funciona, não preciso de te dizer. Claro que eram sempre guiados por mim, e no estado em que estavam não eram muito difíceis de guiar – um bocado como tu agora, já começa a fazer efeito, não é verdade? Uma sessão passou a bastar para encontrarem a sua verdadeira natureza.
Ao fim de algum tempo comecei a perceber que o dinheiro que precisava de gastar no Pão da Dissolução para os colocar em estado de receber a verdade acabava-me com as poupanças e a reforma, e foi então que criei o Terço da Dissolução. Só lamento não ter pensado nisso antes, mas de qualquer forma, veio na altura ideal, e se não o tivesse criado, nunca teria podido comprar os Templos.
E foi assim que aqui estamos, eu e tu, Maria, juntos outra vez. Nem queria acreditar, juro, quando te vi esta manhã à porta do Templo, e tu também ficaste surpreendida por me ver, tenho a certeza. Não sabias que era eu o Pastor, não é verdade? É, a vida dá muitas voltas. E aqui estamos, eu o teu Pastor, e tu a minha ovelha, Maria.

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janeiro 24, 2006

Dissolução (cont.)

Tu conheces os mandamentos do culto, Maria, foi por isso que voltaste, não tenho que tos repetir. Mas acho que não preciso de te dizer que eles não me chegaram assim em catadupa, perfeitamente delineados. As coisas foram surgindo com o tempo.
E ao início, devo dizer-te, não foi nada fácil conviver com o meu sentimento paternal em relação ao meu rebanho. Porque, vês, eu sentia a necessidade de partilhar a verdade com os outros, era uma necessidade urgente, palpitante, que não podia esperar, mas as primeiras pessoas que abordei não eram muito receptivas à revelação de que o destino de toda a humanidade é dissolver-se num monte de merda, e que só assim encontrará a paz. Ao princípio até foi desagradável, tive de fazer uso de todos os meus sentimentos paternais e superioridade moral para não deixar cair a minha ira sobre algumas ovelhas mais negras do meu rebanho, que me insultaram quando lhes tentei passar a mensagem. Tentei controlar-me e tentei perdoar-lhes, não sabem o que fazem, e consolei-me com a lembrança de que tinha sido sempre assim, em toda a história do mundo, as grandes ideias tinham sido sempre recebidas com hostilidade e escárnio.
Foi assim que percebi que, se queria atingir o meu objectivo de salvação das pobres ovelhas, tinha de seguir o caminho que me mostrava a História. Todos os Cultos do mundo o seguiram, e ele é bem simples. Tudo o que é preciso são duas coisas: disfarçar a verdadeira mensagem em palavras simpáticas que não ofendam as ovelhas ao início, e organização.

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janeiro 23, 2006

Em breve, world dominium...

A nossa querida Madge, ou Vit, ou Vit&Madge, as you like it, é uma das finalistas do Sixth Annual Weblog Awards, na categoria de melhor blog europeu!
É mais que merecido! É justo, muito justo!
Façam um favor, e vão votar!
Depois do desastre de ontem, aqui está uma eleição que nos pode redimir a todos.

Dissolução (cont.)

É por isso que quando digo que tudo começou com o sonho, estou mesmo a dizer a verdade. Foi do sonho que nasceu o Culto da Sagrada Dissolução, e se é certo que ele não nasceu perfeitamente acabado, se é certo que os pormenores e os mandamentos do Culto me foram surgindo nas horas, nos dias subsequentes ao sonho, a verdade é que foi ali que tudo começou.
Na verdade, a ideia do Culto em si só se materializou quando me chegaram os pormenores, e estes foram-me chegando quando comecei a racionalizar o sonho e o que tinha sentido.
Os primeiros chegaram logo nesse dia, enquanto fazia a barba em frente ao espelho – esse foi também o primeiro dia em que fiz a barba depois de ter sido mandado para casa, durante muito tempo tinha-me parecido inútil fazê-la, já que não tinha lado nenhum para onde ir onde tivesse de estar apresentável -, e continuaram a chegar depois, quando saí para a rua, pela primeira vez em muitos dias, para um lindo dia de sol, e comecei a passear ao acaso pelas ruas da cidade.
Na verdade, o raciocínio era muito simples, e o brilho dessa simplicidade não deixa de me atormentar – se tivesse tido esta revelação (é assim que lhe chamo, ao sonho, revelação, dá jeito usar palavras com conotação religiosa quando se tenta explicar o nascimento de um Culto) antes, quão diferente tinha sido a minha vida! Tenho a certeza, Maria, que não me terias deixado, por exemplo, e se se pensar bem em como o simples facto de teres saído de casa, numa manhã de Fevereiro há 10 anos atrás, mudou a minha vida, é fácil de ver como tudo teria sido diferente. Porque a verdade é que voltaste agora, Maria, portanto é seguro dizer que se tivesse pensado no culto antes, há 11 anos atrás, por exemplo, não me terias deixado. Ou talvez sem ter tido 10 anos sem ti a ideia do Culto nunca me tivesse chegado, mesmo que tivesse sonhado que o meu corpo se dissolvia em merda numa bela manhã de sol. Mas estou a dispersar-me – sim, como de costume, não me precisas de dizer – estava a explicar-te como me chegaram os pormenores.

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janeiro 20, 2006

Dissolução (cont.)

Acordei perplexo, como já disse, e quando acordei o suficiente para me lembrar de escrever, percebi que o sonho não tinha fugido por nenhuma estrada enevoada da minha memória e, portanto, não precisava escrever – o que só veio reforçar a minha ideia de que os cadernos de sonhos são na verdade projectos, se não impossíveis, certamente inúteis, porque daqueles sonhos que recordamos o suficiente para escrever nunca mais nos esquecemos, tal como eu nunca mais me esqueci deste.
Olhei bem para o meu corpo debaixo dos lençóis, passei as mãos por ele, e verifiquei com um certo alívio que continuava ali, o que confirmava que tinha sido um sonho, e na verdade não me tinha dissolvido em merda. Levantei-me de um salto, arranquei o pijama, e coloquei-me em frente ao espelho. Era bem verdade, tudo continuava no seu sítio, o meu corpo era exactamente como me lembrava de o ver no dia anterior de manhã. O meu reflexo encarava-me com um ar perplexo, mas não havia nada que eu pudesse fazer, realmente, a não ser o pequeno almoço.
E foi enquanto mastigava as torradas que percebi a minha própria perplexidade. Porque ela não se devia já a não saber como chegar a casa, como é bom de ver, uma vez que já lá me encontrava. Portanto, se era a isso que se devia a minha perplexidade antes de acordar, depois de acordado e de ter percebido que tinha tido um sonho, se continuava perplexo era por uma razão diferente. Dir-me-ás que uma pessoa sonhar que se desfaz num monte de merda é razão suficiente para justificar sentimentos de estranheza, e tens provavelmente razão, mas também não era só isso. Na verdade, o que me fazia sentir um friozinho de estranheza a percorrer-me a espinha era o facto de não conseguir compreender o que tinha sentido durante o sonho. Porque por debaixo de todos os sentimentos óbvios, a surpresa, o pânico, o receio e a perplexidade, tinham existido outros sentimentos, que ainda não tinha conseguido descrever em palavras, nem para mim mesmo, e que só identifiquei no momento preciso em que mastigava a primeira dentada na segunda torrada dessa manhã. No meu sonho, dissolvido num monte de merda no meio do passeio, por baixo de todos os sentimentos óbvios (a surpresa, o pânico, o receio e a perplexidade), eu tinha sentido uma paz, uma leveza, uma pureza como nunca tinha sentido antes. Parece estranho, eu sei, que alguém que se dissolveu em merda se sinta limpo, purificado, em paz. Mas o facto de ser estranho não o tornava menos verdade, e por mais que me esforçasse não conseguia lembrar-me de outra altura em que tivesse sentido o mesmo.
E foi ao compreender isto que tive a ideia que me salvou, a ideia que me permitiu encarar os longos meses, talvez anos que se estendiam vagarosos à minha frente desde que me tinham mandado para casa com reforma antecipada com o entusiasmo de quem tem um objectivo. Foi aí que nasceu a ideia do Culto.

janeiro 19, 2006

Dissolução

Olhando para trás, vejo bem que tudo começou com o sonho. Aquele de que me lembrei tão detalhadamente ao acordar que, pela primeira vez, não me senti culpado por não ter nunca posto em prática uma das minhas resoluções de ano novo desse ano, criar um caderno de sonhos. Porque eu até levei papel e lápis para ao pé da cama, mas quando acordava o suficiente para me lembrar de escrever, o sonho já tinha fugido, já se tinha perdido por uma estrada qualquer meio nevoenta da minha memória, e a única coisa que restava dele era a certeza que tinha existido, e uma vaga sensação de ter sido agradável ou não, às vezes uma ou outra cena que desaparecia prontamente assim que fazia qualquer tipo de esforço para a fixar. Foi então que decidi que, pelo menos para mim, o sonho e a realidade eram dois termos que se excluíam mutuamente, e que era inútil tentar criar o tal caderno de sonhos, por muito que todos dissessem o quão úteis eram para uma pessoa conseguir entrar em contacto com o seu eu mais profundo – coisa que sempre almejei porque, tendo em conta a minha dificuldade em contactar com outros seres da minha espécie, e tendo deixado de lado a ideia de contactar extra-terrestres desde tenra idade, se conseguisse contactar o meu eu mais profundo pelo menos sempre teria alguém com quem falar. Claro que esta decisão de nem sequer tentar não fez, como é hábito, desaparecer a culpa de não cumprir a minha resolução de ano novo, e é por isso que digo que, nesse dia, o dia do sonho, foi a primeira vez que não me senti culpado por não a ter cumprido.
Nesse dia acordei. Não me lembro bem se foi o sonho que me acordou, ou se foi o sol na janela, o que sei foi que quando acordei, me lembrava claramente do sonho. No sonho, eu andava na rua. Era uma rua vulgar, numa cidade vulgar, onde andavam pessoas vulgares. A única coisa que não era vulgar era a luz. No meu sonho era um lindo dia de sol, com um céu azul, azul, tão azul como não é vulgar ser numa cidade qualquer. E eu andava na rua, feliz com o sol e o azul. Esta foi a primeira parte do sonho, e era um sonho bastante vulgar, nada que indicasse que este sonho, entre tantos outros, seria aquele que me faria esquecer a culpa de não cumprir a minha resolução de ano novo desse ano.
Bem, no sonho eu andava na rua. E de repente, tão de repente que o meu corpo levou algum tempo a aperceber-se desse facto, e por momentos entrou em conflito com a minha cabeça, entraram em discussão sobre quem o tinha ordenado, se um ou o outro, o ovo ou a galinha, mas isso não interessa nada, foi o que lhes disse, porque o que interessa é que, de repente, parei. E quando me apercebi disso, no preciso momento em que já tinha parado e o meu corpo e a minha cabeça se puseram de acordo sobre esse facto, nesse preciso momento, dizia, foi quando me dissolvi.

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janeiro 17, 2006

Precisamente, doutor.

As árvores nuas fazem-me medo, doutor, foi por isso que vim.
Sim?
Sim. Não é que seja medo, medo, não acho que me vão atacar nem nada que se pareça. Mas é um problema, nesta altura do ano. Vivo com medo, não durmo de noite. Da minha janela, de onde se vê verde na Primavera, agora só existe cinzento, o cinzento escuro das árvores contra o cinzento mais claro do rio e do céu, e às vezes o cinzento mais escuro dos pássaros. Nem sei como eles se orientam, como não se perdem neste mundo todo da mesma cor que se vê da minha janela. Mas o pior não é isso, doutor.
Não?
Não. O pior é que a minha janela também vejo outras janelas. Muitas janelas, mas sobretudo duas, vermelhas, mesmo à minha frente. O pior é isso, doutor.
Sim... E porquê que é isso o pior?
Bem, o pior é que as minhas janelas são brancas, doutor.
Brancas...
Sim.
Hum....
Bem, provavelmente cinzentas também. Sim, de certeza que quem vive na casa das janelas vermelhas olha para as minhas janelas e as vê cinzentas, apesar de estarem pintadas de branco. Porque se eu olho para as janelas vermelhas, de certeza que olham para as minhas janelas brancas, não é verdade?
Pois, parece-me provável. Mas ainda não percebi do que tem medo, afinal. Das árvores ou das janelas?
Bem, das duas, suponho eu.
Das duas...
Sim, mas não das vermelhas, das minhas, brancas, ou cinzentas, como preferir.
Tem medo das suas janelas.
Bem, não é que seja medo, medo, não acho que me vão atacar nem nada que se pareça. Compreende, doutor?

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