
Eduard Munch - Mãe chorando a morte do filho
Porquê vinte para as três...
sim, porquê ?
porquê estarmos condicionados
a esquemas obsoletos e antiquados,
a programas previamente programados ?
Sim, porquê ?
Porquê tantos porquês ?
Porquê vinte para as três ?
As horas não têm vez !
Ah, e se os homens fossem bons,
e os políticos incorruptos...
Ah, e se os oceanos tombassem
em desfiladeiros abruptos...
Nesse caso
tanto poderiam ser
quatro e meia
como dez e cinco.
E até com um pouco de sorte
a própria hora da morte
poderia
ser meio-dia.
Mas
ai de quem disser oito e um quarto
ou duas e dez.
Será preso
julgado
condenado
São vinte para as três !
Ouviram ?
Para todos.
Seja sueco, mexicano ou português
São vinte para as três !
O que interessa é a ordem
e o vinco do fato.
O respeito (a submissão) aos poderes
instituídos
e o brilho do sapato.
Mas compreendem,
não é por mal.
é que há bandidos revolucionários
que se escondem ao pé das sete e tal
Sim, esses poetas
que passam o dia
a fazer poesia
sobre a utopia
das nove e quarenta.
e também os intelectuais
e as suas teorias.
escrevem livros,
espalham ideologias:
"Com seis e meia
na defesa dos oprimidos".
Não lhes dêem ouvidos !
São traidores !
Prefiram que os nossos promotores,
homens calmos, eficazes,
decididos,
vos ofereçam melhor:
O novo vinte para as três
...em comprimidos !
Vinte para as três.
Sempre vinte para as três...
Ah, se fossem quatro e meia !
A imaginação teria asas
voaria sobre os campos, sobre as casas,
até soltar no Ipiranga o grito
que ecoaria, para além do infinito.
E os relógios,
os relógios de cuco,
os de caixa alta, os de cozinha,
teriam cada um a sua hora.
E por esse mundo fora,
não se saberia se o amanhã era agora
se os sonhos bons poderiam ser verdade
e verdadeira a nossa liberdade.
Cada um
a sua hora,
conforme o gosto do freguês...
Mas são inexoravelmente vinte para as três.
Exactamente vinte para as três.
Pontualmente vinte para as três.
Pobre peão de xadrez !
parado no tempo,
suspenso no espaço,
por cima do traço
das vinte para as três.
(de Ávido de Luz - Dezembro 1974)